A vida previsível todos os dias. Pelo menos no exterior. Dentro dela uma revolução avançava. Respirar, viver, ser feliz. Deixar de gerir os dias em função dos compromissos. O despertador implacável. Os cinco minutos no duche gerindo os jactos de água com parcimónia por motivos ambientais, o barulho dos miúdos mais novos, a cara de maldisposta da mais velha, o beijo distraído do marido que sai mais cedo de casa, deixando à frente do pequeno exército que geraram em conjunto.

Quando eu era pequena vivia num pequeno oásis lisboeta, circundado de choupos de copas gigantes, com campos relvados do mais verde que há e arbustos com flores tipo confetti, que eu e o meu bando adorávamos arrancar e atirar uns aos outros.

James Baldwin tinha 24 anos quando chegou a Paris com apenas um punhado de dólares no bolso, a vontade de escapar à discriminação e o desejo feroz de dedicar a sua vida à escrita.

Há muito tempo, quando a Terra ainda tinha magia, as estações se encontravam e antes do Frio ser Inverno, havia uma floresta. Era grande, cheia de árvores frondosas e pequenas clareiras onde corriam riachos e havia tapetes de belas flores.

Tinha passado um par de anos desde o fim Grande Confinamento quando a reencontrou. Viu-os pelo canto do olho, os contornos da pessoa com quem habitou.

Endireita-te. Ombros para trás. Sabes que gosto que andes com as costas direitas, senão pareces mais baixo. É curioso o modo como eu ainda me preocupo contigo, depois de tudo. Não sei ao certo se sinto raiva, se estou zangada, ou apenas calma e com necessidade de te perdoar. Mas sinto pena de ti. E não queria.

O despertador tocou irritante pelas 8h00. Espreguiçou-se e respirou fundo. Agora não se podia queixar de falta de tempo para dormir. Quando os miúdos eram pequenos (parecia ontem, mas tinha sido há décadas) acordava pelas 06h00 para os chamar, vestir e dar o pequeno almoço, entre protestos e queixumes.

“Gorda e feia. Pouco esperta, coitadinha.”
Eis o diagnóstico instantâneo que o meu querido tio fez, assim que me teve na sua presença.

Li o “O Crime do Padre Amaro” ainda na adolescência. Causou-me tal impressão que resolvi relê-lo agora. Foi um daqueles livros. Dos que me deixaram um sentimento de revolta, um amargo de boca pelo injusto.

A primeira vez que comi os tradicionais bolos ingleses tinha nove ou dez anos. Foi a minha mãe quem mos fez depois de eu lhe ter perguntado o que eram por estarem sempre a aparecer nos lanches de Os cinco. Sem recurso ao Google, a minha mãe lá descobriu que bolinhos eram aqueles e daí para a frente, passei a acompanhar as aventuras da Zé, Ana, Júlio, David e Tim, devidamente munida de um pratinho deles.