A vida previsível todos os dias. Pelo menos no exterior. Dentro dela uma revolução avançava. Respirar, viver, ser feliz. Deixar de gerir os dias em função dos compromissos. O despertador implacável. Os cinco minutos no duche gerindo os jactos de água com parcimónia por motivos ambientais, o barulho dos miúdos mais novos, a cara de maldisposta da mais velha, o beijo distraído do marido que sai mais cedo de casa, deixando à frente do pequeno exército que geraram em conjunto.

Há muito tempo, quando a Terra ainda tinha magia, as estações se encontravam e antes do Frio ser Inverno, havia uma floresta. Era grande, cheia de árvores frondosas e pequenas clareiras onde corriam riachos e havia tapetes de belas flores.

Tinha passado um par de anos desde o fim Grande Confinamento quando a reencontrou. Viu-os pelo canto do olho, os contornos da pessoa com quem habitou.

Endireita-te. Ombros para trás. Sabes que gosto que andes com as costas direitas, senão pareces mais baixo. É curioso o modo como eu ainda me preocupo contigo, depois de tudo. Não sei ao certo se sinto raiva, se estou zangada, ou apenas calma e com necessidade de te perdoar. Mas sinto pena de ti. E não queria.

Inês nasceu e sempre viveu em Marvila. Não conhecia outra vida que não a do bairro. Vivia com a mãe, na Rua do Açúcar, numa casita pintada de azul-pavão para disfarçar as rachas e sinais de humidade.