O despertador tocou irritante pelas 8h00. Espreguiçou-se e respirou fundo. Agora não se podia queixar de falta de tempo para dormir. Quando os miúdos eram pequenos (parecia ontem, mas tinha sido há décadas) acordava pelas 06h00 para os chamar, vestir e dar o pequeno almoço, entre protestos e queixumes.

Quando surgiu a oportunidade de colaborar com a Revista, em novembro do ano passado, o objectivo passava por tentar fazer uma espécie de crónica cultural/social sobre espectáculos, concertos, livros, cinema e afins. Confesso que fiquei muito entusiasmada, não só com a possibilidade de partilhar gostos e pensamentos, mas também com o facto de antecipar um ano de 2020 repleto de saídas musicais. Podia abusar de todos os concertos que quisesse, sem problemas de consciência e sempre com a desculpa do trabalho de pesquisa para um novo artigo da Revista. E se havia boa música ao vivo em 2020! Metronomy, Bon Iver, Nick Cave, Michael Kiwanuka e tantos mais…

Julgo não me enganar se afirmar que, para a grande maioria das pessoas, a menção do nome Bórgia ilumina na sua galeria de sinónimos, num reflexo quase pavloviano, as palavras luxúria, veneno, homicídio, violência, incesto, e ainda crueldade, nepotismo, falsidade ou heresia, para só nomear as mais lisonjeiras.

“Gorda e feia. Pouco esperta, coitadinha.”
Eis o diagnóstico instantâneo que o meu querido tio fez, assim que me teve na sua presença.

Em tempos de confinamento social como os que por estes dias atravessamos, uma das coisas (entre tantas pequenas e grandes que fazem os nossos dias em tempos ditos “normais”) sacrificada é o convívio presencial com os amigos.

Assim está escrito no livro de Génesis, na versão latina da Bíblia. Da tradução, resulta uma forma mais conhecida, Faça-se luz, e a luz foi feita.
Esta passagem bíblica, fabulosamente representada por Michelangelo no tecto da Capela Sistina, é o ponto Alfa da Criação, o início de tudo, o momento em que as trevas se desvaneceram e a luz se perpetuou sobre a escuridão, para iluminar o universo criado por Deus.

Li o “O Crime do Padre Amaro” ainda na adolescência. Causou-me tal impressão que resolvi relê-lo agora. Foi um daqueles livros. Dos que me deixaram um sentimento de revolta, um amargo de boca pelo injusto.

O ano de 2020 começou insistindo em relembrar-nos que o ano anterior estava mais próximo do que divisões gregorianas pudessem sugerir. Ninguém exemplificou isso melhor do que o presidente americano quando, a 3 de Janeiro, anunciou que tinha eliminado o líder dos Quds do Irão.

Ana Luísa Janeira nasceu no Porto e é filósofa. Caracteriza-se como reflexiva e não especulativa e, talvez por isso, se tenha dedicado ao estudo e ensino da Filosofia das Ciências.
Foi ela quem escolheu o tema da nossa conversa: o “ideal” e como ele pode moldar o nosso quotidiano. O seu foi, desde cedo, ser uma viajante.