“Gorda e feia. Pouco esperta, coitadinha.”
Eis o diagnóstico instantâneo que o meu querido tio fez, assim que me teve na sua presença.

Em tempos de confinamento social como os que por estes dias atravessamos, uma das coisas (entre tantas pequenas e grandes que fazem os nossos dias em tempos ditos “normais”) sacrificada é o convívio presencial com os amigos.

Assim está escrito no livro de Génesis, na versão latina da Bíblia. Da tradução, resulta uma forma mais conhecida, Faça-se luz, e a luz foi feita.
Esta passagem bíblica, fabulosamente representada por Michelangelo no tecto da Capela Sistina, é o ponto Alfa da Criação, o início de tudo, o momento em que as trevas se desvaneceram e a luz se perpetuou sobre a escuridão, para iluminar o universo criado por Deus.

Li o “O Crime do Padre Amaro” ainda na adolescência. Causou-me tal impressão que resolvi relê-lo agora. Foi um daqueles livros. Dos que me deixaram um sentimento de revolta, um amargo de boca pelo injusto.

O ano de 2020 começou insistindo em relembrar-nos que o ano anterior estava mais próximo do que divisões gregorianas pudessem sugerir. Ninguém exemplificou isso melhor do que o presidente americano quando, a 3 de Janeiro, anunciou que tinha eliminado o líder dos Quds do Irão.

Ana Luísa Janeira nasceu no Porto e é filósofa. Caracteriza-se como reflexiva e não especulativa e, talvez por isso, se tenha dedicado ao estudo e ensino da Filosofia das Ciências.
Foi ela quem escolheu o tema da nossa conversa: o “ideal” e como ele pode moldar o nosso quotidiano. O seu foi, desde cedo, ser uma viajante.

A primeira vez que comi os tradicionais bolos ingleses tinha nove ou dez anos. Foi a minha mãe quem mos fez depois de eu lhe ter perguntado o que eram por estarem sempre a aparecer nos lanches de Os cinco. Sem recurso ao Google, a minha mãe lá descobriu que bolinhos eram aqueles e daí para a frente, passei a acompanhar as aventuras da Zé, Ana, Júlio, David e Tim, devidamente munida de um pratinho deles.

Tudo é válido para suportar a passagem do tempo neste regime domiciliário. Por serem tempos estranhos, finalmente, consegui dedicar o meu tempo à terceira temporada de Stranger Things.

Vivemos tempos estranhos. Viveremos tempos mais auspiciosos mesmo que as coisas tenham de piorar antes de melhorar. Haverá um mundo a construir após a pandemia. Grandes crises representam grandes perigos, mas também enormes oportunidades.