O espírito da viagem

Esta viagem começa numa tarde da minha infância. Tinha 11 ou 12 anos e os livros infantis estavam a ser paulatinamente substituídos pelas tramas policiais engendradas por Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, uma evolução natural para quem tinha seguido com entusiasmo os mistérios de Os Cinco. Os quatro primos e o Tim nunca encontravam cadáveres. Mas eles eram o ingrediente fundamental das histórias narradas pelos meus novos companheiros. Ao homicídio, Christie juntava amiúde o exotismo das terras longínquas. Crime no Expresso do Oriente, Morte no Nilo e Morte entre Ruínas estão entre os livros que li nesse tempo e a que ainda hoje volto com entusiasmo, apesar de já saber há muito quem são os assassinos.

Joker

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.”
Foi esta frase da autoria de Bertolt Brecht que ecoou em mim quando passavam os créditos finais do aclamado e multipremiado Joker, de Todd Philips, de 2019.

Auroras

Os lençóis engelhados na cama, as nucas transpiradas, os músculos da cara completamente relaxados que fazem o queixo descair e a boca ficar, inteiramente, aberta. Sem posição estereotipada, o corpo, num descanso profundo. São assim as auroras dos dias de viagem, todos, sem exceção!

A vida previsível todos os dias. Pelo menos no exterior. Dentro dela uma revolução avançava. Respirar, viver, ser feliz. Deixar de gerir os dias em função dos compromissos. O despertador implacável. Os cinco minutos no duche gerindo os jactos de água com parcimónia por motivos ambientais, o barulho dos miúdos mais novos, a cara de maldisposta da mais velha, o beijo distraído do marido que sai mais cedo de casa, deixando à frente do pequeno exército que geraram em conjunto.

Quando eu era pequena vivia num pequeno oásis lisboeta, circundado de choupos de copas gigantes, com campos relvados do mais verde que há e arbustos com flores tipo confetti, que eu e o meu bando adorávamos arrancar e atirar uns aos outros.

A quarentena tem destas coisas. Livros, CDs, filmes e documentários sempre adiados ganham tempo e espaço para, finalmente, entrarem na nossa vida. Uma das minhas escolhas foi Dennis McShade, pseudónimo de Dinis Machado (1930-2008).

Aquele sítio distante, onde íamos uma vez por ano, nas férias grandes, num autocarro sem ar condicionado que saía do Campo Pequeno às sete da manhã e chegava a Chaves já depois do lusco fusco das sete da tarde. Eram viagens intermináveis, quase tão longas quanto a Odisseia de Ulisses.

Viagem a uma ideia da América e o fora cá dentro

Muitos de nós terão presente no seu imaginário uma noção da América- como informalmente nos referimos aos Estados Unidos da América, e como eles próprios escolhem apresentar-se, o que não deixa de ser indicativo da própria psique nacional que reclama para si a denominação continental – largamente baseada no seu excepcionalismo como nação. O sonho americano – a noção de que qualquer pessoa consegue ser bem sucedida desde que se dedique a esse propósito – é tão endémico como tarte de maçã.