O espírito da viagem

Esta viagem começa numa tarde da minha infância. Tinha 11 ou 12 anos e os livros infantis estavam a ser paulatinamente substituídos pelas tramas policiais engendradas por Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, uma evolução natural para quem tinha seguido com entusiasmo os mistérios de Os Cinco. Os quatro primos e o Tim nunca encontravam cadáveres. Mas eles eram o ingrediente fundamental das histórias narradas pelos meus novos companheiros. Ao homicídio, Christie juntava amiúde o exotismo das terras longínquas. Crime no Expresso do Oriente, Morte no Nilo e Morte entre Ruínas estão entre os livros que li nesse tempo e a que ainda hoje volto com entusiasmo, apesar de já saber há muito quem são os assassinos.

Joker

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.”
Foi esta frase da autoria de Bertolt Brecht que ecoou em mim quando passavam os créditos finais do aclamado e multipremiado Joker, de Todd Philips, de 2019.

Auroras

Os lençóis engelhados na cama, as nucas transpiradas, os músculos da cara completamente relaxados que fazem o queixo descair e a boca ficar, inteiramente, aberta. Sem posição estereotipada, o corpo, num descanso profundo. São assim as auroras dos dias de viagem, todos, sem exceção!

Aquele sítio distante, onde íamos uma vez por ano, nas férias grandes, num autocarro sem ar condicionado que saía do Campo Pequeno às sete da manhã e chegava a Chaves já depois do lusco fusco das sete da tarde. Eram viagens intermináveis, quase tão longas quanto a Odisseia de Ulisses.