A minha infância foi bombardeada por imagens de África. A fome, a seca, as guerras civis, rostos de crianças esfomeadas. Foi a época do Band Aid, do “Do They Know It’s Christmas?”

As amizades masculinas eram limitadas por uma certa ambiência erótica, promessa realizada ou apenas sonhada. As mulheres eram rivais, divididas entre a admiração e a inveja.

Foi em 1955 que, pela primeira vez, Mujica Láinez tomou conhecimento da existência de misteriosas esculturas sitas num quase desconhecido jardim italiano. Foi em 1958 que visitou, pela primeira vez, as monstruosas estátuas de pedra do Bosco Sacro, sito na localidade de Bomarzo, algures a meio caminho entre Florença e Roma

Inês nasceu e sempre viveu em Marvila. Não conhecia outra vida que não a do bairro. Vivia com a mãe, na Rua do Açúcar, numa casita pintada de azul-pavão para disfarçar as rachas e sinais de humidade.

Dezassete por Isabella Voltinhas

Quarenta anos já feitos. Com sorte, estava a meio da vida. Cheguei a casa cansada. Não era novidade nos últimos tempos. Tomei um duche enquanto ouvia, pela enésima vez, “Seventeen” da Sharon Van Etten e enfiei o pijama enquanto tentava dançar atabalhoadamente ao ritmo da batida. Era sexta-feira.

Gente Pequena por Antónia Sá.
Chegou o famigerado fim-de-semana onde me cabe a mim cumprir a promessa que fiz aos meus filhos:”Siiimm, é este fim-de-semana que a prima cá vem dormir. Mas têm que se portar bem.”

A Última Carta por Adriana Calado

Numa noite de verão ao pé do cais na margem sul. Tu e eu, cada um com o seu grupo de amigos a jantar aproveitando a brisa depois de sobreviver a mais um dia infernal na cidade. Estavas de pé a fumar um cigarro. Aproximei-me e pedi-te lume.