A primeira vez que comi os tradicionais bolos ingleses tinha nove ou dez anos. Foi a minha mãe quem mos fez depois de eu lhe ter perguntado o que eram por estarem sempre a aparecer nos lanches de Os cinco. Sem recurso ao Google, a minha mãe lá descobriu que bolinhos eram aqueles e daí para a frente, passei a acompanhar as aventuras da Zé, Ana, Júlio, David e Tim, devidamente munida de um pratinho deles.

Ainda hoje me surpreende o modo como os demais convivas não ouviram o meu coração a bater descontroladamente. Tinha-se instalado uma atmosfera de normalidade a partir do momento em que nos sentámos à mesa que apenas a mim, pelos vistos, parecia bizarra.

Olho para trás e sinto que o bosque me engoliu, não encontro o caminho de regresso para o meu carro. O animal fita-me, como se visse mais do que era suposto.

As questões que perpassaram a vida de Carolina Maria de Jesus e o seu “Quarto de Despejo” continuam actuais numa sociedade em que persistem gritantes assimetrias e injustiças sociais: muitas “salas de visita” e muitos “quartos de despejo”.

Consegui atrair a enorme e grotesca lagarta para fora de casa graças a um rasto de madeira que fui deixando. Todos os pedaços que encontrava eram para ela. Foi comendo até chegarmos ao armazém.

Durante muitos anos da minha juventude, habituei-me a ver o filme Quo Vadis nas quadras festivas. Creio que era por ocasião do Natal que o filme era transmitido na televisão, normalmente alternando com o Ben-Hur ou com Os Dez Mandamentos. A memória que retenho dessas grandes produções da época de ouro de Hollywood é muito escassa, mas invariavelmente positiva.

Vieram-me à memória, em torrente, imagens de mim pequena, em que aguardava a chegada da minha avó ao fim do dia a casa, com os seus bonitos saias-casaco e sapatos de salto alto.