No radar

BRIDGERTON (L to R) REGƒ-JEAN PAGE as SIMON BASSET and PHOEBE DYNEVOR as DAPHNE BRIDGERTON in episode 102 of BRIDGERTON Cr. LIAM DANIEL/NETFLIX © 2020

Bridgerton

por Fernando M.

Hoje proponho uma receita de entretenimento puro e duro: a guilty pleasure. Imagine uma enorme nuvem de algodão doce bem colorida. Agora, pense numa série de televisão dramática, cuja ação decorra no início do século XIX em Londres. Misture vigorosamente o algodão doce com a série televisiva e voilá: eis Bridgerton, o novo sucesso da plataforma Netflix. Se procura um produto televisivo leve, descomprometido, muito bem produzido e interpretado, que entretenha e estimule nesta fase de confinamento, não vá mais adiante esta é a série de que está a precisar.

A partir dos romances da autoria de Julia Quinn, Chris Van Dusen criou uma série televisiva que assenta nas venturas e desventuras de um conjunto de jovens mulheres e homens de alta sociedade em busca do par ideal, numa sequência feérica de bailes de debutantes durante a época de apresentação à corte da Rainha Charlotte. Como o nome da série indica a ação centra-se em torno da família Bridgerton: uma Viscondessa viúva, os seus quatro filhos e quatro filhas, entre as quais se destaca a protagonista Daphne, que se mostra determinada em encontrar o marido perfeito.

Em contramão, o protagonista é Simon Basset, um Duque, que embora frequente a corte se mostra irredutível na decisão de não casar. Muitas outras personagens e histórias desfilam em cenários sumptuosos e coloridos, que nos enchem os olhos neste inverno cinzento de confinamento: amores não correspondidos, gravidezes indesejadas, boxe, adultério, o vício do jogo, duelos, rumores e boatos, etc.

Até aqui o leitor/espectador experimentado em séries baseadas nos romances das irmãs Brontë ou de Jane Austen perguntará: mas o que tem de especial ou diferente esta série?

A resposta é Shonda Rhimes. A maga da televisão americana responsável pela produção de inúmeros sucessos como Grey’s Anatomy, Scandal ou How to get away with murder é a produtora desta série de acabamentos perfeitos, guarda-roupa irrepreensível e cenários sumptuosos. Mas é na escolha do elenco – ou casting como se diz em “estrangeiro” – que se esconde a revolução.

Foi escolha deliberada da produção da série selecionar os atores independentemente da sua cor de pele ou, melhor, deliberadamente pela sua cor de pele. A Rainha de Inglaterra é interpretada por uma atriz negra – respondendo afirmativamente aos rumores históricos que Charlotte de Mecklenburg-Strelitz teria ascendência africana ou moura – tal como o são vários outros personagens da nobreza ou do povo.

Esta miscigenação do elenco, que atende ao talento independentemente da cor, tem o condão de trazer a ação para o mundo moderno e contemporâneo ao mesmo tempo que acentua o caráter ficcional da série – infelizmente, bem sabemos que a nobreza europeia não revelava à data diversidade étnica. Como diz o seu autor, a série não é “daltónica” porque “isso implicaria que a cor e a raça nunca foram considerados quando cor e a raça fazem parte do programa”.

No âmbito do elenco não posso deixar de enaltecer a presença marcante da voz de Julie Andrews, a eterna Mary Poppins, que relata a ação e imprime um carater distintamente britânico à narrativa.

Bridgerton é um sonho, que se vê sem esforço emocional, com prazer pela beleza dos cenários e de quem os povoa, deixando o espetador deliciado com uma história sobre problemas de pessoas de outros tempos, que, com alegria, nos fazem esquecer dos nossos. Não há melhor para estes dias cinzentos, frios e enclausurados em casa.

BRIDGERTON (L to R) REGƒ-JEAN PAGE as SIMON BASSET and PHOEBE DYNEVOR as DAPHNE BRIDGERTON in episode 102 of BRIDGERTON Cr. LIAM DANIEL/NETFLIX © 2020