Leituras

por Adriana Calado

Primeiro ouço um pássaro a cantar timidamente junto de um regato. Depois outro e outro que se lhe juntam, acompanhados das notas improváveis de um piano. Fico uns segundos em negação, querendo acreditar que há um engano, estou a acordar no sábado de manhã, não na segunda-feira, às 06h00. Espreguiço-me e adio o despertador por dez minutos. Passam demasiado rápido, como me apercebo quando volto a ouvir o trinado dos pássaros tropicais que cantam junto às aguas de um regato perdido num qualquer pedaço de selva onde também gostava de estar. Capitulo à realidade e levanto-me sem acender as luzes, guiada por um fio ténue de claridade matinal que se espalha pelo corredor. Sigo para a cozinha sem o gato, por certo ainda a exercer o seu direito inalienável a dormir até quando muito bem lhe apetecer.

Do lado de fora da janela está um dia de inverno, daqueles a que só Fernando Pessoa conseguiu ver beleza. Chove, está ainda a clarear, mas, coisa estranha, não há ninguém nas ruas. Ouço uma sirene ao longe, mas o movimento de transeuntes e carros habitual nos dias de semana está ausente. Bebo um copo de água em goles lentos e saboreados e ligo o rádio. O locutor não exibe a voz bem-disposta e animada que o caracteriza. Fala de modo pausado, com aquele tom de voz de tranquila autoridade que nos deixa logo a pensar que aconteceu alguma coisa má.

“Mais uma vez pedimos aos ouvintes que fiquem em casa, não saiam sob pretexto algum. É esta a informação e alerta que nos chega das autoridades nacionais. As crianças não irão à escola e todas as faltas ao trabalho estão já justificadas e…”

Mudo a estação de rádio, lentamente. Estarei com alucinações auditivas? O que se passa? Apanho uma e outra estação de rádio. A informação é idêntica.

“Ainda não se sabe bem a origem do fenómeno …”

“Foram feitos avistamentos também em Marrocos e temos notícia de que na Nova Zelândia alguns agricultores afirmam que objectos vindos do céu se despenharam em fogo …”

“A Coreia do Norte e o Irão negaram já qualquer responsabilidade e apelaram à cooperação internacional …”

“… terrorismo internacional…”

“A presença de extraterrestres tem sido documentada há séculos, não é uma surpresa para ninguém com um mínimo de atenção. Eles vigiam-nos há anos.”

Uma das estações de rádio passa um nocturno de Chopin, exibindo aristocrática indiferença ao que aparenta ser uma ameaça global.

Sigo para a sala, deixando o gato a tomar o pequeno-almoço, também ele desapegado dos acontecimentos.

Os vários canais de televisão são pouco elucidativos. Os canais nacionais fazem eco das imagens captadas pela BBC, CNN e Al Jazeera, com comentadores ouvidos por Skype a partir de casa. O que se sabe é isto: de um pouco por todo o mundo, desde as primeiras horas da madrugada, chegam notícias de uma invasão de seres desconhecidos. Os primeiros relatos de naves espaciais foram descartados como sendo excentricidade de uns poucos ou uma partida de alguns. Mas à medida que o novo dia ia entrando chegaram relatos e confirmações oficiais.

Os EUA pensaram estarem a ser invadidos pela Coreia do Norte e esta acreditou estar sob ataque da Rússia. O Irão ponderou que era o alvo de uma ofensiva norte-americana. Só com um grande esforço diplomático perceberam que não estavam a atacar-se entre si, mas antes a tomar conhecimento de uma nova força.

“Poderá ser uma organização terrorista internacional? Como o estado islâmico, por exemplo?”, pergunta o excitado jornalista de uma das nossas cadeias de televisão doméstica.

“Autoproclamado, quer você dizer”, corrige a analista e prossegue “não sabemos, é tudo prematuro, claramente é uma situação glob…”

Um barulho lá fora convoca a minha atenção. Da janela da sala vejo tanques e uma ambulância do INEM. Não há comunicações telefónicas, como verifico quanto tento fazer um telefonema. Sinto-me estonteada e algo perdida, sem saber o que fazer, calculando que no mundo não faltará quem sinta o mesmo.

A caminho do quarto passo pela cozinha e abro a despensa. Tenho massa, arroz, latas de atum natural e sardinha em molho de tomate. E também uma lata de milho e outra de feijão preto. Enfim, quando os frescos acabarem tenho o que comer se esta situação se mantiver.

Volto ao quarto e acendo a luz. E é aí que verifico que há um homem a dormir inesperadamente na minha cama. Retenho a respiração, será um invasor? Dou a volta ao quarto para o observar de frente. Esfrego os olhos incrédula. O homem não é um desconhecido. Alto, com o cabelo negro e a dormir de forma plácida no lado esquerdo da minha cama, está o meu vizinho da frente, um tipo simpático com quem nunca troquei, ao que me lembre, mais de duas ou três palavras. Observo-o tentando perceber o que faz ali. Ainda não consegui perceber a cadeia de acontecimentos que ali o trouxe quando ele acorda. Espreguiça-se e sorri. Não se mostra surpreendido, mas há algo no meu olhar que o alerta.

“Está tudo bem, querida? O que se passa, pareces assustada…”

Não sei por onde começar realmente. O estado de sítio que se instalou no país com a proibição (dita recomendação) de sairmos de casa, a invasão alienígena ou o facto mais prosaico de um quase estranho estar a acordar na minha cama com uma naturalidade que destoa da minha surpresa. Opto pela versão mais simples.

“Está a chover imenso.”

Vejo um sorriso desenhar-se-lhe nos lábios finos e rosados. Estende-me a mão e abre um pouco o édredon.

“Olha que pena! Assim sendo, é capaz de ser melhor dormirmos mais um bocadinho, o que dizes?”

Com ou sem invasão, a ideia é-me muito agradável. Deito-me ao lado dele, tentando não parecer demasiado confusa. Preciso de pensar com clareza, digo para mim mesma, enquanto deito a cabeça no seu peito quente e fecho os olhos. Adormeço de imediato.

Não terão passado dois minutos quando o som da flauta boliviana invade o quarto, com insistência e autoridade. Abro os olhos e viro-me na cama. Gus, o meu rafeiro armado em lorde inglês, olha-me expectante sentado no tapete com a trela na boca. Sim, mais um dia e é mesmo hora de pequeno-almoço e passei!

Confusa, sento-me na cama. O lado esquerdo está vazio, sem rasto da presença cálida de há pouco. Lá fora está sol, mas pela cor da luz matinal percebo que choveu de madrugada. Ligo o rádio e oiço a voz habitual, com a energia de quem acordou muitas horas antes para estar nos estúdios a fazer o programa.

“Vamos lá pessoal, está de chuva mas o sol já vem aí. E eu já cá estou para vos ajudar a enfrentar a nova semana. Eu e as Bangles, lembra-se desta? A sua voz dá espaço à batida inconfundível de Manic Monday …