No radar

Perry Mason

por Fernando M.

A arte salva? Esta é uma pergunta de cariz filosófico, digna de profundas reflexões que merece, da minha parte, uma resposta afirmativa imediata. Todos os que têm ou tiveram a felicidade de serem expostos a manifestações artísticas sabem bem o impacto que a força redentora da arte, seja ela qual for, assume na alma humana, especialmente em momentos de aflição ou sofrimento.

Há muitos anos li na biografia que Vítor Pavão dos Santos escreveu sobre Amália, cuja leitura também recomendo, que num momento de depressão profunda a cantora foi salva do abismo através dos filmes musicais protagonizados por Fred Astaire, que lhe devolveram a vontade de viver. Neste confinamento que nos assola (também para nos salvar) é na arte que busco a redenção. Livros, filmes, séries são eles o intervalo benfazejo do teletrabalho ou do pesado ócio de nada ter para fazer. Entre eles gostaria de destacar, por estes dias, a série Perry Mason, que ostenta o selo de qualidade HBO.

Nesta série, decorrida nos anos 30, ao invés de encontrarmos o consagrado advogado de defesa, assistimos às origens do personagem-título como detetive privado, também encarregue de auxiliar um advogado na obtenção de provas para os seus casos. Carregando os traumas da Grande Guerra na qual combateu e de um divórcio, que o deixou só, Perry Mason surge-nos como um homem algo derrotado, à procura de si mesmo, que se vê confrontado com a necessidade imperiosa de lutar pela vida de alguém.

A trama desta primeira temporada gravita em torno do rapto de um bebé, numa Los Angeles recuperada da Grande Depressão e envolta em movimentos religiosos que galvanizam o povo desesperançado. O tom noir da série é o enquadramento perfeito para uma história que se apresenta soturna, povoada por personagens misteriosos, esquivos, fanáticos e violentos, que nos vão prendendo à medida que a narrativa avança.

Matthew Rhys, ator galês conhecido pelo seu desempenho como protagonista da série The Americans, lidera o elenco primoroso desta série, com grande destaque e competência, já reconhecida pela crítica na sua recente nomeação para os Golden Globes como melhor ator numa série televisiva dramática. Se é verdade que para muitos de nós Perry Mason será sempre Raymond Burr, não é menos verdade que o desempenho atormentado e um pouco cínico de Rhys é irrepreensível, apresentando uma nova face de um personagem clássico.

A acompanhá-lo, entre muitos outros dignos de referência, encontramos a bela e talentosa Juliet Rylance como a secretária Della Street, Chris Chalk como o polícia Paul Drake e John Lithgow no papel do advogado E.B. Jonathan. Lithgow que granjeou enorme popularidade pelos seus personagens cómicos revela a cada desempenho numa série dramática uma autenticidade intensa, que meritoriamente o tornam um dos grandes atores dos nossos tempos, como foi abundantemente reconhecido na sua interpretação de Churchill na série The Crown.

Adultério, ganância, jogo, fanatismo religioso, corrupção e solidão são estes alguns dos muitos temas que vimos espelhados ao longo destes oitos episódios, que acabam, infelizmente, depressa de mais.

Perry Mason é uma bela trufa negra televisiva, que merece a degustação atenta nestes tempos de isolamento nas nossas casas e nos faz recordar que há sempre uma luz ao fundo de um túnel escuro.