Herança

por João Possante

Mão amiga e fraterna fez-me chegar (igualmente à mão) o mais recente CD do Grupo Vocal Olisipo, intitulado “Herança – A música da Sé de Évora”.

A mão fraterna que me facultou o disco é também a que conduz, desde a sua fundação em 1988, o Grupo Vocal Olisipo, o seu director artístico, barítono e irmão, Armando Possante.

O Grupo Vocal Olisipo, presentemente composto, para além do Armando Possante, pela soprano Elsa Cortez, pelas meio-sopranos Maria Luísa Tavares e Lucinda Gerhardt e pelo tenor Carlos Monteiro, criou, desde a sua fundação, uma reputação de qualidade, rigor e criatividade que o distingue no cenário cultural nacional mas, de igual modo, no mais exigente panorama internacional.

Internamente, o Grupo Vocal Olisipo tem no seu currículo a participação nos principais Festivais Musicais Nacionai, tendo actuado, entre outros palcos, no Centro de Arte Moderna, no Centro Cultural de Belém, no Teatro Nacional de S. Carlos, na Casa da Música ou no Teatro Rivoli.

A nível internacional, para além de se ter apresentado em concertos por toda a Europa, participou como convidado no congresso da ABCD em Inglaterra, no Festival 500 no Canadá, no International A Cappella Festival em Singapura e no Centro Botín em Espanha, tendo conquistado diversos prémios em concursos, nomeadamente os primeiros prémios no Concurso International May Choir Competition em Varna, Bulgária; no Tampere Choir Festival na Finlândia; no 36º Concorso Internazionale C.A.Seghizzi em Gorizia, Itália; e no 5º Concorso Internazionale di Riva del Garda em Itália.

O repertório deste colectivo, vasto e eclético, integra obras que se estendem do período medieval à contemporaneidade, tendo-lhe permitindo apresentar em primeira audição obras de numerosos compositors, entre os quais, Bob Chilcott, Ivan Moody, Christopher Bochmann, Eurico Carrapatoso, Vasco Mendonça, Luís Tinoco, Manuel Pedro Ferreira, Anne Victorino d’Almeida, António Pinho Vargas, Carlos Marecos, Daniel Davis, Edward Luiz Ayres d’Abreu, Fernando Lapa, José Carlos Sousa, Nuno Côrte-Real, Sérgio Azevedo e Tiago Derriça.

Quanto ao domínio dos registos fonográficos, para além das gravações das “Cantatas Maçónicas” de Mozart para a EMI e do “Magnificat” de Eurico Carrapatoso, o Grupo Vocal Olisipo já se aventurara, por diversas vezes, no registo performativo de obras dos polifonistas da Sé de Évora, concretizando-os nas felizes gravações do “Officium Defunctorum” de Estêvão de Brito e das “Matinas de Natal” de Estêvão Lopes Morago para a editora Movieplay, e, ainda, de “Tenebrae”, com música de Francisco Martins e Manuel Cardoso, para a Diálogos.

As gravações em CD das obras destes últimos autores já evidenciavam o interesse do Grupo Vocal Olisipo pela música polifónica que, desde inícios do século XVI, foi composta na Sé de Évora ou influenciada pelos seus cultores e que culmina neste magnifico e original trabalho de recolha, interpretação e criação artística.

A obra que agora divulgamos e que motiva estas linhas – “Herança – A música da Sé de Évora” – pode ser entendida, numa das suas vertentes, como uma obra conceptual que se propõe desvelar os segredos do acervo polifónico do arquivo da Sé de Évora, através da divulgação de 27 peças criadas por 12 compositores activos entre os séculos XVI e XIX, criteriosamente seleccionadas, e ilustrativas daquela realidade musical regional, bem como da evolução da criação musical nela produzida e por ela influenciada e determinada. 

Tomando de empréstimo as palavras de Luís Henriques, musicólogo que colaborou na recolha e transcrição de algumas das obras agora interpretadas, diremos que as peças que integram este disco «constituem uma antologia de polifonia vocal sacra da Catedral de Évora, abrangendo quase dois séculos, período em que esta se distinguiu como um dos mais importantes centros musicais portugueses. Por um lado, encontram-se representados compositores que, embora não tenham desenvolvido atividade nessa instituição, possuem laços musicais à mesma, sobretudo através da sua aprendizagem musical. Por outro lado, a presença de obras de compositores que exerceram funções na Catedral, como mestres de capela, mestres da Claustra ou cantores, até ao início do século XIX atesta a continuidade da escrita vocal a cappella nesta instituição eborense».

A interpretação do Grupo Vocal Olisipo é, para além de cristalina e delicada, escrupulosa e tecnicamente esmerada, encontrando-se suportada num meticuloso trabalho de captação e de produção fonográfico, logrando conquistar-nos as emoções e extrair das estruturas e texturas sonoras, com autenticidade e talento, a substância da mensagem, conseguindo transportar-nos para o espaço virtual de uma catedral potencial que apenas alberga o ouvinte e os cantores.

Para além da qualidade artística e técnica plasmada neste registo discográfico, também a rica e interessante informação constante do livrete que acompanha o disco – contendo versões bilingues (latim e português) dos textos musicados, traduzidos por Frederico Lourenço, bem como um conjunto de «Poemas – Testamentos» da autoria de Tiago Patrício – apresenta-se corporizada num preclaro suporte físico revelador da cuidada e elegante concepção gráfica de João Vasco servida, para além disso por uma harmoniosa e equilibrada ilustração fotográfica.

O disco já se encontra em venda nas discotecas, mas, ainda assim, é possível adquiri-lo e ouvir um excerto do mesmo em: grupovocalolisipo.com.

Recomendo – porque vale a pena – a audição da “Herança” do Grupo Vocal Olisipo.