Sociedade

As viagens marítimas

por Luís Ramos

Harmonia Macrocosmica de Andreas Cellarius  – Sistema Ptolemaico

A 7 de Julho de 1497 Vasco da Gama partia do Restelo comandando uma frota de quatro navios, iniciando a primeira viagem a caminho da Índia. É empolgante imaginar a partida desta frota pelo Tejo, acontecimento esse que se repetiu inúmeras vezes, para outras viagens, outros destinos, outras descobertas. A população em terra, numa troca de acenos de despedida com a tripulação dos navios, parte do velame cheio de ar dando às naus um ar engalanado e imponente e a azáfama dos marinheiros já dedicados aos trabalhos a bordo para uma largada perfeita.

Chegar a este ponto de partida foi, já em si, uma verdadeira viagem feita através do saber, do conhecimento científico e do desenvolvimento tecnológico. Os Descobrimentos trouxeram desafios completamente novos que não seriam apenas ultrapassáveis pela perseverança e coragem humana já feita a conquistas marítimas, mas também pelo muito trabalho de preparação feito em terra, para se conseguir uma viagem de sucesso no mar.

Antes do início do século XV, as navegações resumiam-se a trajectos em linha de vista com a costa, ou por estima dentro de um determinado rumo, caso houvesse um maior afastamento. Mesmo na era clássica, e posteriormente na Idade Média, as travessias no Mediterrâneo não exigiam muito mais que alguns apetrechos náuticos mais simples, como a agulha magnética (ou bússola), a ampulheta, o prumo de mão e as cartas-portulano, com indicação dos rumos magnéticos, juntando-se a isto o conhecimento empírico dos navegantes sobre o comportamento meteorológico, os tipos de ventos, as correntes, as marés previstas por observação da lua e os eventuais perigos que pudessem surgir em certos locais da costa quando faziam determinada rota. Em suma, era um conhecimento eminentemente prático. Estas técnicas eram suficientes para se efectuarem viagens por mar em distâncias relativamente curtas, contudo, para que se desse início ao empreendimento das viagens oceânicas era necessário adicionar outro tipo de técnicas ao conhecimento já adquirido. Os pontos de referência na costa, que eram até então a principal referência para localização, deixavam de ser utilizáveis, pois os navios passariam semanas e meses em alto mar. Adicionalmente, o facto de as distâncias percorridas serem muitíssimo maiores, obrigava a que o erro cometido nas medições efectuadas tivesse de ser o menor possível, sob pena de totalizar um erro acumulado ao longo da viagem incompatível com o destino a que se pretendia chegar.

A chave para o sucesso, estava nas estrelas. Ainda que o conhecimento sobre o tema não fosse novo de todo, era necessário desenvolver, melhorar e sobretudo adaptar esse conhecimento à arte de navegar.  

A orientação sem grande precisão pelos astros é um exercício relativamente fácil e é utilizado desde os primeiros navegadores, viajantes de jornadas mais longas, ou até em movimentos migratórios. Um exemplo de fácil orientação pelos astros: no hemisfério Norte, o Sol nasce a Este, passa no quadrante Sul do céu durante o dia e põe-se a Oeste, ou seja, qualquer observador consegue, sem grande dificuldade, definir os quatros pontos cardeais. Também de noite, é possível definir estes pontos de orientação se partirmos da estrela Polar, que aponta para Norte, sendo depois fácil saber para onde fica o Sul, assim como os pontos cardeais Este e Oeste, pois fazem uma perpendicular ao eixo imaginário Norte-Sul. É igualmente possível reconhecer o Norte pelas estrelas e constelações circumpolares que rodam em torno do eixo imaginário e que apontam para esse ponto cardeal. O mesmo acontece com as estrelas e constelações pertencentes ao quadrante Sul. A estrela Antares, na constelação do Escorpião, ou Sirius, na constelação do Cão Maior, sendo localizadas no céu, confirmam que se está a olhar para o quadrante Sul.

Definir a latitude do lugar era de grande importância para entender a localização. O facto de a estrela Polar estar nas imediações do eixo da Terra, permite a fácil leitura da latitude, já que, a sua altura (ângulo) em relação ao horizonte estabelece a latitude do local. Em Lisboa, a estrela Polar é medida com 38º de altitude, em Faro com 36º, e em Viana do Castelo contará com 41º. Com este exemplo se percebe que o erro nas medições não pode ser grande já que uma diferença de 5º faria o navegador alcançar Viana do Castelo quando o seu destino era Faro. Contudo, ter a estrela Polar como referência não é suficiente, pois após a passagem do Equador terrestre, esta estrela deixa de ser visível. Este obstáculo foi ultrapassado com a determinação da latitude a partir da altura meridiana do Sol.

Assim, antes de se iniciarem as viagens marítimas de longa distância, era preciso medir o céu com o maior rigor possível, e desenvolver aparelhos de medida cada vez mais precisos e exactos.  Nesse sentido, o contributo do conhecimento do povo árabe, legado do período em que este experienciou uma enorme expansão territorial e cultural durante a Idade Média, com uma forte presença na Península Ibérica, que foi invadida pelas tropas comandadas por Tárique em 711, foi de extrema relevância. Este conhecimento era igualmente avançado e amplo no campo da astronomia. No entretanto, a Europa vivia numa decadência científica sem precedentes.

A Península Ibérica, ou Al-Andaluz, era privilegiada em matéria de conhecimento em relação aos territórios para lá dos Pirenéus, que eram defendidos continuamente pelas tropas do império Carolíngio. Cidades como Córdova e Toledo foram florescendo como importantes centros culturais e intelectuais do pensamento aristotélico, desenvolvidos e tolerantes, dando lugar a uma miscigenação das culturas islâmica, judaica e até cristã. O Al-Andaluz teve o seu apogeu entre os anos 929-1031, também conhecido como período de ouro, sem dúvida alimentado pelas ligações e intercâmbio com outros centros cosmopolitas como Bagdad, Damasco, Cairo, Tunes ou Bassorá. Este ambiente foi propício à existência de várias personalidades que contribuíram com um trabalho importante e notável para o conhecimento astronómico, tais como Mashallah [740-815], Alcuarismi [780-850], Albaténio [858-929], douto da Casa da Sabedoria de Bagdad, Abd a-Rahman al-Sufi [903-986], tradutor de obras como o Almagesto de Ptolemeu, Alfargano [séc. IX], Ibn al-Saffar [?-1035], Arzaquiel [1029-1087], conhecido pelas tabelas Toledanas, ou ainda Abraham Ibn Ezra [1089-1167]. Porém, as lutas que iam existindo pelo poder entre diferentes facções internas, levaram ao enfraquecimento e consequente desmembramento do califado de Córdova, tendo ficado, contudo, o conhecimento, herança daqueles que virão mais tarde a ser os reis cristãos da Península Ibérica. É Afonso X, o Sábio, avô de D. Dinis, quem manda compilar o conhecimento astronómico à época no El Libro del Saber de Astronomia, também conhecido como Tabelas Afonsinas, que serão utilizadas por largos anos.

Astrolábio de Ibrahim ibn’id al-Sahli, Toledo, 1067. Imagem History of Science Museum, Oxford

O Globo Celeste árabe mais antigo que se conhece data de 1085, feito por Ibrahim ibn’id al-Sahli em Valência. Imagem: Museu Galileo, Florença.

Livro das Constelações das Estrelas Fixa por ibn Umar al-Sufi em 964. Este astrónomo contribuiu para a preservação da mitologia helénica através da tradução da mesma para árabe. As figuras acima apresentam o mito de Andrómeda e Perseu e o seu cavalo alado Pégaso, todas elas dando nomes a constelações. Manuscrito é uma cópia do séc. XIV.

Com a conquista de Granada, dá-se a consolidação cristã em território castelhano, e a rainha Isabel de Castela, a Católica, expulsa de forma decidida quem professava as religiões islâmica e judaica. O distinto astrónomo judeu sefardita Abraão Zacuto [1450-1522], chega a Portugal por volta de 1492, fugindo da conversão tornada obrigatória no país vizinho. Zacuto torna-se astrónomo Real, e é pela mão deste astrónomo que é escrito em hebraico o Almanaque Perpétuo, posteriormente traduzido para latim e castelhano pelo seu discípulo, Mestre José Vizinho, natural da Covilhã, também este um astrónomo judeu e ao serviço da coroa portuguesa. Teoriza-se que as tabelas astronómicas, corrigidas para os anos de 1497-1500 e convertidas em declinações prontas a usar a bordo para a determinação da latitude do lugar, tenham sido calculadas por Zacuto e entregues a Vasco da Gama para o empreendimento do caminho marítimo para a Índia.

Mais tarde, também Portugal cai na intolerância quando expulsa todos os que não se convertessem à fé católica, fazendo cumprir uma das condições para o casamento de D. Manuel com Isabel de Aragão, filha de Isabel de Castela, momento esse que dará o mote à criação do tribunal da Inquisição. Com a existência desta imposição, Abraão Zacuto torna-se de novo refugiado, desta vez em Tunes no Norte de África. Ainda assim, o seu legado permaneceu e anos mais tarde Pedro Nunes [1502–1578], cosmógrafo-mor e detentor da cátedra de matemática na Universidade de Coimbra, escreve a notável obra de matemática O Tratado da Esfera, resolvendo a questão da linha loxodrómica[1]. Para além de outros contributos importantes para o desenvolvimento da náutica portuguesa, Pedro Nunes elabora uma edição traduzida para português, com anotações e correcções do Tratado da Esfera de Sacrobosco, obra de referência com cerca de 300 anos.

O pensamento humano na Península Ibérica em finais do século XV já não era o mesmo de há uns séculos atrás, o embrião do Renascimento científico estava latente. Com o advento dos descobrimentos era preciso formar pilotos, era preciso saber ler e escrever, ter conhecimentos de aritmética e capacidade de interpretação das medições efectuadas a bordo. O mundo estava cada vez maior, os novos territórios apresentavam novas realidades zoológicas e botânicas. Todas estas circunstâncias permitiram que se começasse a questionar a perfeição aristotélica e, consequentemente, os cânones ptolemaicos. Não é unânime a opinião dos historiadores na escolha do evento mais representativo para estabelecer a fronteira temporal entre a Idade Média e o Renascimento. A escolha recai principalmente entre duas possibilidades: a descoberta das Américas, em 1492 por Cristóvão Colombo, ou a queda de Constantinopla, último reduto do antigo império romano a Oriente após a conquista dos Turcos em 1453. Na minha opinião, a primeira fará mais sentido, porque associada às descobertas marítimas está o fortíssimo contributo para o que viria a ser a alteração da forma de pensar sobre a natureza, as ciências e o mundo que rodeou a humanidade ocidental. Para além disso, se a queda do império romano do Ocidente em 476 fez eclipsar a luz das artes e das ciências que iluminavam o mundo clássico, o Renascimento veio relançar essa oportunidade perdida há cerca de 1000 anos, e o advento dos descobrimentos pode ter sido o catalisador necessário para que essa luz regressasse. O historiador de ciência, Henrique Leitão, sugere a ideia de que os descobrimentos ibéricos tiveram uma contribuição relevante para o desenvolvimento da ciência europeia nos séculos seguintes, ponto de vista esse, que segundo este historiador, tem sido tendencialmente desvalorizado pela história da ciência.

A viagem da frota de Vasco da Gama até à India foi muito mais que atravessar dois oceanos e percorrer milhares de milhas procurando novos mundos. Com eles foi o saber acumulado de séculos que permitiria contribuir, por sua vez, para a aurora de um novo conhecimento.


[1] – A linha loxodrómica é de grande importância para as navegações marítimas e aéreas, especialmente em viagens que implicam longas distância onde a forma esférica da Terra tem expressão.