No radar

Succession

por Fernando M.

De acordo com o dicionário online de língua portuguesa da Porto Editora, sucessão é um nome feminino que significa ato ou efeito de suceder; sequência, continuação; situação em que uma pessoa fica investida num direito ou numa obrigação que antes pertencia a outra pessoa; chamamento de uma ou mais pessoas à titularidade das relações jurídicas patrimoniais de uma pessoa falecida e a consequente devolução dos bens que a esta pertenciam; bens; descendência, prole e geração.

Succession, por sua vez, é o nome da série satírica de comédia dramática criada por Jesse Armstrong e difundida pela HBO.

E, porventura, perguntam: que tem a bota a ver com a perdigota? Neste caso tudo.

Desde sempre que a arte, como imitação da vida, fez da família – unidade base da sociedade – o fundamento de conflitos ou guerras até. Basta pensar, por mero exemplo, nas tragédias gregas de Sófocles – Antígona, Édipo Rei, Electra – ou em clássicos shakesperianos como são Romeu e Julieta, Hamlet ou o Rei Lear.

Todos esses textos fundam-se, na essência ou a título lateral, no litígio que surge entre pessoas que têm como denominador comum os laços indissolúveis do sangue.

É, pois, na família que o drama se adensa.

Por outro lado, não é menos verdade que é também no seio familiar que a comédia é mais debochada, mais descontrolada, pois não conhece as fronteiras da decência e do bom gosto. É no meio da família que, devido à intimidade, pessoas que se amam (ou podiam/deviam amar) dizem as maiores barbaridades umas às outras, tantas vezes com um efeito cómico devastador.

A intimidade é potenciadora do escárnio, da crítica mais feroz, que por vezes também é (ainda que de forma torpe) manifestação de afeto. A ironia aguça-se entre seres que se conhecem muito bem e sabem quais são os pontos fracos do oponente, mesmo que esse oponente seja o objeto da nossa afeição.

E a ligação entre sucessão e Sucession? – perguntará o leitor que ainda não desistiu do texto.

Succession é uma série que tem como ponto de partida a família Roy.

Logan Roy, interpretado pelo brilhante Brian Cox, é um empresário de provecta idade, que está há longos anos à frente de um grupo empresarial de média (tabloide) e entretenimento, abrangendo canais de notícias, navios de cruzeiro e até parques temáticos.

Trata-se de um self-made man, inspirado em personalidades como Rupert Murdoch, que a duras penas – passando por cima de tudo e todos! – ergueu um império empresarial fundado na exploração da miséria e degradação humana.

Considerando a idade e a saúde periclitante do líder-ancião os seus filhos e herdeiros perfilam-se numa luta pelo poder de que o pai (aparentemente) ainda não está disposto a abdicar: uma luta pela sucessão.

Mas, quem são estes filhos?

Connor – o mais velho – é o filho único do primeiro casamento do patriarca; trata-se de alguém que vive alienado da vida empresarial da família e fora da esfera geográfica do poder daquele. Nada faz, apesar de sonhar com o mundo da política.

Por sua vez, Kendall é o arquétipo do filho ambicioso que muito preparado tecnicamente está disposto a demonstrar, a todo o momento, estar à altura da tarefa de comandar o império criado pelo pai e de ser, a todo o custo, o seu digno sucessor.

Siobhan, ou simplesmente Shiv, é a única filha do patriarca, que apesar de ter uma vida profissional distante do grupo empresarial do pai – é consultora política – demonstra ter uma particular sagacidade paras as questões corporativas e para os jogos de bastidores nesta luta familiar pelo poder.

Por último, last but not the least, o benjamim Roman é o filho mimado que sem grandes qualificações académicas ou de experiência profissional arroga-se a ousadia de se achar naturalmente melhor que os demais e, por isso, o mais merecedor de ser o escolhido.

Para além dos filhos e dos seus apêndices (namorados, genros, noras, ex-mulheres… até um sobrinho-neto que aparentemente insosso trilha um caminho próprio de ascensão) no conflito destaca-se também a discreta e misteriosa mulher do empresário, e madrasta dos filhos deste: Marcia.

Afinal, não há boas histórias sem uma boa madrasta (má?!)!

O argumento é uma montanha russa de emoções, voltas e reviravoltas e golpes nas costas, à boa moda do romano Brutus. Quando pensamos que antevemos qual o próximo passo das personagens elas surpreendem-nos com atitudes que, dentro da plausibilidade do seu carácter, ainda assim nos admiram.

Os diálogos são aguçados como facas, apresentando uma linguagem desbragada pontuada com palavrões que não estão lá para chocar o espectador, mas para sublinhar a intemperança dos personagens.

O texto revela-se um compromisso entre a seriedade das questões abordadas e a multiplicidade de frases de fina ironia, que nos forçam o esboço de um sorriso na pior das situações.

É verdadeiramente uma sátira sobre a natureza humana, que se constrói a pretexto de lutas por conselhos de administração de empresas, fusões e aquisições, o movimento feminista do me too, notícias falsas, assédio sexual, efabulação de candidatos políticos, trabalho escravo, jogos de bastidores, etc.

Apesar do contexto das personagens ser o do privilégio [vestem de forma luxuosa, vivem em mansões, são conduzidos em carros de alta cilindrada ou viajam de helicóptero, como o comum dos cidadãos apanha metro], não é menos verdade que as personagens são todas profundamente humanas. Ali não existem heróis ou vilões, mas pessoas de carne e osso que têm virtudes, sonhos e defeitos.

Como qualquer produção da HBO, Succession é formalmente perfeita desde o genérico ao guarda-roupa, da banda sonora aos cenários, sem esquecer, claro está, o primoroso elenco.

Sarah Snook, Matthew Macfadyen, Hiam Abbass, J. Smith-Cameron, Alan Ruck, Nicholas Braun, James Cromwell e Holly Hunter são nomes destacados deste elenco coeso e muito talentoso, que num crescendo tornam fascinantemente verosímeis as suas personagens.

Entre este elenco não posso deixar de atribuir o devido destaque ao talentoso Brian Cox, que encontrou o tom certo para interpretar um homem que a final está (muito) relutante em entregar as rédeas do que construiu durante toda a vida.

Afinal, ainda, há bons papéis para homens de certa idade!

A liderar a ação deparamo-nos também com o impressionante Jeremy Strong que ao interpretar o mais humano dos irmãos – Kendall – transforma a fragilidade da adição da sua personagem numa força motriz. A cada episódio constrói-se e desconstrói-se, com uma emoção tensa, nos acertos e falhas de um percurso acidentado.

Por último, destacaria também o surpreendente Kieran Culkin – irmão do celebérrimo Macaulay – que fez do seu Roman um personagem eletrizante, do qual não conseguimos desviar a atenção.

Sucession é uma série sobre o ato ou efeito de suceder, sobre a materialidade dos bens, do poder e do dinheiro. Também é sobre a descendência: sobre quem deixamos a seguir a nós, que pessoas e com que valores. É sobre o sentido de prole ou geração, da união do sangue na luta pelo interesse individual ou pelos sacrifícios de sangue que a ambição de cada um exige.

Succession não é para almas impressionáveis com a feiura do mundo, mas pode constituir uma boa oportunidade para pensarmos e sorrirmos sobre os defeitos de multimilionários americanos, que são, enfim e na verdade, também os nossos.