Leituras

O Banquete de Platão, ou uma viagem pelos territórios do Amor e do Belo – 1.ª Parte

por João Pedro Baptista

Platão, pormenor de Rafael, Escola de Atenas, 1510-11, Vaticano

Platão (n. 428/427 a.C., m. 348/347 a.C.) é uma das figuras mais fascinantes da nossa civilização, quer pela singularidade e originalidade da sua filosofia no contexto em que surgiu, quer pela enorme influência que teve nos séculos vindouros e nas mais variadas áreas do pensamento e da sociedade.

Foi a partir da sua Teoria das Formas (ou Ideias) e da sua revisão pelos neoplatónicos, com destaque para Plotino, que o cristianismo construiu grande parte do seu aparato teórico (a influência do pensamento de Aristóteles no cristianismo só se fez sentir muito mais tarde, aquando da sua redescoberta ocidental por via árabe na Baixa Idade Média); o seu contributo para a epistemologia foi decisivo e durou séculos: o conceito de conhecimento que é apresentado no diálogo Teeteto manteve-se referencial até meados do século XX e ainda hoje é um marco incontornável nessas investigações filosóficas; A ciência política continua a polarizar-se em torno das suas ideias relativas à organização da República, entre aqueles que nelas vêem uma prefiguração dos totalitarismos e das ditaduras do mundo contemporâneo, com as suas censuras e inquisições, e outros que, ao invés, ali encontram um manancial inesgotável de busca do aperfeiçoamento das sociedades através da sua modelação na justiça e na excelência.

Mas, como comecei por dizer, para além deste legado de Platão, um dos aspectos que mais fascina na sua leitura é a forma como consegue conjugar num texto excepcional uma obra-prima tanto no plano literário, como filosófico; simultaneamente uma peça de teatro e uma obra do pensamento. Como salienta Roger-Pol Droit, cada um dos seus diálogos parece ser animado pela própria dinâmica do pensamento – diverso, imprevisível, ora progredindo, ora regredindo, quase sempre esbarrando em aporias inultrapassáveis – surgindo como a forma mais eficaz de traduzir o sentido de pesquisa e de busca dialéctica do saber, segundo um método maiêutico que se tornou célebre através da figura de Sócrates, o mestre de Platão. Os seus diálogos tanto podem ser lidos pelo prazer quase lúdico das conversas e das situações, por vezes cómicas pelo uso manifesto da famosa ironia socrática – que se fazia passar por ignorante, desarmando assim os seus interlocutores e expondo-os perante a aparência do seu conhecimento –, como pela sua vertente filosófica, que se entrelaça de forma natural e espontânea no contexto dramático.

Porém, o recurso ao diálogo como meio de expor o pensamento – e que seria adoptado durante séculos e séculos – encerra, no caso de Platão, uma ambiguidade nunca resolvida: a incerteza sobre quais as suas verdadeiras ideias e quais as que expõe mas sem com elas se comprometer. Em grande parte dos seus diálogos visando o esclarecimento de determinadas questões – o que é a coragem, o que é a piedade, o que é o conhecimento, o que é a virtude, etc. – não se alcança uma solução definitiva, impondo-se antes a aporia. Mas, mesmo nos casos em que algumas conclusões são alcançadas, nada garante que elas sejam as soluções perfilhadas por Platão. Apesar do muito que deixou escrito, de tantas ideias lhe serem atribuídas, este parece ser o único filósofo do qual se desconhece a doutrina exacta, pois não há nenhuma obra em que Platão exponha, com clareza e de forma explícita, em que consiste a sua filosofia. Ao mesmo tempo que é um criador incansável de encenações do pensamento, Platão resguarda-se na retaguarda, lançando quase sempre no palco a figura de Sócrates, que nada deixou escrito. A literatura da especialidade discute exaustivamente a distinção entre o Sócrates histórico e o Sócrates personagem e em que medida as ideias que este apresenta nos diálogos platónicos pertencem a um ou a outro – ou a nenhum deles… Daí que o platonismo, como também salienta Roger-Pol Droit, não se consiga encontrar na obra de Platão, sendo uma invenção posterior, uma criação de outros, que não dele. Porém, se essa incerteza virtualmente insolúvel alimenta investigações académicas infindáveis, ela constitui igualmente um ingrediente adicional para tornar a leitura de Platão extremamente aliciante para quem tenha curiosidade e gosto pela especulação intelectual.

É precisamente neste pressuposto que assenta este texto, que pretende ser um convite à descoberta – ou à redescoberta, para quem já o tenha lido – de uma das obras mais marcantes e estimulantes de Platão: O Symposium (Συμπόσιον, sympòsion, que significa, literalmente, concílio) ou, como ficou mais conhecido em português, o Banquete.

Fresco do século V a.C., da antiga colónia grega Poseidonia, sul de Itália

A Estética foi uma das áreas em que o pensamento de Platão (com as ressalvas já assinaladas) deixou marcas indeléveis, ainda que muitos as vejam sem, todavia, as identificar. O que é retido, muitas vezes, é a ideia de uma condenação severa e injusta da poesia como uma actividade que, por assentar apenas numa produção imagética de cariz mimético, afasta os homens da verdadeira realidade e do conhecimento e, logo, da virtude. Quem leia os Livros III e X da República poderá olhar para Platão, et pour cause, como um censor das artes e da criatividade, um déspota em potência que infantiliza os cidadãos. Isto porque é relativamente consensual, na modernidade, que a poesia, como a música e as artes em geral, constituem algumas das manifestações mais elevadas e nobres do espírito humano, aquelas realizações que nos fazem transcender a dimensão contingente que nos é própria e inarredável e que permitem alcançar algo de mais perene e essencial enquanto elemento unificador e identificador do ser humano.

Porém, mau grado a sua posição relativamente às artes, a verdade é que a influência de Platão na estética, mais ou menos directa, permanece até aos dias de hoje. Quem leia algum Camões (veja-se, por exemplo, o poema Sôbolos rios que vão, das Redondilhas de Babel e Sião: Quem do vil contentamento / Cá deste mundo visibil, / Quanto ao homem for possibil, / Passar logo entendimento / Para o mundo intelligibil; / Alli achará alegria / Em tudo perfeita, e cheia / De tão suave harmonia, / Que nem por pouca recreia, / Nem por sobeja enfastia), ou quem atente na obra de pintura Boticelli, onde o essencial era conseguir exprimir, com a maior veemência possível, a beleza ideal “não a das coisas belas, mas a da divina beleza que as transfigura”, reconhece imediatamente a sua filiação neoplatónica. Mesmo já no século XX, o cubismo e a obra de Paul Klee constituem emanações filiadas de forma plenamente discernível, ainda que não directa, nas teorias platónicas sobre a concepção do Belo e sobre a imagem.

Um dos aspectos mais interessantes – e porventura mais originais – em Platão, na vertente ligada à estética, é uma ideia que contraria um pouco a associação que normalmente fazemos entre as artes e o “Belo”. Independentemente da concepção do belo que perfilhemos, normalmente associamo-lo às artes, entendidas como actividades humanas de produção do belo, ou que visam a beleza. Embora na contemporaneidade o belo tenha deixado de ser o parâmetro principal para a valorização das produções artísticas, a verdade é que ele assumiu-se durante séculos como o critério fundamental pelo qual se avaliava uma determinada obra de arte. Porém, em Platão, a via para o belo não se faz pelas artes, senão antes pelo amor. As artes, encaradas como technai, isto é, competências de produção de objectos, permitem apenas criar entes sensíveis por mimese dos modelos eternos, as Formas e, nessa medida, têm um estatuto ontológico diminuído. A verdadeira via para o Belo, em si mesmo considerado, faz-se pela dinâmica amorosa. E é precisamente sobre essa via que versa o Banquete (escrito ca. 385 a.C.)

Cópia manuscrita em papiro de uma passagem do Banquete

É reconhecido que Platão não tem uma teoria compreensiva do amor (eros). Ao invés, o tratamento que faz dessa temática é fragmentário e não sistemático, não sendo possível sequer encontrar uma perfeita conciliação entre os vários diálogos que o abordam. Além isso, a temática do amor parece ser tributária de um enquadramento metafísico mais amplo, o da Teoria das Formas e o papel que a filosofia nele desempenha. Platão não parece estar interessado em dizer-nos como seria viver com alguém que fosse um amante platónico, ou em estabelecer as regulações da vida amorosa. O relevante no seu tratamento do amor, designadamente no Banquete, é o estabelecimento de uma ponte entre o eros e a filosofia, sendo que este diálogo se ocupa primordialmente do objecto do amor, que identifica com o Belo (to kalon). Já no diálogo Fedro, tido como posterior ao Banquete, Platão aborda predominantemente o amor sob a perspectiva da dialéctica entre amante e amado, no plano da subjectividade, e o processo de elevação progressiva da alma até ao mundo das Ideias, apresentando o estado amoroso como uma loucura divina.

Ao contrário do que sucede com grande parte dos diálogos platónicos, o Banquete estrutura-se mais como uma sequência de discursos, entrecortados com pequenos apontamentos narrativos, por vezes cómicos, que os concatenam e conferem sentido de ordem. A narração segue o modelo da história dentro da história, pois que o narrador primário, Apolodoro, discípulo de Sócrates, conta o que lhe foi contado por outro discípulo de Sócrates, Aristodemo, sobre um banquete que tivera lugar em casa de Ágaton e no qual participara. E, posteriormente, como veremos, surgirá ainda uma nova narração dentro destas narrações, tudo contribuindo para velar a real doutrina platónica.

Banquete, detalhe de vaso grego do século IV a.C., Kunsthistorisches Museum, Viena

De acordo com a tradição ateniense, o symposion era um evento que compreendia duas partes: o deipnos (jantar) e o potos (bebida), constituindo esta última o symposion propriamente dito, ou seja, o momento em que os convivas se organizavam para beber e discutiam os temas da sua eleição, muitas vezes a partir da escolha de um tema comum e seguindo regras perfeitamente definidas.

O Banquete, de Platão, retrata bem esta realidade, sendo que o tema escolhido para os discursos foi precisamente o amor: «cada um de nós deverá apresentar um discurso de elogia ao Amor, o mais belo que lhe for possível, seguindo pela direita», proporá Erixímaco (177d).

Seguem-se então os discursos dos vários convivas, que nos apresentam concepções de Eros muito distintas, ainda que no conjunto se perceba uma certa linha que culminará no discurso de Sócrates.

Nos discursos de Fedro (178a a 180c) e de Pausânias (180c a 185c) encontramos uma concepção essencialmente mitológica de Eros.

Fedro, um jovem aristocrata e retórico, recua a Hesíoso, Acusilau e Parménides para estabelecer a genealogia divina de Eros, cuja magnificência se traduz na capacidade de inspirar nos homens feitos belos, afastando-os da vergonha de cometer acções vis, o que se reveste de capital importância política, pois «se houvesse processo de constituir um Estado ou um exército só de amantes e amados, que organização melhor poderia encontrar-se? Homens como estes, afeitos a repudiarem toda a espécie de vileza, a emularem entre si na honra (…) seriam, por assim dizer, capazes de vencer o mundo inteiro!» (179a).

Já Pausânias, amante do poeta Ágaton, perfilhando ainda a concepção mitológica de Eros, introduz uma distinção fundamental entre o amor celeste e o amor popular, na base da existência de duas Afrodites: uma mais antiga, filha do Céu – a Afrodite celeste ou Urânia – e uma mais recente, filha de Zeus e de Dione – a Afrodite popular ou Pandemos (pandemos etimologicamente significa “de todo o povo”). O amor popular, inspirado por esta última, é aquele em que se «amam (…) os corpos de preferência às almas e, essas mesmo, só as mais destituídas de inteligência que conseguem encontrar! Na verdade, tudo o que procuram é a satisfação dos impulsos, sem se importarem com o que é ou deixa de ser digno» (181b). Já o amor celeste, inspirado pela mais antiga Afrodite, está indelevelmente associado a uma vertente ética e que corresponde à pederastia, um «amor isento de excesso», que não tem outro fim senão aperfeiçoar a alma do amado, educando-o no seu sentido mais lato e conduzindo-o à virtude. Sublinhe-se que a pederastia (paiderastia, do grego paîs, paidòs filho, filha, criança e erastes, amante), na antiguidade clássica, não tinha a conotação depreciativa que hoje tem, associada à pedofilia enquanto crime contra a auto-determinação sexual; ao invés, era uma relação entre o mestre adulto (o erastes) e o discípulo jovem (o eromenos), com uma dimensão erótica (que não implicava necessariamente relações sexuais), mas também com uma vertente ética e formativa e que funcionava, em certa medida, como um ritual de entrada na idade adulta.

Erastes e Eromenos – taça ática do século V a.C., Louvre

Erixímaco – que era médico de profissão – introduz uma dimensão cósmica do Eros, como um princípio de equilíbrio e de harmonia dos contrários em tensão, cuja conciliação implica uma technè, isto é, uma aprendizagem e um saber-fazer, uma arte. Nesta concepção tributária das teorias de Empédocles, o amor é precisamente essa arte, a arte do comedimento, da harmonização dos contrários, de conciliação dos elementos constitutivos do universo, designadamente dos homens e dos deuses: «é o Amor que se orienta para as obras boas, que se concretiza a moderação e na justiça, tanto entre os homens como entre os deuses, o que detém o máximo poder: só ele nos torna capazes de convivermos em boa amizade uns com os outros e com os nossos superiores, que são os deuses!» (188d).

Com o conhecido comediógrafo Aristófanes, um feroz crítico do Sócrates histórico, afastamo-nos das implicações sociais e cosmológicas do amor para sermos introduzidos ao fascinante mito do andrógino e das almas gémeas, representativo de uma concepção de amor como saudade de um antigo estado que se tenta recuperar, funcionando o amor como dinamismo para essa busca. O mito é relativamente conhecido e assenta na ideia de que os seres humanos primordiais eram compostos de três géneros, os masculinos (andros), os femininos (gynos) e os andróginos (androgynos), tinham corpos esféricos e quatro mãos e pés e duas faces numa só cabeça, em sentidos opostos, e genitais de ambos os lados. Por causa da sua hybris, Zeus ordenou que fossem cortados em duas metades cada um, para perderem força e poder, tendo passado a errar pelo mundo em busca das respectivas metades. Os seres masculinos divididos deram origem à homossexualidade masculina, os seres femininos à homossexualidade feminina e os andróginos à heterossexualidade.

Mito do Andrógino – sem informação

Não podemos deixar de encontrar aqui já uma concepção de amor como um dinamismo, que Sócrates depois acentuará, bem como uma alusão implícita à teoria platónica da reminiscência (aprender é recordar o que a alma conheceu quando esteve no mundo das Ideias, mas que esqueceu ao incarnar nos corpos – vejam-se os diálogos Fédon e Fedro), o que nos mostra como Platão vai disseminando partes das suas teorias pelos diversos protagonistas do diálogo.

Ágaton, o poeta anfitrião, retoma uma concepção mitológica, mas com uma nuance que o aproxima de Sócrates: em vez de se centrar nos efeitos do deus Eros sobre os homens, procura caracterizar a sua natureza, concluindo que ele é belo e bom, não por causa de tais efeitos, mas por ser amor do belo e do bom.

Na segunda parte deste artigo debruçar-nos-emos sobre o discurso de Sócrates e sobre o curioso final.


A segunda parte do presente artigo será publicada no dia 1 de Outubro de 2020