No radar

Rapariga, Mulher, Outra

por Filipa Gonçalves

“Rapariga, Mulher, Outra”, o novo livro de Bernardine Evaristo, chegou às nossas livrarias no início deste mês de Setembro pela mão da Elsinore.

Duplamente distinguido nos British Book Awards, nas categorias de ‘Livro de Ficção do Ano’ e ‘Autora do Ano’, finalista do Orwell Prize de Ficção Política 2020 e do Women’s Prize for Fiction. Foi ainda vencedor do Prémio Booker 2019 (ex-aqueo com Margaret Atwood), um momento histórico pois, para além de terem sido premiadas duas obras com temáticas abertamente feministas, Bernardine Evaristo foi a primeira mulher negra a vencer este prestigiado galardão.

Trata-se de um romance sobre mulheres, mas sobretudo sobre mulheres negras.

Ao longo dos seus diversos capítulos, conhecemos, pela sua própria voz, doze personagens cujas vidas são muito diferentes e se desenvolvem em épocas também diferentes. Entre elas estão Amma, uma dramaturga de meia-idade cujo trabalho artístico frequentemente explora a sua identidade lésbica negra; a sua filha Yazz, uma jovem universitária politicamente engajada; a sua amiga de infância, Shirley, professora, esgotada por décadas de trabalho nas escolas subfinanciadas de Londres; Carole, uma das ex-alunas de Shirley, com um passado adolescente traumático e agora uma bem-sucedida gestora de fundos de investimento; a mãe desta, Bummi, uma empregada doméstica imigrante, apreensiva que a filha renegue as suas raízes culturais e sociais por um parceiro branco; Penelope, a branca patroa de Bummi e colega de Shirley; Megan/Morgan, pessoa não-binária e influenciadora digital; a bisavó desta, Hattie, e a sua mãe, Grace, ambas mestiças no norte rural de uma Inglaterra pós-colonial.

Cada uma das personagens é complexa, cheia de cambiantes, e debate-se com os desafios que ser mulher apresenta no contexto de uma sociedade multicultural, mas percepcionada como estruturalmente patriarcal. As questões relativas à homossexualidade, violência sexual, envelhecimento, sucesso profissional, parentalidade singular, pobreza e exclusão sociais; conformidade a padrões de beleza dominantes e papéis de género, entre outras, são pintadas em cores quentes, num registo ao mesmo tempo dramático e cómico, capaz de em cada momento suscitar a empatia do leitor. São mulheres reais, com vidas reais, cuja ligação mais evidente é a sua circunstância racial.

É um romance também sobre sororidade, capaz de suscitar reflexão sobre os lugares de privilégio (poderá realmente haver uma hierarquização do privilégio? Será uma mulher branca e pobre mais privilegiada que uma mulher negra e rica?); os perigos da manipulação do discurso político (poderá apenas uma pessoa negra amar realmente outra pessoa negra?); o espaço de uma relação romântica com um homem numa vida feminista.

Em tempos de discursos extremados, é um romance a ler para melhor compreender o outro.