Sociedade

O espírito da viagem

por Carla Coelho

Grande Mesquita de Herat 

Esta viagem começa numa tarde da minha infância. Tinha 11 ou 12 anos e os livros infantis estavam a ser paulatinamente substituídos pelas tramas policiais engendradas por Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, uma evolução natural para quem tinha seguido com entusiasmo os mistérios de Os Cinco. Os quatro primos e o Tim nunca encontravam cadáveres. Mas eles eram o ingrediente fundamental das histórias narradas pelos meus novos companheiros. Ao homicídio, Christie juntava amiúde o exotismo das terras longínquas. Crime no Expresso do Oriente, Morte no Nilo e Morte entre Ruínas estão entre os livros que li nesse tempo e a que ainda hoje volto com entusiasmo, apesar de já saber há muito quem são os assassinos.

A acção de Morte em Ruínas decorre na Síria, um país que Christie visitou várias vezes, acompanhando o segundo marido que era arqueólogo. Já antes desse encontro Christie tinha viajado pelo Médio Oriente. Foi, aliás, nesse cenário que os dois se encontraram. Na Síria, a escritora recolheu inspiração para o seu trabalho e teve ainda ensejo de fotografar e catalogar as peças que o marido ia encontrando nas expedições arqueológicas em que estava integrado. As incursões da rainha do crime inglesa fora daquela área literária foram raras. Entre as poucas excepções estão as páginas onde deixou a sua recordação da Síria (Come, Tell Me How You Live traduzido para português e publicado com o título Na Síria). As primeiras páginas do livro, que a própria classifica como despretensioso, são dedicadas à azáfama habitual de quem prepara uma viagem para um local bem diverso daquele onde habitualmente vive. A preocupação com o clima e características do local, a procura de um guarda-roupa adequado e outros atavios que se revelem necessários, um misto de excitação e preocupação. O grosso do livro é dedicado às impressões recolhidas durante a sua estadia, registadas com entusiasmo e encanto. Christie despede-se da Síria, desejando regressar: “Inshallah, hei-de voltar e as coisas que amo não se terão extinguido da face da terra.” Corria o ano de 1940.

Os primeiros viajantes deslocaram-se por dois motivos essenciais: a salvação da alma e o desejo de comerciar. Eram, pois, peregrinos (mais ou menos pacíficos) e almocreves. Mas o apelo recreativo e/ou iniciático da viagem parece inscrito no ADN humano. Isso explica o fascínio exercido desde cedo pelos relatos, entre o real e o imaginado, de viajantes como Marco Polo ou John Mandeville. E também o modo como muito lentamente o círculo dos viajantes e os motivos da viagem se foram alargando. Das viagens marcadas pela necessidade mais ou menos evidente passámos para as jornadas recreativas. O século XVIII popularizou o Grand Tour, viagem com que os jovens de boas famílias terminavam os seus estudos antes de ingressarem na vida de adulto. Paris, Londres, Roma, Istambul então Constantinopla, eram pontos de passagem obrigatórios de uma tradição de que hoje encontramos amplo registo na literatura ocidental. Os Maias, de Eça de Queirós, Quarto com Vista Sobre a Cidade de E.M. Foster ou Retrato de Uma Senhora de Henry James são apenas alguns exemplos. Claro que estas viagens tinham subjacente uma capacidade económica só ao alcance de alguns poucos privilegiados. Teve de esperar-se pelo século XX para as viagens recreativas se democratizarem. Primeiro, é claro, foi necessário reconhecer o direito de quem trabalha a um período de férias (em si mesmo um longo processo de luta que em demasiados pontos do mundo está longe de estar terminado). Depois, ainda foi preciso construir uma classe média com capacidade económica e criar uma rede de serviços (de transportes, hotéis, agências) capaz de dar resposta ao desejo de evasão. Por estes dias são muitos os que vêm os seus planos de viagem gorados. Para uma parte dos viajantes é a crise económica que obriga a pôr de lado a pesquisa dos voos mais em conta e dos melhores blogues de viagens. Para outros, o receio de eventuais deslocações no quadro da pandemia Covid-19, cujo fim está longe de se avistar.

De qualquer forma, a frase com que Christie terminou o relato escrito dos seus dias na Síria é compreensível para todos aqueles de nós que já nos sentimos esmagados pela beleza de um monumento ou de uma paisagem que sabemos que dificilmente teremos a possibilidade de rever ao vivo e a cores. Sentia-a quando caminhei na Muralha da China ou a olhar para os guerreiros de Xian, por exemplo. Não sei se voltarei a visitá-los, mas consola-me saber que estão lá onde os vi.

Quando lemos as impressões registadas por Christie sabemos que muitos dos belos locais que viu e admirou já não existem. O país mergulhou numa guerra no decurso da qual foram destruídos os seus mais belos monumentos. Locais que eram referências de beleza estão hoje reduzidos a escombros. Damasco. Alepo. Palmira, onde foi destruído o templo Baal Shamin datado do século XVII A. C. e que estava qualificado como Património Mundial da Humanidade.

Porque se destrói a arte? Porque mantendo-a intacta somos recordados em permanência da possibilidade de uma outra vida. Feita de ideal e beleza, duas coisas de que os terroristas (utilizo o termo de forma ampla, como sinónimo de quem espalha o terror) querem que o resto do mundo se esqueça.

A guerra na Síria trouxe consigo não a possibilidade, mas sim a necessidade de viagem. As deslocações naquele ponto do mundo não se fazem agora por recreação, turismo ou desfastio. O sentido da viagem empreendida é o da salvação da vida do viajante e da sua família. Só o essencial, documentos novos ou ausência de documentação, medo, ansiedade e eventualmente a morte. Esta é a viagem que milhares de seres humanos como nós (mas que não tiveram a sorte de viver deste lado do mundo) empreendem diariamente. Vêem de tantos lugares outrora considerados mágicos. Por exemplo, Mali (onde fica a mítica cidade de Timbuktu), Afeganistão (onde se situam os lagos Band-e-Amir, o misterioso vale de Bamiyan e a esplendorosa mesquita de Juma, em Herat) ou a Líbia (onde as ruínas greco-romanas de Leptis Magna, os mosaicos bizantinos de Qasr Libya e o deserto do Sahara encerram outros tantos convites à viagem). Mas também gente que parte de El Salvador (ruínas maias de Tazumel), México (por onde começar? Cuatla, ruínas nas penínsulas de Yucatan, Cozumel) e Venezuela (Basílica de Nossa Senhora de Chiquinquirá, Centro de Artes Los Galpones e Los Aleros, só para início de conversa).

Timbuktu, Mali

A viagem que milhares e milhares de pessoas tentam fazer todos os dias nada tem de mágico. Fogem da fome, da discriminação, da injustiça e do medo. A deslocação é feita muitas vezes em pequenos barcos que vogam às escondidas nos mares deste mundo ou a pé pelos infindáveis desertos que ligam o México aos vizinhos do norte. É feita de incerteza e não raras vezes sem possibilidade de chegar ao que era o destino sonhado. Quantos pequenos barcos naufragaram já no Mediterrâneo sem que disso haja notícia? Quantos homens e mulheres pereceram ao calor, à fome, à doença e à violência dos traficantes com quem contrataram a viagem? Contabilidade infernal que nunca conseguiremos fazer. Olhamos para estes nossos contemporâneos com um misto de compaixão e receio. Sabemo-los iguais a nós e, contudo, tememos abrir-lhe as portas, numa ambivalência que tem sido explorada da pior forma.

Mas as viagens forçadas não são uma novidade na História. Que dizer dos que foram cumprir pena de degredo (como Simão, protagonista de Amor de Perdição, para nos cingirmos a um exemplo literário)? Ou dos escravos e cristãos-novos forçados a viajar para Cabo Verde no século XVI para povoarem o território encontrado? Ou, bem mais perto de nós no tempo, dos nossos antepassados que deixaram Portugal a salto no século XX? Para França, Brasil, Venezuela e Canadá, por exemplo. Uns para escapar à miséria, outros para não serem integrados na Guerra Colonial (e que dizer da viagem que os que combateram tiveram de fazer e dos que voltaram com as marcas do conflito no corpo e na alma?). Outros ainda por divergências irreconciliáveis com o regime político anterior ao 25 de Abril de 1974.

Com que espírito se fizeram tais viagens, sem a segurança de algum dinheiro na carteira, um interlocutor no país de origem e um passaporte inócuo? Apenas com o sonho de uma vida melhor, umas vezes cumprido, outras vezes, sem eco no futuro. Outras viagens, realmente, movidas não pelo desejo, mas pela necessidade.

Para nós, feliz minoria neste mundo tão belo quanto terrível, fica este consolo. Não temos de viajar apesar de não podermos viajar. Um luxo, na verdade.

Temple of Baalshamin