Cinema

Joker

por Fernando M.

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.

Foi esta frase da autoria de Bertolt Brecht que ecoou em mim quando passavam os créditos finais do aclamado e multipremiado Joker, de Todd Philips, de 2019.

O meu primeiro contacto com a personagem ocorreu há muito tempo, em criança, através do histriónico César Romero que na série televisiva dos anos 1960 reinou indisputado como o vilão mais louco e colorido daquele universo de Gotham City, onde a violência era expressa em balões típicos de banda desenhada plenos de “pows” ou “bangs”.

Mais tarde, pelas mãos de Tim Burton, foi-nos apresentada a versão cinematográfica do monstruoso Jack Nicholson, que imbuído de uma fisicalidade excessiva, um olhar demente e um sorriso largo de palhaço sublinhava as origens cartoonescas do vilão, numa Gotham surrealmente gótica.

Em contraposição à contenção de Michael Keaton como o multimilionário Bruce Wayne, o Joker de Nicholson ia muito mais além, ultrapassando o limiar da sanidade, numa personagem cuja maldade era alimentada pelo desequilíbrio da mente. Devido à sua intensidade, o esgar maquilhado de Nicholson ficou para a história do cinema a par de outros seus desempenhos tão fortes e distintos como em One Flew Over the Cuckoo’s Nest, A few good men ou The Shining.

Apesar do muito sucesso dos filmes de Burton, ficou assente pela intelligentsia cinéfila que filmes sobre super-heróis e seus arqui-inimigos eram um fenómeno menor, confinado a salas de cinema repletas de crianças e jovens padecentes de acne e comedores de pipocas.

Christopher e Jonathan Nolan não poderiam estar mais em desacordo, tendo reabilitado o género através da trilogia The Dark Knight, protagonizada por Christian Bale. Não obstante a narrativa retomar a figura (já clássica) do menino rico órfão que, impelido pela luta contra a corrupção, se torna um caped crusader empenhado na luta contra o mal, a abordagem imagética foi integralmente nova: contemporânea na definição do espaço urbano, abandonando qualquer lado fantasioso ou de banda desenhada e centrando-se na humanidade das personagens, sejam elas heróis, vilões ou, muitas vezes, ambas as coisas ao mesmo tempo.

A meio da trilogia e envolto em muita expectativa surge o vilão Joker, desta feita incarnado por Heath Ledger.

Todos os cinéfilos reconhecem no percurso do ator australiano um talento portentoso, que se traduz numa intensidade do olhar, numa gestão da palavra e dos seus silêncios. Why so serious? era a pergunta que o ladrão Joker proclamava e inscrevia nos murais sujos de Gotham. A energia da interpretação aliada à abordagem nova de um vilão valeu ao ator a consagração póstuma de um Óscar da Academia.

Uns bons anos volvidos, em Suicide Squad, Jared Leto assumiu a mesma personagem num coletivo de vilões que são reunidos sob o desígnio de combater uns ainda mais vilões. Infelizmente nem o filme, nem a interpretação em causa merecem a referência de qualquer nota em particular, que não seja a de um profundo lamento.

Ora, quando pensávamos que a personagem não conseguiria tão cedo encontrar o espaço cénico adequado para ressurgir com a força da sua história ou um intérprete que lhe fizesse jus, não poderíamos estar mais enganados.

Arthur Fleck, interpretado pelo desconcertante Joaquin Phoenix, é um homem que na década de 1980 vive em Gotham com a sua mãe, ganhando a vida como palhaço em festas de crianças e almejando o sonho de viver o amor e encontrar o sucesso profissional como stand up comediant.

A doença mental da personagem manifestada num riso incontrolável, nos momentos menos adequados, constitui uma espécie de ponte entre a sua humanidade, com a qual nos identificamos, e a loucura em que se vai alicerçar o vilão.

Há medida que a ação se desenvolve percebemos que o vilão emerge da violência sem sentido dos outros, do escárnio, da maldade por quem é, apenas, diferente. A violência gera violência e, inesperadamente, a vítima assume a centralidade da ação, numa espiral de descontrolo que conduz Joker ao apogeu.

O filme que motiva este texto é um excelente produto de entretenimento, bem acabado na forma como retrata uma fictícia Gotham retro dos anos 80 do século passado, na escolha dos planos de realização, no guarda-roupa primoroso, no elenco de atores – onde também se destaca Robert de Niro – no protagonista que condensa a fragilidade e a loucura que o personagem exibe.

Mas, por outro lado, também convoca a reflexão sobre quem somos – individualmente e como comunidade – qual o nosso limite, onde está a fronteira entre a sanidade e o desequilíbrio, entre o controlo e a loucura.

Arthur Fleck é filho de uma mulher desestruturada, é um homem pobre que tem um emprego precário e uma doença mental, cujo tratamento é assegurado através da assistência social…e quando termina a medicação surge o vilão!

Esta (aparente) relação é algo que deve merecer a reflexão de todos, especialmente nos dias críticos de hoje. Vivemos num mundo pós-confinamento a aguardar a réplica de segundas vagas, onde impera o domínio do medo, a desconfiança do outro, o isolamento: comportamentos que abalam a nossa comunidade.

A saúde mental é o pilar do equilíbrio de cada individuo e a argamassa que nos une como sociedade. É bom que o entretenimento mainstream também possa servir para suscitar questões que vão além da mera narrativa plena de sangue e explosões; Joker é disso também um bom exemplo.