Sociedade

Auroras

por Ana Margarida Seixas

Os lençóis engelhados na cama, as nucas transpiradas, os músculos da cara completamente relaxados que fazem o queixo descair e a boca ficar, inteiramente, aberta. Sem posição estereotipada, o corpo, num descanso profundo. São assim as auroras dos dias de viagem, todos, sem exceção!

O frenesim dos dias de viagem, quentes, por norma, deixam-nos num estado de exaustão em felicidade. Os estímulos são mais do que em qualquer outro contexto em que nos possa imaginar e, por norma, são bons. É claro que também temos as birras, de todos, que fazem parte, sobretudo nos primeiros dias em que o corpo se está a adaptar a uma nova cadência, a um novo piso, como os pneus novos de um carro se adaptam ao asfalto. O aceitar das birras de cada um, depois da dor até à resolução, fazem-nos sentir mais fortes e unidos, como quem vence uma batalha medieval. E depois há os contratempos: objetos perdidos, alojamentos fora das expectativas, transportes que afinal não existem, gastronomia odiosa, arranhões, feridas e diarreias…. Tentamos planear tudo ao milímetro, relativizar ao máximo o que vem fora do que desejamos, para que fique impresso na nossa alma só o que realmente importa, o que nos traz crescimento.

Por isso, viajamos, por isso “Sim, vamos todos!”, desde sempre – pai, mãe e filhas, agora já com 6 e 9 anos. – “Que disparate, levar crianças tão pequenas, nunca se irão lembrar de nada!” – É uma opinião, válida como tantas outras, para quem isso faça sentido; para nós…bem, para nós é como lermos histórias para crianças. Lembro-me que a 1ª história que li à minha filha mais velha tinha ela 3 meses, seguiu atenta o livro e as ilustrações. Podia ser de outra coisa qualquer, poderia ter outras cores, outras ilustrações, mas o entoar da minha voz, imprimiu amor a cada palavra, fê-la ter prazer naquele momento, e foi semeando nela um sem fim de coisas boas das quais, provavelmente, nunca saberei o verdadeiro resultado. As viagens sempre foram livros ilustrados da nossa vida, que fazemos questão de lhes ler, sempre que podemos. E, assim como os livros, são estimadas e relidas no passar de cada fotografia, e a sua história é guardada com carinho dentro de nós, mesmo que não nos lembremos bem dos pormenores.

Viajar com elas é muito mais do que lhes explicar a geografia por onde passam os seus pés, é muito mais do que pôr carimbos num passaporte, é muito mais do que ter histórias para contar a quem se cruza no nosso caminho, é muito mais do que fazer álbuns de fotografias giros ou publicações no blog. Viajarmos todos é partilhar, é partilhar vida, nossa, dos outros, dos lugares, da natureza. É aprender a ver o Mundo, as pessoas, as cores, com os nossos olhos e com os olhos de quem mais amamos; é sentir os cheiros, o vento quente ou gelado a tocar-nos o rosto e a pentear-nos o cabelo, pois este traz sons de outras realidades. Mas sobretudo, sobretudo é aprender a aceitar a diferença dos outros e nossa com os outros.

E esta forma constante de estar em viagem, o ir, o planear, o estar, o reviver, tatua-nos com uma tinta permanente o nosso ser e permite-nos uma forma de estar na vida e com os outros em aceitação, em tolerância, em resiliência. Com as experiências vividas aceitamos melhor os outros desafios, os do dia a dia, os que numa primeira impressão podemos até não compreender, mas que nas rodas dentadas que se foram criando dentro de nós permitem o surgimento de mecanismos que fazem com que a vida funcione de uma maneira harmoniosa e bonita.

E há, ainda, esta coisa, quase fisiológica, que parece ir passando de geração em geração, como que se fosse um valor, ou mesmo um marcador genético que nos confere a dose certa de loucura para arriscar, para dialogar, para fazer disparates e aprender com eles, sem culpa e em paz!

Depois da partida, de carro, de avião, de comboio, ou seja, do que for, o tempo ganha outra velocidade. Os dias parecem eternos, preenchidos por gargalhadas, abraços, mimos e amor. Surgem novas descobertas, novos conflitos e muitas aprendizagens, na maneira de ser e estar, de nos adaptarmos uns aos outros, nas circunstâncias que nos vão surgindo.

Por tudo isto, evitamos resorts e locais com tudo incluído, porque na verdade eles incluem tudo menos o que procuramos…a autenticidade dos sítios, das pessoas, dos pequenos almoços, característicos de cada lugar, da forma como cada cultura está à mesa e convive, os cheiros inerentes às coisas, aos sítios. E há também a natureza, a paisagem, arranjada ou desarranjada pelo homem, com tudo postinho por ordem, milimetricamente desenhado ou com esgotos a céu aberto, casas de tijolo inacabadas, que contrastam com quintais em volta, em que a terra é varrida todas as manhãs, formando um penteado de grãos extremamente alinhado. E no meio de tudo isto, ou do oposto a tudo isto, temos o privilégio de percebermos onde estamos no mundo; de sentirmo-nos gratos por tudo o que temos, quase sem esforço e percebermos que existe quem não o tenha, mas que luta pela a sua paz e pelo seu equilíbrio interior, e é maravilhoso aprender com quem o faz de uma forma magistral.

No meio de tudo isso temos, também, rótulo de “loucos”, “inconscientes” e outros tantos que podemos imaginar. Os que se preocupam connosco, desejam, ardentemente, o nosso regresso em segurança e que tudo corra bem. Mas, o não correr bem para nós é uma condicionante de viver, por isso preferimos ver o outro lado da sombra…o Sol!

O regresso a casa é um colo, um abraço apertado à alma, um vencer da saudade e um sentimento de porto de abrigo. Chegamos normalmente com os músculos mais doridos do que o que foram, mas a dormência da chegada é igual a uma manta que nos aquece num fim de dia de inverno à lareira.

Mas não são só as viagens em si que nos tornam grande parte do que somos, são as réplicas destes sismos que vão vibrando dentro de nós, dentro delas durante os dias, meses e anos seguidos. Cada vez que nos deparamos com uma fotografia, com uma situação parecida, com um momento de ligação àquele lugar, àquele cheiro, àquele sabor, àquela vista, àquilo que foi vivido noutro contexto e que deu tanta felicidade ao nosso ser, voltamos a acender a chama, o brilho, a luz do que recebemos de uma cultura diferente, das pessoas que ficam para sempre em nós, de quem nunca nos despedimos.

E neste tempo em que nos encontramos, neste estado de pandemia em que estamos, como ficamos? Onde ficam as nossas viagens, as nossas alegrias, as gentes que queremos conhecer, com quem nos queremos sentar a conversar e a partilhar vida, onde ficam os nossos pés pelo Mundo?

Ficam cá dentro, ficam dentro de nós, ficam na possibilidade de conhecermos também coisas que não conhecíamos em nós, nos outros, nas Selvas do dia a dia, dentro de casa, nos trabalhos, nas relações por videochamadas constantes.

As viagens, pelo menos neste interregno de ir para fora, ficam cá dentro, ficam nas recordações do que temos vivido, ficam nas autoanálises da vida, ficam nos lugares onde ainda desejamos ir, ficam no conhecermos melhor a nossa terra, o lugar onde moramos, o país onde nascemos e os seus cantinhos mais mágicos. Brincamos ao faz de conta dos aviões e dos hotéis, acampamos e dormimos em tendas montadas dentro de casa e na varanda, improvisamos piscinas de alguidar, fazemos SPA na banheira, pesquisamos sobre lugares do mundo que gostaríamos de visitar em revistas antigas e livros. No meio de toda esta loucura e tentativa de adaptação, como em qualquer viagem, somos felizes!

Nestes tempos que correm, nesta zona mais escura da noite procuramos o brilho e a beleza das estrelas, tentamos sentir o cheiro da erva queimada, pelo calor dos dias, onde cai o orvalho da noite. Rezamos, contemplamos o infinito, sussurramos coisas bonitas e esperamos em paz a aurora…uma nova viagem!


(Imagens da autora)


Ana Margarida Seixas nas suas palavras:

Nasci em 1985, no âmago de uma família que me proporciona arte, sociedade, mundo e essência. Por isso sou uma contempladora das pequenas coisas, da covinha de uma bochecha, do entoar das palavras, do raio de sol que entra por entre a folhagem enquanto descanso na sombra das árvores. Gosto do toque que não invada, que dê vontade de ficar, que me faça sentir em casa. Mas também gosto de ir, de conhecer, de viajar, em sonhos, quando vou e quando relembro onde estive. Sou um cofre onde guardo o cheiro na maresia do início do dia, o paladar da comida asiática e Moçambicana, onde guardo o bem-estar com a vida e com os outros. Prezo, valorizo e dou espaço ao que é bom, ao que me faz sentir bem, dando sempre à minha vida um toque “gourmet”. Criei um blog de viagens em família para partilhar tudo isto, para inspirar os que só precisam de um toquezinho e, escrevo com a humildade de perpetuar quem magistralmente me ensinou a fazê-lo.