Leituras

Pequeno-Almoço em Marrocos

por Adriana Calado

A vida previsível todos os dias. Pelo menos no exterior. Dentro dela uma revolução avançava. Respirar, viver, ser feliz. Deixar de gerir os dias em função dos compromissos. O despertador implacável. Os cinco minutos no duche gerindo os jactos de água com parcimónia por motivos ambientais, o barulho dos miúdos mais novos, a cara de maldisposta da mais velha, o beijo distraído do marido que sai mais cedo de casa, deixando à frente do pequeno exército que geraram em conjunto. Levar os miúdos à escola e chegar à empresa cinco minutos antes das 9h00. O dia corrido no trabalho que a engole e que não é nada do que em tempos sonhou. A colega deprimida há anos porque não arranja um homem, a leve rivalidade nas conversas ao almoço, a saída a correr para ir ao supermercado e comprar sapatos para os filhos mais pequenos. O silêncio da mais velha no trajecto para casa vidrada no telemóvel. Claro que nunca a poderia compreender … é apenas a mãe, não um ser humano com sonhos expectativas e anseios. Em casa, o marido espera um ouvido atento enquanto prepara o jantar. Tens tanta sorte, dizem-lhe as amigas, o teu marido adora cozinhar. Pois adora, mas também gosta muito de ir contanto ponto por ponto o seu dia, ao público que é ela. Perguntou-lhe também como foi o dia dela, mas não quer verdadeiramente saber. Em rigor, o dia foi para ele, como para ela, desinteressante, com pequenos detalhes sem relevo. Mas tem razão quem pensa que a vida não é o que nos acontece, mas sim o modo como pensamos o que nos acontece. E para ele, tudo, desde o sorriso da secretária do director até a um olhar inesperado do colega de secção é fonte de novela.

À noite, depois da luta para os miúdos se deitarem e dormirem, vêm as notícias. Mais um dia que não leu, que não ouviu música (quando deixou este hábito em tempos diário?), que não escreveu nenhum poema dos que comporão o livro que sonha publicar. O fim-de-semana está combinado. Almoço em casa do irmão dela e jantar de sábado com os amigos de sempre no restaurante onde tentam marcar mesa há semanas. Mais um sítio pretensioso, com mistura de culturas asiáticas e música que impede uma conversa fluída. Ainda bem, pode ser que as férias do Verão não venham à baila, com as habituais combinações de férias de casal. Domingo à tarde os gémeos têm duas festas de anos. E a mais velha quer receber uns colegas em casa, para fazer um trabalho de grupo. Tem de fazer um bolo, claro. Talvez scones com doce.

Em que momento percebeu que a sua fantasia ia ser realidade? Não sabe, talvez quando recordou a frase de Chatwin que singelamente deixou um bilhete na secretária do seu trabalho dizendo “vou para a Patagónia”. Talvez quando uma amiga de adolescência lhe enviou por email uma foto das duas num Verão dos anos 90, livres e felizes de férias no Algarve. Ou talvez quando recebeu um ramo de flores mortas pelo dia da mulher quando tantas vezes já fez saber que só gosta de plantas em vasos, sem data de epitáfio à vista.

Esperou que o marido adormecesse. Pelas 02h00 levantou-se. A casa num silêncio esbatido pelo leve ressonar dele. Enviou um email para o trabalho, e meteu um dia de férias. Vestiu umas calças de ganga, t-shirt azul, casaco de fim de semana e uns ténis de que gostava especialmente. No bolso, os documentos e a chave do carro. Deixou na mesa da cozinha um bilhete à la Chatwin “fui tomar o pequeno-almoço a Marrocos”.

Conduziu a noite toda, atravessou o Alentejo ao som de Mozart e viu o sol nascer algures na fronteira com Espanha, perto de Tarifa. Aí apanhou o ferry para Tânger. Uma vez chegada não foi difícil encontrar um local para tomar o pequeno-almoço. Sentou-se numa das mesas, no meio de um jardim semeado de laranjeiras com vista para o mar e começou a examinar a lista de opções. O telemóvel tocou. Do outro lado, o marido hesitava entre a fúria, a incredulidade e a preocupação. Por contraste, ela sentia-se tranquila e, coisa estranha considerando as longas horas de condução, repousada.

“Estou em Marrocos, como escrevi no bilhete. Não sei, agora vou tomar o pequeno-almoço. Beijinhos também para os miúdos. “

Desligou o telemóvel. Estava pronta para fazer o seu pedido.