Leituras

Tempo

por Antónia Sá

Quando eu era pequena vivia num pequeno oásis lisboeta, circundado de choupos de copas gigantes, com campos relvados do mais verde que há e arbustos com flores tipo confetti, que eu e o meu bando adorávamos arrancar e atirar uns aos outros. Lembro-me da cor amarela e fúchsia e do cheiro intenso e doce desses “confettis”.

Neste oásis ouviam-se os pássaros a cantar logo de manhã, assim que se sentiam a chegar os primeiros raios de luz do dia e, o meu quarto era digno de uma história de encantar quando iluminado por este sol benfazejo. Lembro-me de como me sentia feliz e protegida naquele quarto.

O meu mundo era a nossa rua e sentíamos que não haviam limites para as nossas brincadeiras para além da nossa criatividade e vontade (e talvez de uma mãe ou outra).

A nossa liberdade era total (ou pelo menos assim sentíamos) e nos dias de verão, esta liberdade estendia-se muitas vezes pela noite fora. Que bom que era!

Nós não eramos muitos mas éramos bons. Não só nas brincadeiras, como nos disparates (claro! acho mesmo que há uma correlação entre umas e outros), na amizade que sentíamos uns pelos outros, na solidariedade e na entreajuda que partilhávamos.

Deste bando, fazia parte a “F”, género “Maria rapaz”, mas com o melhor coração do mundo, sempre pronta a contornar qualquer problema que nos surgisse – desde o “arranjo” do rádio que quando chegou à rua não debitou MC Hammer, nem coisa nenhuma, seja a experiência de fabricar gaze a partir de feltros de canetas que também falhou. Ela era ímpar. Eu e ela juntas, eramos uma espécie de Roque e a amiga (mas só em bom e por bem).

Havia a “P”, sua irmã, mais contida nos sentimentos e na vontade de brincar e já com espírito de dona de casa. Dessem-lhe um alguidarzinho com detergente para lavar qualquer coisa e era vê-la a desmarcar-se do espectáculo de dança. Sempre muito compenetrada para não ultrapassar limites, era uma espécie de grilo falante. Adorávamos metermos-nos com ela, sugerindo uma brincadeira parva na qual sabíamos que ela nunca participaria ou irritando-a até mais não, só para a ver num daqueles seus chiliques, que terminavam sempre com estrondos de portas e a “P” a chorar e a praguejar aos gritos contra nós. Eu por mim, punha o meu ar mais cândido e dizia não entender tamanha fúria. A “F”, coitada, tinha menos sorte. Às vezes lá saltava uma mão certeira directa ao seu rabo.   

A forma como se davam uma com a outra não era lá muito espectacular – não raras vezes as nossas tardes acabavam em plenário, a decidir quem tinha razão, quem devia manter-se na brincadeira ou ao invés, levar um carolo só para não ser parva e estar a estragar os nossos planos. Normalmente era a “P” que era escorraçada para casa, para as suas limpezas e para as suas delicadezas …não aguentávamos aquele estilo doméstico-sensível e sempre a cortar-se ao que era divertido. Leia-se, estouvado.

A este propósito lembro-me da tarde em que não sei por que carga de água, entendi por bem meter-me com as duas tias velhas do “A” (outro membro do bando, embora menos presente), que passavam imenso tempo à janela a apanhar ar e a ver quem passava.

Sei lá…Acho que naquela tarde embirrei que não queria os meus movimentos controlados por aquelas duas, de ar sempre impassível, incapazes de esboçarem um sorriso ou uma palavra amigável. Além do mais, eu sabia que isto ía ser uma novidade e um fartote para os meus amigos. Vai daí, de mão à cintura, com ar de pespeneta e voz esganiçada dizia-lhes: “O que é que foi?! Tão a olhar, tão a olhar?! Nunca viram?! Gostam de me ver é?! Também sei tirar macacos do nariz…ó!” E a coisa progredia, claro. E à medida que sentia os risos dos meus companheiros, intensificava-se. Já as velhas, mantinham-se impávidas e serenas. Nem se zangavam, nem se iam embora, nem respondiam, nem riam, nem choravam…Era como se eu ali não estivesse…. A macaquinha, devem ter pensado…

Esta proeza, dias mais tarde, valeu-me um rendez-vous com o “A” nas escadas do prédio à hora do jantar…O esperto…Sabia que não haveria nenhum dos meus ali por perto aquela hora para me salvar e tentou a sua sorte. Primeiro tentou encostar-me à parede. Ainda hoje não sei bem qual era a sua intenção, se bater-me, se outra coisa qualquer mais libidinosa. Como eu me fosse esgueirando, ele seguia-me de ar ameaçador e de olhos de peixe arregalados (o “A” não era muito bonito, ainda hoje não é, mas vá lá, escapou…casou-se com a sua high school sweatheart e têm três rapazolas), perguntando-me se eu gostava de brincar e se queria agora brincar com ele. Eu, assustada (afinal ele era rapaz, tinha 3 ou 4 anos mais que eu e estava furioso), ía descendo, tentando não me deixar encurralar e chegar à saída e gritar por ajuda, mas estava a ver o caso muito mal parado. Ele estava à beira de me deitar a mão.

Valeu-me então a aparição inesperada (maravilhosa, surpreendente, calmante, auxiliadora) do “P” (outro dos amigos, mas…o que é que ele estava ali a fazer aquela hora?! Como é que ele percebeu que nós estávamos ali?!), que se aproximou do “A” e com voz intimidatória lhe perguntou: “’tás maluco?! O que é que ‘tás a fazer à miúda, pá?! És parvo ou quê?!”. Não me lembro o que o “A” respondeu, mas lembro-me que ficou tão surpreendido quanto eu e pela primeira vez, pareceu-me ver-lhe um ar receoso. “Pira-te miúda”, disse-me o “P”. Eu obedeci. Corri dali para fora e só parei em casa. Escusado será dizer que não mais repeti a graça, mesmo quando malta do prédio, que também não era amante das velhas, imitavam aquela minha mise-en-scène e me diziam que se tinham fartado de rir. Está bem, está bem, mas para além da insolência, o couro naquele prédio quase abandonado era meu e quase que não escapava à fúria do “A”.

Mas seguindo com as apresentações – havia ainda o “ZM”, rapaz bem apessoado e inteligente por quem a “F” estava perdida de amores inconfessados, mas que dele só levava com bujardas na barriga durante os nossos jogos de bola free style.

O “ZM” tinha também um irmão de cujo nome não me lembro já, mas que por ser mais novo que nós (3 anos à data era muito), raras vezes participava nas nossas brincadeiras. A vontade do mano mais velho assim ditava também. Valia-lhe a amorosa avó “H” que o convencia com carinho, bolos e bonecos a ficar com ela.

Mais esporadicamente, apareciam o “P” e o “A”. Este como eu disse, não era grande espingarda e por isso nós não o chamávamos para junto de nós. Ele é que vira não volta quando via o “P” connosco, juntava-se-nos esperando passar despercebido com o barulho das luzes. Nunca passava. Era um irritante com cheiro a naftalina, querendo impor regras às nossas brincadeiras sem lei.

Por último a “C”, filha única, uma “copinho de leite” a quem a mãe vestia de Cenoura da cabeça aos pés e a perfumava com colónia Ausonia para a mandar connosco para a rua correr, andar de bicicleta, jogar ao mata e às escondidas e ao mais que nos desse na gana naquele dia. O “ZM” era apaixonado por ela. Era de facto muito bonita – de cabelo forte e escuro, de pele bronzeada fosse verão ou inverno e com uns olhos verdes esmeralda estonteantes. Acho que até nós meninas estávamos apaixonadas por aquela figura. Por isso mesmo não raras vezes, era a “C” a chefe do bando.

Foi a sair de casa da “C” numa daquelas noites de verão e de liberdade, para nos reagruparmos em casa da “F” e da “P” onde íamos passar a noite, que vimos uns metros abaixo de nós, um rapaz ser espancado por outros 3. O rapaz dobrava-se a cada murro que levava. Estava encostado a uma parede. O som dos socos era seco, intenso. O barulho que o rapaz fazia era quase nenhum. Apenas uns sons guturais, abafados. Não dizia nada. Os outros também não. A mãe da “C” mandou-nos baixar para não sermos vistas pelos bandidos e disse-nos para fugirmos dali. Nós fugimos. De coração acelerado com o que acabávamos de ver. Não chamámos ninguém e a mãe da “C” também não. Deixámos a coisa ficar assim. Como é que tudo terá terminado? Nunca mais ouvi falar daquele rapaz. Nem na manhã seguinte, nem noutra qualquer. Nem nunca soube quem era ou o que poderia ter feito para merecer tal sevícia. Mas não raras vezes a minha memória vai até aquela noite e até aquele lugar onde eu vi 3 contra 1 e nada fiz ou disse para evitar aquela cena que até hoje foi das mais violentas a que assisti. Talvez depois de escrever estas linhas, eu possa perdoar aquela miúda e ao seu bando pela inércia, pelo assobio para o lado, pela ignorância. De todos os disparates que fiz quando miúda, este foi seguramente o maior e aquele para o qual ainda não encontrei paliativo. Talvez hoje eu possa mudar isso.