No radar

Dennis Mcshade

por Carla Coelho

A quarentena tem destas coisas. Livros, CDs, filmes e documentários sempre adiados ganham tempo e espaço para, finalmente, entrarem na nossa vida. Uma das minhas escolhas foi Dennis McShade, pseudónimo de Dinis Machado (1930-2008). Autor de uma obra não muito extensa, Machado cresceu no Bairro Alto, fez estudos na área comercial, trabalhou como jornalista desportivo e crítico cinematográfico e ganhou um estatuto de culto entre nós, em particular, com o livro O que diz Molero. Para além disso criou Dennis McShade com o qual assinou A mão direita do Diabo, Mulher e Arma com Guitarra Espanhola, Requiem para D. Quixote e Blackpot.

O herói é o anti-herói Peter Maynard um assassino a soldo com preocupações estéticas e éticas. Maynard ouve música erudita, filosofa, cita os clássicos e vai matando uns e outros que lhe são apontados como alvos a abater. Sem surpresas, desenvolve uma úlcera e ela é também um tema omnipresente nos livros. O que qualquer pessoa que sofre de úlcera compreende perfeitamente. A vida de Maynard não é fácil. Às dificuldades inerentes à sua actividade profissional soma-se a dificuldade em manter-se em regime livre para poder escolher os contratos que lhe interessam e não os que outros lhe impõem. Esta liberdade de espírito nem sempre é bem entendida o que leva a que o protagonista passe parte das obras em confronto/manobras diplomáticas com o crime organizado.

A figura do criminoso de carreira com preocupações éticas tem alguma tradição na literatura moderna. Não se trata de um Raskolnikoff (este cometeu apenas um crime não conseguindo, apesar dos esforços, reconciliar-se com o mesmo, sendo dessa tensão que se alimenta Crime e Castigo), mas antes de personagens que constroem o seu próprio código, convivendo paredes meias com actos hediondos que consideram justificados à luz daquela. O matador de Patrícia Melo, O seminarista de Rubem Fonseca e o Diário de um Killer Sentimental de Luis Sepúlveda, são variantes de uma mesma construção.

A obra de Dennis McShade começou por ser publicada nos anos 60, sendo objecto de reedição. Ler estes livros é ser transportado para um filme noir, ao bom estilo dos anos 40/50 do século XX. De repente, parece que o cenário à nossa volta é a preto e branco, as mulheres são todas misteriosas e os homens enigmáticos, num ambiente de perigo constante.

O policial é um jogo entre quem escreve e quem lê. Para ser honesto quem escreve tem de lançar indícios susceptíveis de conduzir quem lê à solução do mistério ou, pelo menos, a pensar no fim da leitura “ah, estava mesmo ali.” É isso que McShade faz tornando os seus livros um exercício delicioso de evasão inteligente. Quem não conhece, vale a pena mergulhar neste universo e confirmar que não é preciso publicar muitos livros para se ser reconhecido como um grande escritor.