Sociedade

A Terra dos meus avós

por Raquel Reis

Começou por ser “a terra dos meus avós”.

Aquele sítio distante, onde íamos uma vez por ano, nas férias grandes, num autocarro sem ar condicionado que saía do Campo Pequeno às sete da manhã e chegava a Chaves já depois do lusco fusco das sete da tarde. Eram viagens intermináveis, quase tão longas quanto a Odisseia de Ulisses. Nas estradas, quase todas nacionais, caminhava-se devagar, devagarinho, curva, contra-curva. Os 12 km da EN2, entre Lamego e Régua, eram os mais duros. Só os fortes aguentavam o baloiçar do autocarro, sem ar fresco, com o sol de verão a aquecer as cortinas de fazenda que protegiam as janelas. Eu, com o meu estômago sensível de menina, apenas conseguia ultrapassar o tormento se fosse a dormir ao colo do meu pai ou da minha mãe, os quais estoicamente suportavam aquele calor e aquelas curvas com um peso morto em cima. A agora tão badalada EN2, a “Route 66 portuguesa”, despojada da sua glória, nas memórias dos meus enjoos de criança!

As férias grandes na Torre de Ervededo (Chaves), a “terra dos meus avós”, eram sinónimo de liberdade. Dias passados quase sem um vislumbre dos mais crescidos, repletos de brincadeiras no campo, na terra ou na água do pequeno tanque do vizinho.

Tantas memórias felizes que guardo desses tempos despreocupados…

Tardes lânguidas nos lameiros a brincar às escondidas, com barrigada de amoras quentes colhidas das silvas poeirentas no regresso a casa.

Estrear roupa nova no dia da festa da aldeia, em honra da Nossa Senhora da Boa Viagem, padroeira dos filhos da terra, emigrados por esse mundo fora e que, em Agosto, tal como os meus pais, regressavam para matar saudades de tudo.

Ir a Espanha, comprar rebuçados, chocolates ou fruta em calda, era sempre um risco, porque a minha mãe esquecia-se invariavelmente da minha cédula de nascimento (nos anos 80 só os maiores de 10 anos tinham direito a bilhete de identidade) e eu tinha de passar escondida, enterrada no fundo do banco traseiro do carro do meu tio, para que a GNR ou a Guardia Civil não reparassem na minha presença quando cruzávamos os postos de fronteira Português e Espanhol. Assim era “dar o salto” nos anos 80.

Chorava sempre no regresso à Capital e pedia que me deixassem ficar… Porque não queria deixar as minhas companheiras de brincadeira; porque não queria deixar o “Fadista” – o rafeiro mais inteligente de sempre -; porque simplesmente não queria deixar para trás a minha liberdade de criança.

Até que este desejo se cumpriu, tinha eu dez anos e a quarta classe terminada. A “Terra dos meus avós” passou a ser também a minha terra.

Vivi uma adolescência tranquila numa cidade pequena, com pouco mais de 40.000 habitantes (contando com a população das aldeias do concelho). Conhecia as potencialidades da Capital, mas muito raramente sentia falta delas, talvez porque também tinha consciência dos aspectos negativos, como ter de sair de casa às 7h00 para chegar ao colégio às 9h00, depois de passar por autocarros e comboios apinhados de gente.

Ter um furo nas aulas permitia sair da escola, sem grandes complicações, para ir até ao centro da cidade comer um croissant à pastelaria “Carbela” ou ver as lojas no “mini” centro comercial “Charlot” (que, como seria de esperar, não aguentou a abertura dos grandes supermercados uns anos mais tarde).

Por altura do feriado de Todos os Santos, no dia 1 de novembro, a cidade transforma-se numa feira gigante, com barracas em todas as ruas. Há uma zona específica para os carrocéis, carrinhos de choque, máquinas de jogos e muitas, mas mesmo muitas, mesas de matraquilhos. Na minha altura de estudante, a par das casas de jogos, a “Feira dos Santos” era a maior fonte de preocupação para os pais porque muitos filhos, mal havia o ano lectivo começado, ficavam logo “tapados” por faltas.

E, não obstante o feriado da cidade se celebrar a 8 de julho, a verdade é que a “Feira dos Santos” é a efeméride mais festejada e saudosamente lembrada pelos Flavienses na diáspora. Não há flaviense que não se recorde da sua terra por altura dos “Santos”. Se não se lembrar ou sentir falta, não é um verdadeiro flaviense.

Nestes últimos 23 anos, longe de Chaves, não houve um único em que não tivesse sentido essa saudade aguda do odor a farturas e churros ou do barulho da bola a entrar na baliza da mesa de matraquilhos. Por isso, julgo que ultrapassei a prova. Sou uma flaviense verdadeira!

Dicas para uma escapadinha ao norte de Portugal:

Aproveitando esta oportunidade e porque a expressão “vá para fora cá dentro” nunca fez tanto sentido como agora, seguem algumas dicas para quem pretenda conhecer a região do Alto Tâmega:

1 – É essencial que goste de conduzir.

As estradas já não são iguais (nem de perto, nem de longe) ao que eram nos anos 80, mas para conhecer a região vai ser uma ferramenta essencial e, para lá chegar, serão necessárias muitas horas de viagem.

Há uma moda crescente de cruzar o país, de norte a sul, pela EN2, que começa precisamente em Chaves e termina em Faro. O troço entre Chaves e Vila Real não é dos mais agrestes (em matéria de curvas) e permite alguns desvios simpáticos: Vidago (não sendo possível a estadia no “Hotel Palace”, pode sempre aproveitar os belos jardins ou o bar do hotel para uma bebida ou visitar o novo museu João Vieira); Pedras Salgadas; S. Martinho da Anta (terra de Miguel Torga) ou a zona florestal da serra da Padrela, perto de Vila Pouca de Aguiar (com estradas ladeadas de pinheiros mansos gigantes).

Se quiser evitar a enchente da EN2 pode, em alternativa, rumar a norte, em direção a Montalegre. Ao contrário do que sucedeu com a esmagadora maioria de redes viárias e apesar de reivindicações de décadas, a estrada que liga Chaves a Montalegre permanece igual ao que era nos anos 80. Apesar da qualidade deficitária do pavimento, é impossível não ficar impressionado com a rudeza das “Terras de Barroso”, berço de lendas de bruxas e feitiçaria. Pode ir devagar, devagarinho. Não tem mal. A paisagem impressiona.

2 – É fundamental que goste de comer.

Apesar de constar sempre das piores estatísticas demográficas e económicas do país, Trás-os-Montes é uma terra de gente que gosta de receber e que oferece o seu melhor a quem tem a coragem de os visitar. Vá preparado psicologicamente para engordar alguns kilos, porque não será fácil resistir à tentação de tanta coisa boa: presunto, cabrito assado, pasteis de chaves quentinhos, folar de carne, todo o tipo de enchidos (alheiras, sangueiras, linguiças, salpicões, chouriços de abóbora), filhós, aletria, etc, etc. Em Verin (cidade galega do outro lado da fronteira), o polvo cozido, comido com um palito em pequenos pratinhos, é imperdível.

Mas não se preocupe se abusar nas comidas (o que seguramente acontecerá). Basta que beba um copo de água quente nas caldas da cidade e o seu estômago agradecerá. Diz-se que são as águas bicarbonatadas-sódicas mais quentes da Europa e foram elas que deram nome à cidade.

3 – É imperioso que goste de paz e sossego.

Com excepção da altura da “Feira dos Santos”, a cidade espreguiça-se tranquilamente num vale largo, serpenteado pelo rio Tâmega. Percorrendo a pé toda a zona histórica da cidade, consegue sentir a calmaria do velho casario, aos poucos recuperado de uma morte lenta, e respirar ar puro do campo ali tão perto. Atravessar a velhinha ponte Romana sem pressa, tirar a aquela fotografia icónica, visitar o museu Nadir Afonso e acabar na esplanada do bar “Ilha do Cavaleiro” a tomar um ginger ale com duas pedras de gelo. Haverá melhor programa do que este? Se respondeu não, sem pensar duas vezes, então este texto e destino são para si!

Quem fala da sua terra tem tendência para hipervalorizar um bocadinho. Por isso, peço a todos que reduzam um pouco as expectativas que possam ter criado com a leitura deste texto (supra).

Portugal é grande, lindo e tem muitos lugares que merecem ser visitados, pelo menos, uma vez na vida. Tenhamos sempre a capacidade de nos deixar encantar, tal como o conterrâneo da aldeia do meu pai que, saído da sua terra pela primeira vez e chegado a Vidago (a meros 14 km de distância) exclamou entusiasmado: “Como Portugal é grande”!

(imagens: Miguel Reis)