Sociedade

A viagem entre dois Atlânticos e a ferida colonial que insiste em sangrar[1]

por Adriana Ramos

Jurei mentiras. E sigo sozinho. Assumo os pecados Os ventos do norte. Não movem moinhos. E o que me resta. É só um gemido. Minha vida, meus mortos. Meus caminhos tortos. Meu sangue latino. Minh’alma cativa. Rompi tratados. Traí os ritos. Quebrei a lança. Lancei no espaço Um grito, um desabafo. E o que me importa. É não estar vencido. Minha vida, meus mortos Meus caminhos tortos. Meu sangue latino Minh’alma cativa[2]

Sou latino-americana, mas o que significa isso?

Até a minha adolescência, meu pertencimento à latino américa era titubeante, sentia que a civilização estava na Europa e que nós, abaixo da linha do Equador, éramos terceiromundistas, precisávamos caminhar na direção das luzes para estar próximo ao mundo desenvolvido. O iluminismo estava aí para nos mostrar que, com a modernidade, tínhamos sido divididos em antes e depois: estávamos nós ainda no antes, seres mágicos e míticos, sem uma cultura com envergadura, envoltos em crendices e dialetos, tendo como bússola o norte.

O tempo passou, o incômodo cresceu e a ideia de pertencimento ao não lugar voltou a pairar nos meus pensamentos. Comecei um processo terapêutico de autoconhecimento e de conhecimento da minha terra: morei no interior do país, li mulheres e homens que falavam a partir do sul e passei a viver intensamente e a observar atentamente meu contexto e a realidade ao meu redor.

Vi muita riqueza cultural: inúmeras línguas (e não dialetos), inúmeras religiões (e não crenças), inúmeras mitologias (e não folclores); inúmeras expressões artísticas de enorme qualidade considerados artesanatos, músicas de gueto ou cirandas sem valor.

Vi violência, vi silenciamentos, vi muita desigualdade. Vi exclusões estruturais e permanências coloniais (que autores descoloniais conceituam como colonialidade). Vi um povo que resiste e insiste em existir. Não sou filha de Zumbi e Dandara, não sou filha de Sepé Tiaraju, sou branca, mas com os pés fincados em terras que rangem e sangram com as feridas abertas da colonialidade[3]. A bússola começou a rodar, um tanto perdida, até me apontar para a latino américa: o sul virou meu norte.

Sou latino americana, mas o que significa isso?

Ser latino-americana significar estar mergulhada em uma região que não consegue emancipar seus povos, que permanece sendo consumidora tanto de teorias como de tecnologia, que está mergulhada no racismo, no machismo, no classismo e na heteronormatividade. Ser latino-americana é carregar a marca da exploração e da manipulação, é ter voando nos céus o Condor com suas asas que sufocam, mas é também um lugar onde a solidariedade emerge em situações limites e a teimosia em permanecer vivo, construindo e reconstruindo é uma realidade.

Este pueblo no se ahoga con marullos. Y si se derrumba yo lo reconstruyo. Tampoco pestañeo cuando te miro. Para que recuerdes mi apelido. La operación cóndor invadiendo mi nido. Perdono pero nunca olvido, oyeAquí se respira lucha. (Vamos caminando).Yo canto porque se escucha (vamos caminando).Aquí estamos de pie. Que viva la América. No puedes comprar mi vida[4]

De acordo com Lélia Gonzalez, não há latinidade, mas ladinidade: somos fruto da América Africana, ou seja, uma Améfrica Ladina. “Prá quem saca de crioulo, o texto aponta prá uma mina de ouro que a boçalidade europeizante faz tudo prá esconder, prá tirar de cena” (GONZALEZ, 1980). Ou seja, o Brasil deve ser lido a partir da centralidade dos corpos e da cultura negra que a colonialidade insiste em apagar, somos o resultado de um encontro forçado entre dois continentes, somos o resultado da viagem entre dois atlânticos.

Sou brasileira, mas o que significa isso?

Impossível estudar e compreender as estruturas da sociedade brasileira sem analisar o seu processo de formação. As relações sociais, fundadas na ideia de raça, e, portanto, hierarquizadas, são relações de dominação. As identidades foram associadas a lugares e papéis sociais correspondentes, ou seja, a raça, a criação de subjetividades e as identidades sociais foram estabelecidas como instrumento de classificação dos povos (QUIJANO, 2005, p.118). Houve, e ainda há, a “pedagogia de identidade”, naturalizando a construção de espaços que podem ser ocupados por mulheres, por negros e por velhos, nos levando a acreditar que outros espaços não são feitos para serem ocupados por outros sujeitos que não aqueles que se enquadram nas determinações que nos foi imposta (BERNER, 2017, p. 40). Somos fruto de séculos de escravidão e o resultado dos processos de silenciamentos, de tentativas de embranquecimento, de castração da sexualidade e da domesticação dos corpos.

De acordo com Bento:

Alianças inter-grupais entre brancos são forjadas e caracterizam-se pela ambiguidade, pela negação de um problema racial, pelo silenciamento, pela interdição de negros em espaço de pode pelo permanente esforço da exclusão moral, afetiva, econômica, política dos negros, no universo social. Nesse contexto, se caracteriza a branquitude como um lugar de privilégio racial, econômico e político, no qual a racialidade não nomeada como tal, carregada de valores, de experiências, de identificações afetivas, acaba por definir a sociedade. Branquitude como preservação de hierarquias racias(i, como pacto entre iguais, encontra um território particularmente fecundo nas Organizações, as quais são essencialmente reprodutora e conservadora. (BENTO, 2002, p. 7)

A elite escravocrata continua no poder e o pacto narcísico da branquitude (BENTO, 2002) continua hierarquizando pessoas e saberes. Os números escancaram essa realidade. De acordo com o Atlas da Violência 2019, a desigualdade racial é sentida quando da análise da violência contra mulher a partir da comparação entre mulheres negras e não negras vítimas de homicídio.

Enquanto a taxa de homicídios de mulheres não negras teve crescimento de 4,5% entre 2007 e 2017, a taxa de homicídios de mulheres negras cresceu 29,9%. Em números absolutos a diferença é ainda mais brutal, já que entre não negras o crescimento é de 1,7% e entre mulheres negras de 60,5%. Considerando apenas o último ano disponível, a taxa de homicídios de mulheres não negras foi de 3,2 a cada 100 mil mulheres não negras, ao passo que entre as mulheres negras a taxa foi de 5,6 para cada 100 mil mulheres neste grupo.(IPEA, 2019, p.38)

Quando analisamos os números de vítimas de homicídios sem a divisão por gênero, a violência contra os negros permanece. Em 2017, 75,5% das vítimas de homicídios foram indivíduos negros, sendo que a taxa de homicídios por 100 mil negros foi de 43,1, ao passo que a taxa de não negros (brancos, amarelos e indígenas) foi de 16,0. Ou seja, para cada indivíduo não negro que sofreu homicídio em 2017, aproximadamente, 2,7 negros foram mortos. (IPEA, 2019, p. 49).

Nossos corpos são marcados pela realidade que nos abraça, pela violência de gênero e de raça. Romper com esses grilhões não é tarefa fácil, mas precisamos nos entender como sujeitos situados, na concretude das nossas vivências. A universalização e abstrativização dos sujeitos não servem aos latino-americanos, aos brasileiros, porque precisamos desnudar o véu da neutralidade e pensar a nossa reconstrução a partir de outros paradigmas, respostas fecundadas pela e da experiência da Améfrica.

Sou brasileira, e o que isso significa?

Hoje ser brasileira é estar perplexa com as violências que nos atravessam, com as assimetrias que nos sufocam, com a brutalidade dos “donos do poder”[5], mas é também acreditar na micropolítica que trabalha sobre as pequenas coletividades e nas ações corporais que permitem que floresçam espaços de liberdade, que buscam repolitizar a cotidianidade, como nos ensina Silvia Rivera Cusicanqui[6]. Ela também, nesta mesma entrevista, me apresentou um aforismo aymara que diz Quipnayra uñtasis sarnaqapxañani e pode ser traduzido como “olhando atrás e adiante podemos caminhar no presente futuro”. Ou seja, revisitando nossa história e enfrentando nossos traumas e nossas ausências, podemos cuidar das nossas feridas. A implementação de políticas de reparação raciais e de gênero podem fazer as águas dos dois atlânticos fluírem sem o vermelho-sangue que hoje banha nossa terra.

E essa viagem, apesar de nunca ser em mares calmos, poderá ser mais agradável aos sentidos porque o que queremos é paz e justiça social, afinal, não há paz sem justiça, como o levante negro tem nos ensinado.

(Libertação dos Escravos (estudo), Pedro Américo, 1889, Acervo do Palácio dos Bandeirantes, São Paulo)


[1]Dois Atlânticos é o nome de um livro clássico do Sérgio Costa: A Dois Atlanticos. Teoria Social, Anti-Racismo e Cosmopolitismo.

[2] Letra da música Sangue Latino: Compositores: Joao Ricardo Carneiro Teixeira Pinto / Paulo Roberto Teixeira Da Cunha Mendonca. Letra de Sangue Latino © Universal Music Publishing Group, Tratore. Disponível em https://www.google.com/search?q=sangue+latino&oq=sangue+&aqs=chrome.0.69i59j46j69i57j0l3j46j69i61.1607j0j7&sourceid=chrome&ie=UTF-8. Acesso em 12 de junho de 2020.

[3] Expressão utilizada por Mignolo, um autor descolonial, que estabelece sermos fruto da exploração e das violências estruturais do período colonial que não se extinguiram com os processos de independências dos países da América Latina.

[4] Letra da música Latinoamerica – Calle 13. Compositores: Rafael Ignacio Arcaute / Eduardo Cabra / Rene Perez. Disponível em https://www.google.com/search?sxsrf=ALeKk03hmAvzZJtP3S2c7p9j7zPhnKaKcA%3A1592262490276&ei=Wv_nXva6EPaf5OUPv_WYsA8&q=latinoamerica+musica&oq=latino+america+m&gs_lcp=CgZwc3ktYWIQAxgAMgQIABAKMgQIABAKMgQIABAKMgQIABAKMgQIABAKMgQIABAKMgQIABAKMgYIABAWEB4yBggAEBYQHjIGCAAQFhAeOgQIABBHOgUIABCxAzoFCAAQgwE6AggAOgQIIxAnOgQIABBDOgcIABCxAxBDOggIABAWEAoQHjoECAAQDToGCAAQDRAKOgYIABANEB46CAgAEA0QChAeUJmMIFi6wSBgmNMgaAdwAngAgAHiAYgByyOSAQcwLjExLjEymAEAoAEBqgEHZ3dzLXdpeg&sclient=psy-ab. Acesso em 12 de junho de 2020.

[5] Expressão é oriunda do livro “Os Donos do Poder” de Raimundo Faoro.

[6] Para ler a entrevista completa: https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2019/03/08/bolivia-silvia-rivera-cusicanqui-temos-que-produzir-pensamento-a-partir-do-cotidiano/. Acesso em 15 de junho de 2020.