No radar

Terra Americana, de Jeanine Cummins

por Filipa Gonçalves

Mais do que um livro, Terra Americana é um fenómeno. No dia seguinte ao da publicação do romance nos Estados Unidos da América, em Janeiro deste ano, Oprah Winfrey anunciava-o como o livro seguinte do seu clube de leitura.

A partir desse momento, a polémica estava lançada. De um lado da barricada, fervorosos admiradores, nos quais se incluem John Grisham, Stephen King e Sandra Cisneros, esta última a apelidá-lo de “grande romance de las americas”. Alguém o terá mesmo epitetado de “As Vinhas da Ira” do nosso tempo. Do outro, críticos ferozes a uma prosa que percepcionam como perpetuação de estereótipos sobre os latino-americanos, apropriação da sua história e da sua voz (a recensão de Myriam Gurba, semanas antes da publicação do livro, foi absolutamente demolidora) e, por último e não menos importante quando falamos de uma obra literária, de um romance falhado na sua execução cujos únicos méritos residem em ser “invejavelmente fácil de ler” e “determinadamente apolítico”.

Polémicas à parte, ou por causa delas, certo é que, sem que tivesse decorrido um mês desde a sua publicação, entrava no primeiro lugar dos livros mais vendidos no New York Times e, apenas alguns meses volvidos, já se encontra traduzido em várias línguas e países, entre os quais o nosso. A sua adaptação cinematográfica está em curso, coroando de glória um sucesso comercial.

O romance começa com um tiroteio durante a quinceañera da sobrinha de Lydia Quixano Pérez. Todos os membros da sua família são executados por narcotraficantes, excepto a própria e o filho Luca, com oito anos de idade.

Os únicos sobreviventes do massacre, deixam a sua cidade natal de Acapulco e atravessam o México em direcção à fronteira dos Estados Unidos da América, com centenas de outros migrantes latino-americanos, no topo do comboio de carga conhecido como “La Bestia”.

Numa época de novos muros e referências aos cidadãos mexicanos como “bad hombres”, o romance tem o mérito de incidir sobre o tema da migração dos latino-americanos para os Estados Unidos da América, espelhar a violência e precariedade económica que os impelem a deixar o seu país e a durez da viagem. Através dos encontros e provações de Lydia e Luca, a autora consegue transmitir o risco do empreendimento. As descrições de momentos vividos no comboio criam expectativa e tensão narrativa.

Neste aspecto, pode dizer-se que o livro cumpre o seu propósito como thriller. Mas peca por alguma inconsistência noutros pontos.

Desde logo, existe algum maniqueísmo na caracterização dos países de origem e destino dos migrantes. O México é representado como um país irremediavelmente corrupto e violento, não obstante a boa índole de alguns dos seus cidadãos, enquanto os Estados Unidos da América são a terra do sonho, o único sítio onde Lydia, Luca e os migrantes com quem viajam poderão, finalmente, encontrar paz.

Também no que respeita aos personagens apresenta variadas incoerências. A protagonista, Lydia, é dona de uma livraria em Acapulco e casada com um jornalista de investigação especialmente dedicado a expor a violência dos cartéis no México. Mas, apesar de ser uma mulher culta e informada, é frequentemente apanhada de surpresa pelas circunstâncias. Fica perplexa ao saber que o homem que a visita na livraria, acompanhado de dois guarda-costas é, afinal, um narcotraficante; surpresa ao ser confrontada com as consequências da publicação do perfil que o seu marido escreveu sobre aquele; e tem que experienciar a viagem para realmente perceber o grau de desespero dos migrantes que os leva a correr risco de morte, amputações de membros e fome, um tema que tem sido cada vez mais objecto de cobertura jornalística nacional e internacional.

As demais personagens são boas ou más. Raramente são confrontados com dilemas morais.

Neste contexto, percebem-se as questões suscitadas pela publicação do livro e que vêm ao encontro dos debates contemporâneos sobre o lugar de fala e a apropriação cultural. No caso, a apropriação traduz-se na transposição de uma realidade dos latino-americanos, em moldes que, através da perpetuação de estereótipos culturais (os vestidos de quinceañera, as celebrações do dia dos mortos e outros já abordados com profundidade por vários críticos) visam facilitar a absorção e assimilação da narrativa pela maioria – branca – dos leitores estado-unidenses, ao invés de reflectirem um verdadeiro entendimento da experiência vivida pela comunidade que retracta.

Quando se fala de ficção literária as referidas problemáticas não têm solução linear.

Se, por um lado, apenas quem tiver experienciado uma determinada realidade pode escrever sobre ela, estará a reduzir-se a escrita a uma actividade quase autobiográfica. Por outro, é indiscutível que urge ponderar os motivos pelos quais não são ouvidas outras vozes sobre realidades das quais elas são protagonistas e querem falar.

Como a maioria das obras, esta tem aspectos melhor conseguidos que outros e nada como lê-la para poder extrair as suas próprias conclusões.


Terra Americana, Jeanine Cummins, Edições Asa, Março 2020