Leituras

O quarto de Giovanni ou a anatomia do desprezo

por Filipa Gonçalves

James Baldwin tinha 24 anos quando chegou a Paris com apenas um punhado de dólares no bolso, a vontade de escapar à discriminação e o desejo feroz de dedicar a sua vida à escrita. Nascido no Harlem e profundamente marcado por episódios de racismo quotidiano desde a infância, incluindo violência policial, deixou a América convicto de que, sendo negro, apenas tal fuga lhe permitiria não perecer precocemente, às mãos de um qualquer homicídio motivado pela cor da sua pele. Foi nessa cidade que, pela primeira vez, foi capaz de entender e aceitar a relação consigo próprio e com a América. Viria, igualmente, a escrever os seus dois primeiros romances, um deles o Quarto de Giovanni, ainda sem tradução em Portugal.

“Permaneço à janela desta grande casa no sul da França enquanto a noite cai, a noite que me levará à manhã mais terrível da minha vida”.

Assim começa o romance. David, um americano a viver em França, anuncia que a narrativa que se seguirá é a de uma tragédia. O tom é grave e solene. A partir desse momento inicial, liberto do recurso a estratégicas narrativas para manter o suspense, o autor desenvolve a história que levou David àquele momento inicial fundamentalmente em analepse, embora a fluidez cronológica seja um traço marcante da obra, revelando logo nas primeiras páginas os elementos essenciais da trama e conseguindo, ao mesmo tempo, manter a tensão narrativa.

O protagonista revisita a sua infância e juventude, o seu primeiro e fugaz encontro romântico com um rapaz, a relação com o pai e os motivos que o levaram a trocar a América por Paris, o seu namoro com Hella, a americana com quem vivia em Paris e que, perante um pedido de casamento, foge para Espanha para pensar, e a ligação com Giovanni, um barman italiano que conhece naquela cidade na ausência de Hella e por quem se apaixona.

A obra tem como cenário a vida nocturna na Paris dos anos 1950, os ambientes queer frequentados por Baldwin embora o autor manifestasse alguma ambivalência relativamente a este último, caracterizando-o como propenso a encontros fugazes em detrimento da construção de relações humanas genuínas com um amigo ou com um amante.

Numa entrevista concedida nos anos 80, Baldwin declarou que o livro, considerado um clássico da literatura LGBTQ, não era tanto sobre homossexualidade, mas sobre o que acontece quando se tem medo de amar alguém. Apesar da afirmação, julgo que quem ler a obra terá alguma dificuldade em desprender o medo de amar do narrador da circunstância deste não aceitar a sua homossexualidade ou sequer bissexualidade.

Através da descrição, as mais das vezes impiedosa, do meio circundante e dos personagens que nele habitam, David vai revelando os seus conflitos internos.

A descrição do ambiente do bar onde vem a conhecer Giovanni é, ao mesmo tempo, viva e cruel. Particularmente cruel. O narrador descreve os habitués e os estranhos (três ou quatro senhoras parisienses chiques sentadas à mesa com os seus “gigolôs, amantes ou talvez simplesmente os seus primos do campo, só Deus sabe”; os cavalheiros de olhos ávidos, por vezes desesperados, e os rapazes magros de calças justas, à procura de dinheiro, sangue ou amor). Detém-se, com pormenor, nos homens que apelida de les folles, vestidos com as mais improváveis combinações, “gritando como papagaios os detalhes dos seus últimos casos amorosos”, e se tratam por “ela”, considerando ser-lhe difícil conceber que consigam dormir com alguém pois “um homem que queira uma mulher certamente preferirá uma verdadeira, e um homem que queira um homem certamente não quererá um deles”. Detém-se, ainda, num outro frequentador do bar, um rapaz habitualmente maquilhado, usando brincos e, em algumas noites, saia e saltos altos. Embora todos o reputem de simpático, David confessa que “o seu aspecto grotesco o deixava desconfortável, provavelmente da mesma maneira que a visão de macacos a comer os seus próprios excrementos dava a volta ao estômago a algumas pessoas”. Cruel, com efeito.

No meio destes pensamentos, David vê pela primeira vez Giovanni, insolente, escuro e leonino, servindo no bar. O amor negro ao canto do bar.

A leveza do encontro entre ambos, do diálogo de sedução, contrasta com a escuridão do ambiente circundante, e prolonga-se durante a noite em que se conhecem. É nesta mesma noite, entre cognacs e cigarros, que Jacques, um conhecido de David, homossexual e de meia idade, num dos trechos mais marcantes do livro, adivinhando a incapacidade de David para viver o que a vida lhe apresenta, exorta-o a amar Giovanni e deixar-se amar. Nada mais debaixo do céu importa verdadeiramente, diz. “Se te protegeres o tempo todo (…), acabarás preso dentro do teu próprio corpo sujo, para sempre, para todo o sempre – como eu”, profetiza Jacques, bem ciente, pelo seu percurso, da escassez do amor.

Sem sombra não se vê a luz. E Baldwin consegue expressar ambas, numa prosa viva e ritmada, passando de um registo para outro ao sabor do estado de espírito dos personagens.

Há luz na vivacidade e impetuosidade de Giovanni; na privacidade do seu pequeno apartamento, nas franjas de Paris, simbolismo da marginalidade social do romance, onde ambos viverão um tempo fluído, sem notar a passagem de horas e dias, encontrando alegria e assombro renovados a cada dia; em gestos como a partilha do café pela manhã e as pequenas reparações feitas por Giovanni faz para tornar o seu quarto num lar. Há sombra na angústia e medo sentidos por David. Na dificuldade em dar-se inteiramente a Giovanni; no ressentimento por aquele ter despertado em si desejos que não voltariam a ser adormecidos. “Sabia que o que o marinheiro tinha visto nos meus olhos era desejo e inveja”; mais tarde, no desamor. “Senti tristeza, vergonha, pânico e muita amargura”; no ódio: “Nasceu em mim um ódio por Giovanni, que era tão poderoso quanto o meu amor e que era nutrido pelas mesmas raízes”; e na repulsa. “O seu toque nunca deixava de me fazer sentir desejo; no entanto, o seu hálito quente e doce também me fazia querer vomitar”.

Incapaz de viver o amor por Giovanni, David abandona-o, refugiando-se em Hella, a ideia da boa vida americana desejada, de lar, à qual não consegue regressar. Também é incapaz de vê-la como verdadeiramente é. Está sem rumo.

O desgosto conduz Giovanni ao abismo. “Se não me podes amar, morrerei. Antes de ti, queria morrer, já te disse muitas vezes. É cruel teres-me feito querer viver apenas para tornar a minha morte mais sangrenta”. Quer evadir-se. “Je veux m’évader – este mundo sujo, este corpo sujo. Desejo nunca mais fazer amor com outra coisa para além do corpo”, diz com amargura. É o desprezo de David, por si próprio e por Giovanni que suja o amor de ambos.

Só em retrospectiva, depois de saber o destino fatal de Giovanni, David, procurando expiação, confessa nunca ter amado ninguém como o amou, que permanecerão ligados apesar da separation de corps e que, nos dias vindouros, no brilho de uma manhã cinzenta, entre café e cigarros, defronte de um qualquer rapaz sem importância e no meio do fumo, voltará a ver Giovanni tal como era naquela primeira noite, vivo e brilhante.

Há quem considere o “Quarto de Giovanni” um antídoto para a vergonha. Leio-o como um estudo sobre o desprezo, por si próprio e pelo outro. Baldwin põe-no em cima da mesa, disseca-o e escreve sobre as suas consequências devastadoras.

Os pensamentos de David ao longo do livro são perturbados e perturbadores, perfeitamente espelhados na prosa profunda e estruturada de Baldwin. A sua leitura provocou-me, em vários momentos, desconforto, noutros revolta, quase sempre rejeição do protagonista. “Nunca amaste ninguém. Estou certo que nunca amarás!”, diz-lhe Giovanni com amargura. Raramente senti empatia por David – foi consumida por Giovanni e por Hella – embora a descrição de episódios da sua infância e da angústia que o corrói possam induzi-la. Talvez por isso tenha demorado a digerir a obra.

Questionei-me muitas vezes – faço-o ainda ao escrever este texto – qual seria o propósito de Baldwin, um activista dos direitos cívicos assumidamente gay, ao dar voz a pensamentos tão aviltantes sobre a homossexualidade que, em tempos de homofobia como eram os anos 50 do século passado, melhor ficariam calados. Homófobo já era o mundo – não será ainda? – e não precisava de mais incentivo. Mas as palavras não são indigestas, a realidade que expressam é que é. O autor revelou-a corajosamente, demonstrou que o profundo desprezo de David pelos outros é um reflexo do seu autodesprezo e tem um preço elevado. Ficamos todos advertidos.

No fim, não fica senão a sensação da tragédia que é o desperdício de um sentimento único como é o amor. Jacques tinha razão: “Alguém (…) deveria ter-nos dito que poucas pessoas morreram de amor. Mas multidões pereceram e perecem a cada hora – e nos lugares mais estranhos! – pela falta dele”.


Giovanni’s Room, James Baldwin, Penguin Great Loves.

(Todos os excertos da obra foram traduzidos livremente pela autora)