No radar

La Giuditta

por Carla Coelho

Nascido na primeira parte do século XVIII Francisco Almeida integrou um conjunto de compositores portugueses enviados para Roma por D. João V, com o objectivo de aí estudarem. Pretendia o monarca aproveitar as riquezas que afluíam a Lisboa para renovar a a vida artística e cultural do nosso país.

Regressado a Lisboa, Almeida compôs algumas peças cómicas, mas foi na música sacra que encontrou o contraponto para aquelas e onde atingiu maior distinção. Grande parte das suas obras não chegaram até nós, tendo desaparecido com o andar dos séculos. A oratória La Giuditta foi um dos poucos trabalhos que chegaram até nós.

Comprei o CD da mesma (que se vê na fotografia) um pouco por impulso. Não conhecia o trabalho de Francisco Almeida, mas os temas bíblicos exercem sobre mim um certo encanto. O libreto em que Almeida se baseou é anónimo e retoma a história de Judite, uma viúva judia que consegue entrar no acampamento do exército assírio que cerca a sua cidade. Mata Holofernes, general que comanda as tropas, e assim põe fim ao cerco, sendo uma heroína para os seus conterrâneos. O Livro de Judite tornou-se imensamente popular. Caravaggio e Artemisia Gentilishi pintaram a morte de Holofernes às mãos de Judite e Scarlatti compôs uma ópera assente no mesmo episódio.

Lena Loontens, Francesco Congiu, Axel Köhler e Martyn Hill emprestam a voz às personagens que compõem esta oratória. Dão-lhes frescura e dramatismo, deixando-me com a vontade de, no mundo pós Covid-19, assistir a esta oratória em carne e osso, numa das nossas salas de espectáculos.