Cinema

A mulher no cinema. As excepções à regra.

por Joana Gonçalves

“Fasten your seatbelts it’s going to be a bumpy ride”. Margo Channing

Uma das excepções ao estereótipo é Bette Bavis com personalidade adulta, dura e conhecedora. Nunca inteiramente confortável como uma ingénua, era gloriosa como uma profissional, uma sobrevivente ou uma predadora malvada. A atriz veterana Margo Channing em “All About Eve” (1950) foi o seu maior papel. Pode parecer mostrá-la derrotada pelas artimanhas de uma atriz mais jovem, mas de facto marca uma vitória: o triunfo da personalidade e da vontade sobre o poder superficial da beleza. Bette Davis nunca teve um papel mais autobiográfico.

O filme mostra Margo Channing como uma pessoa em particular, e Eve Harrington como um tipo.

Eve é uma falsa fã obcecada. Entra no círculo próximo de Margo, tornando-se secretária, depois aprendiz e depois rival.

Margo acredita na história de Eve de vida difícil e adoração. Nenhum actor tem muita dificuldade em acreditar que os outros gostariam de dedicar-lhes as suas vidas. A boa e doce Karen, amiga de Margo, também simpatiza com a Eve, e organiza a saída de Margo para o campo num fim de semana para que Eve possa continuar como sua substituta. Karen é recompensada quando Eve tenta roubar o seu marido dramaturgo, depois de uma tentativa mal-sucedida de roubar o noivo de Margo, Bill, interpretado por Merrill (marido de Davis), que a afasta.

Margo brinca por ter um grande ego, mas está apaixonada pelo seu trabalho: é uma profissional, não uma exibicionista.

Bebendo demais, desiludida com a traição de Eve, deprimida com seu aniversário de 40 anos, Margo diz que admitir sua idade a faz “sentir como se eu tivesse tirado todas as minhas roupas”. Olha para Bill e diz amargamente: “O Bill tem 32. Ele parece 32. Ele parecia 32 há cinco anos atrás. Vai continuar a parecer daqui a 20 anos. Eu odeio homens”.

Davis fuma durante todo o filme. Numa época em que as estrelas usavam cigarros como adereços, ela não fuma como comportamento ou para expressar seu humor, mas porque quer. O fumo é inestimável, diferenciando-a dos outros, separada do apoio e das necessidades deles. É frequentemente vista dentro de uma nuvem de fumo, uma metáfora para o seu carisma.

“I am big. It’s the pictures that got small.” Norma Desmond

A performance de Davis como uma estrela a envelhecer é sempre comparada com outra famosa performance de 1950 – a reformada estrela de cinema de Gloria Swanson em “Sunset Boulevard”.

Davis interpreta Margo Channing de forma realista, enquanto Swanson interpreta Norma Desmond como uma figura gótica. O desempenho de Davis é mais forte que o de Swanson, porque é menos louco e mais comovente. Davis era uma personagem, um ícone com um estilo grandioso, até os seus excessos são realistas.

“Sunset Boulevard”, de Billy Wilder, é o retrato de uma estrela do cinema mudo esquecida, vivendo em exílio na sua mansão grotesca, revendo os seus filmes antigos, sonhando com um retorno.

Apesar de ser estar decadente, Norma ainda possui o carisma que faz com todos à sua volta lhe sejam devotos. O seu mordomo é o seu primeiro marido e foi também seu realizador. O jovem argumentista (com metade da sua idade) com quem inicia uma relação, gosta do estilo de vida que Norma lhe proporciona, mas também gosta de partilhar a vida com ela.

“Something´s like crossed over in me and I can´t go back”. Thelma

O que diferencia “Thelma & Louise” da grande tradição dos filmes “Roadtrip” (“Easy Rider”, “Bonnie e Clyde”, “Badlands”, “Midnight Run” e “Rain Man”) é que os heróis são mulheres: duas amigas da classe trabalhadora de uma pequena cidade do Arkansas, uma empregada de mesa e a outra dona de casa, ambas provavelmente prontas para se descreverem como absolutamente comuns, ambas com poucos recursos.

Thelma (Geena Davis) é casada com um homem que trabalha como gerente de vendas distrital de uma empresa de tapetes. Ele vê a sua mulher como inferior, que pode ser tolerada desde que cumpra os seus deveres domésticos e seja paciente com as suas birras. Louise (Susan Sarandon) serve à mesa numa cafeteria e está envolvida com um músico que nunca estará pronto para assentar, não importa o quanto ela goste dele.

Fazem-se à estrada para um fim de semana (Thelma tem tanto medo do marido que deixa um bilhete em vez de contar-lhe). De certa forma parecem estar à procura de problemas. Depois de muitas margaritas, Thelma começa a flirtar com um cowboy, que tenta violá-la no parque de estacionamento. Louise vem em socorro da sua amiga, e este evento termina com a morte do homem. As duas mulheres decidem fugir. Estão convencidas de que ninguém jamais acreditaria na sua história e a única alternativa é fugirem e esconderem-se.

Agora vem o que seria a coisa mais previsível: o carro a andar por estradas solitárias num pôr do sol vermelho-sangue com muita música country. Sarandon e Davis encontram neste argumento o material para a criação de duas personagens plausíveis, convincentes e adoráveis. E, como actrizes, trabalham juntas como uma equipa com grande cumplicidade, atravessando até as cenas mais perigosas sem erros.

Elas têm aventuras ao longo do caminho, algumas doces, outros trágicas, incluindo uma reunião com um jovem astuto e sexy chamado JD (Brad Pitt), que é capaz, como o cowboy morto, de explorar a fome sexual de Thelma, deixada intacta pelo vendedor de tapetes.

Tornam-se alvos de uma caçada humana. Todos os polícias de uma área de seis estados gostariam de detê-las. Mas lá em Arkansas, há um policial (Harvey Keitel) que tem empatia por elas, que vê como entraram neste buraco e agora estão prestes a enterrar -se nele. Ele tenta “impedir que a situação se espalhe”. Mas Thelma e Louise começam a ficar intoxicadas com o cheiro da sua própria liberdade – e com a descoberta de que possuem recursos e capacidades que não sonhavam ter.

Este filme mostra uma grande simpatia pela comédia humana, no entanto, é intrigante a maneira como ele nos ajuda a entender o que está a acontecer dentro do coração destas duas mulheres, porque precisam elas de fazerem o que fazem.

Desde sempre, o star system faz parte integrante da indústria cinematográfica, que na sua narrativa, trabalha constantemente com estereótipos, como a jovem inocente, a vamp, a prostituta e a divina. A divina, ou diva, situa-se entre a jovem inocente e a femme fatale, aquela que sofre, mas faz sofrer, encarnada historicamente por Greta Garbo. Mesmo com o grande avanço da emancipação feminina, nos anos 60, as mulheres do cinema ainda são construídas com base nesses estereótipos, escondendo-se atrás de um romantismo exagerado e sem nenhuma indicação sobre o modo real de sua vida. Simplesmente ignora-se o feminismo no cinema.

As atrizes e suas personagens, sempre concebidas como arquétipos, de vamps a mães, serão continuamente vítimas de si mesmas ou de contingências externas. E, mesmo que reajam contra isso, nunca se vê no cinema verdadeiras heroínas, mas sobretudo pessoas inexpressivas e passivas e, não raro, reacionárias. Devido a esses fatores sociais, o cinema sempre ficou atrasado em relação a toda revolução sexual.


(Segunda parte do artigo cuja primeira parte foi publicada a de 2020)