Cinema

A mulher no cinema. A representação feminina.

por Joana Gonçalves

A mulher está sub-representada no cinema. As minorias raciais estão sub-representadas no cinema. O homem branco é vastamente representado no cinema.

Numa sociedade machista e patriarcal, a representação feminina no mundo das artes não foge deste padrão, vista como complemento do personagem principal masculino em obras cinematográficas. Actualmente, a mulher tenta conquistar espaço no cinema e fugir da forte sexualização feita pelo homem.

Até meados do século XX a mulher desempenhava pouco mais do que as funções de dona de casa, esposa e mãe, representada como sensível e frágil. O movimento feminista começa a expandir-se em 1960 questionando o lugar da mulher na sociedade, economicamente e politicamente.

Laura Mulvey, crítica cinematográfica e feminista britânica, entende que a representação da mulher no cinema é objecto de superioridade masculina. Os filmes do cinema americano influenciaram a visão da mulher na sociedade que, inconscientemente, é vista até aos dias de hoje como um ser que tem a capacidade de manipulação através do seu aspecto visual e da sexualidade.

Entre 1930 e 1960, foram muitos os filmes realizados em que as mulheres satisfaziam todas as fantasias masculinas, sendo que o cinema por ser uma arte visual, é facilmente reconhecido como uma representação da realidade. É, portanto, uma projecção do que os homens querem, mas também de como as mulheres querem ser vistas por estes.

Marilyn Monroe é um exemplo desse papel sexual da mulher no cinema. A sua imagem erótica funciona como ligação entre a personagem masculina e o espectador, colocando-os dentro do mesmo sistema de espectáculo erótico.

A imagem feminina exibida é destacada e isolada, glamourosa e sensual. Contudo, à medida que a narrativa se desenrola, a personagem feminina apaixona-se pelo protagonista, torna-se propriedade deste e, consequentemente, perde as suas qualidades: elegância e glamour.

Nos dias de hoje, o padrão da mulher desejável é a Manic Pixie Dream Girl (MPDG), que é o perfil de uma personagem feminina meiga, com óptimo gosto musical, atrapalhada e com pequenos defeitos que a tornam mais adorável. Tudo isto idealizações masculinas. Este termo foi criado pelo crítico de cinema Nathan Rabin para descrever a personagem de Kirsten Dunst em Elizabethtown e é descrito como “aquela efervescente criatura cinematográfica que existe exclusivamente na imaginação febril de escritores/realizadores sensíveis a fim de ensinar jovens homens sentimentais depressivos a abraçar a vida e os seus mistérios e aventuras”. As MPDG existem, mas não têm a sua própria historia. Estão nas obras apenas para o desenvolvimento emocional do personagem principal masculino.

Ann Kaplan, uma autora e professora que investigou a relação entre mulher e cinema, destaca mudanças no comportamento feminino e na sua representação nos filmes. Caracteriza três tipos de mulher desde os anos 30 até aos dias de hoje: a mulher cúmplice que assume uma postura frágil, a mulher resistente e feminista que luta pelos seus direitos e realizações e a mulher pós-moderna que, tendo encontrado o seu lugar no mundo, conquista a liberdade desejada e está preparada para enfrentar as questões que possam surgir devido à sua nova situação.

Alice Guy foi a primeira mulher a realizar, escrever e produzir filmes por conta própria em 1896. Foi inovadora na utilização de cor, efeitos especiais e sonoros no primeiro filme narrativo da história do cinema “La Fée Aux Choux”. Apesar disso, desde então a representatividade feminina no mundo do cinema ainda não é relevante.

Uma publicação do Geena Davis Institute on Gender in Media juntamente com a ONU Women e a Fundação Rockefeller, demonstrou que apesar de metade da população mundial ser feminina, só 30,9% dos papéis com falas em cinema são do sexo feminino. No caso de filmes de acção ou aventura, essa percentagem baixa para 23,3%. Em relação a protagonistas só 23,3% dos papéis principais são mulheres.

À primeira vista o cenário actual pode parecer promissor com várias super-heroínas no feminino. Contudo, a maior parte destes casos são remakes de super-heróis agora no feminino sem acrescentar nada de novo a não ser uma protagonista mais jovem e mais bela do que o original masculino.

Já nos filmes de animação parece haver uma mudança mais significativa. Frozen tem a primeira princesa da Disney que não precisa de um príncipe encantado e a protagonista de Zootopia supera várias barreiras entre elas o machismo. Moana é a filha do chefe de uma tribo na Oceânia, onde desbrava mares e enfrenta monstros para salvar a sua ilha.

Toda a conversa actual sobre feminismo no cinema e sobre grandes personagens femininas parece-me superficial e na verdade um retrocesso. Afinal, na actualidade, não consigo identificar o equivalente às mulheres e protagonistas que tanto me inspiraram com grandes interpretações, achava eu, feministas: Bette Davis, Greta Garbo, Joan Crawford, Lauren Bacall, só para mencionar algumas.

Mas, revendo algumas das interpretações que tanto admiro, chego à conclusão que são muito poucas as que fogem verdadeiramente a estereótipos. Pode sempre haver uma ruptura no papel da mulher durante o desenvolvimento do filme mas, no fim, ela voltará sempre para seu devido lugar social e familiar. Caso isso não aconteça, no transcorrer do enredo, será castigada pela sua transgressão.

É disso que falarei na segunda parte deste artigo.


(A segunda parte do presente artigo será publicada no próximo dia 5 de Junho de 2020)