Leituras

Knut

por Joana Nascimento

Há muito tempo, quando a Terra ainda tinha magia, as estações se encontravam e antes do Frio ser Inverno, havia uma floresta. Era grande, cheia de árvores frondosas e pequenas clareiras onde corriam riachos e havia tapetes de belas flores.

Nela, habitavam todo o tipo de criaturas. Desde os pequenos insectos que voavam e rastejavam por entre as folhas, flores e a relva até aos animais maiores que caminhavam majestosamente por entre as copas das árvores ou nadavam nos cursos de água.

Entre todas as criaturas, havia uma peculiar. Era grande, tinha a pele esverdeada e olhos amarelos pequeninos. Apesar do seu tamanho, era simpática. Vestia umas calças e um colete castanhos. Andava descalço pois gostava de sentir a terra debaixo dos pés. Chamava-se Knut e vivia numa pequena gruta próxima de uma clareira na floresta. Era um ogre, ou pelo menos, assim parecia. Ao contrário dos outros ogres, que eram cruéis e gostavam de destruir tudo por onde passavam, bem como devorar tudo o que encontravam, Knut não era assim. Gostava de cuidar da floresta e das suas criaturas.

A gruta onde vivia, apesar de pequena, era acolhedora. Tinha a sua cama e uma pequena cozinha onde fazia a sua comida. Também tinha uma pequena casa de banho para se lavar.

Os seus dias eram passados entre limpezas e passeios pela floresta. Gostava de respirar o ar fresco e puro que vinha das árvores e cheirar o doce perfume das flores. Ao longo do tempo, tinha feito vários amigos. Esquilos, coelhos, pequenas aves, alguns insectos e outras criaturas mágicas, nomeadamente uma fada chamada Orion com quem gostava de conversar. Muitas vezes, ele ajudava os animais com os seus pequenos problemas e depois eles ajudavam-no. A harmonia reinava naquela floresta.

Mas um dia tudo mudou.

O dia amanheceu como qualquer outro. A luz do sol entrava pelas fisgas da gruta. Knut acordou com um cintilo a acariciar-lhe a cara. Abriu os olhos devagar e espreguiçou-se. Levantou-se e foi para a casa de banho preparar-se para mais um dia. Quando saiu da cama, sentiu algo diferente, como se estivesse mais leve. Que estranho. Pensou. Não me lembro de ter começado a fazer dieta.

Entrou na casa de banho e olhou-se ao espelho como sempre fazia. Ficou em choque com o que viu. Aquela não era a sua cara. Pelo menos, não a que costumava ter. Estava mais pequena, mais redonda, já não tinha a pele esverdeada, agora estava mais clara, os olhos estavam maiores e tinha-lhe crescido um pouco o nariz. Também tinha um tufo de cabelo castanho na cabeça. Olhou para o resto do corpo. Estava mais pequeno e esguio. As mãos e os pés mais pequenos, até os braços e as pernas estavam mais curtos.

Depois, a roupa. Apareceu-lhe uma camisa branca por baixo do colete, as calças encolheram e calçava sapatos castanhos que estranhamente eram confortáveis.

Saiu da casa de banho, ainda chocado e foi para a cozinha. Abriu o armário para preparar o pequeno-almoço. Desta vez, não comeu o de sempre: pão duro e café chilro porque não conseguia comer, sentia uma coisa esquisita no estômago só de olhar. Em vez disso, preparou café fresco e pão torrado. Soube-lhe muito melhor.

Depois de comer e de arrumar a gruta, saiu para passear como sempre fazia. Passou por todos os sítios onde costumava ir e todos o saudaram, apesar de no início não o reconhecerem. Ele retribuiu mas havia mais coisas estranhas. Normalmente, conseguia perceber o que os animais diziam, mas naquela manhã, só emitiam sons indecifráveis.

Voltou para casa com um ar triste. Sentou-se na cama. O que se passava com ele? De repente, deixara de ser um ogre para passar a ser outra coisa qualquer. Mas por estranho que pareça, ainda se sentia o Knut. Bem lá no fundo da sua alma.

Nesse momento, uma pequena luz apareceu no parapeito da janela. Era Orion que o vinha visitar. A luz transformou-se numa pequena rapariga de vestido de flor cor-de-rosa e asas. Tinha, ainda, o cabelo preto comprido apanhado numa trança e os olhos da mesma cor. Calçava pequenos sapatos brancos.

Foi até junto dele e quase não o reconheceu. Só pelos olhos soube que era o seu amigo. Perguntou com uma voz doce:

– Knut, és mesmo tu?

Ele levantou a cabeça e respondeu:

– Sim, sou eu.- A voz estava diferente também. Mais jovial e humana. Surpreendeu-se tal como Orion. Acrescentou:- Não sei o que se passa, hoje acordei assim! Nem comi o meu pequeno-almoço habitual! Depois, fui passear e nenhum animal me respondeu como de costume! O que faço, Orion? Ajuda-me!-

Orion voou à volta dele e voltou a pousar no parapeito. Disse com um ar confuso:

– Pois… parece que agora és humano. Deixaste de ser um ogre e de ter poderes mágicos por isso não percebes os animais.-

Knut fez uma expressão triste. Orion tentou consolá-lo:

– Vá lá! Não fiques assim! Vais ver que vamos conseguir arranjar uma solução!-

Ele sorriu timidamente. Perguntou:

– E tu conheces alguém ou alguma coisa que me possa ajudar?-

Orion pensou um pouco e respondeu:

– Eu não, mas talvez a Rainha das Fadas saiba. Podemos ir perguntar-lhe.-

Knut ficou nervoso. O Reino das Fadas era um sítio encantado e os ogres não eram bem-vindos. Orion confortou-o:

– Não te preocupes. Agora, não és um ogre por isso podes entrar.-

Tinha-se esquecido. Sorriu. Orion anunciou:

– Muito bem. Partimos amanhã de manhã.-

Despediram-se e o dia prosseguiu com Knut ansioso pelo dia seguinte.

Na manhã seguinte, Orion voltou a aparecer. Knut já tinha arrumado as suas coisas num pequeno saco de viagem. Era a primeira vez que saía da floresta e estava nervoso e ansioso ao mesmo tempo.

O Reino das Fadas ficava num vale a três dias de viajem, mas como estavam com pressa, Orion usou a sua magia de teletransporte e num instante estavam nas portas do Reino. Protegido por uma barreira mágica, erguia-se um pequeno povoado com casas redondas e caminhos entre elas. Um pouco mais adiante, estava o castelo da Rainha. Um imponente edifício ladeado por torres altas.

Quando se aproximaram da barreira, Orion tocou-lhe ao de leve e abriu-se uma brecha em forma de arco como uma porta. Entraram. Knut estava um pouco nervoso, mas a amiga tranquilizou-o. A sua aparência confundira toda a gente. Dirigiram-se ao castelo. As sentinelas da entrada pararam-nos:

– Quem são vocês e o que querem?-

Orion respondeu:

– Sou a fada Orion e este é o meu amigo Knut. Queremos uma audiência com a Rainha é um assunto urgente.-

Os guardas abriram caminho e eles entraram. Lá dentro, o castelo era igualmente belo com as suas colunas douradas, as suas fontes de água tão pura que ninguém lhes podia tocar ou ficava enfeitiçado. A ladear as fontes, belos conjuntos de estátuas e canteiros de flores coloridas.

Depois de passarem pelos jardins, chegaram à porta da Sala do Trono e o Conselheiro da Rainha travou-os juntamente com outros dois guardas. O Conselheiro fez a mesma pergunta que os guardas na porta de entrada e Orion respondeu da mesma maneira. Desta vez, foram escoltados pelo Conselheiro até à Sala do Trono. Atravessaram um corredor e foram dar a uma porta de madeira alta com duas maçanetas em forma de argolas. O Conselheiro abriu-as e eles entraram.

A Sala do Trono era enorme, também dourada e cheia de colunas. Ao fundo, estava o trono e, sentada nele, estava a Rainha das fadas. Uma mulher elegante com umas grandes asas de borboleta, um vestido de carmim, cabelo castanho apanhado numa trança e uma tiara de cristais e diamantes na cabeça.

Quando o Conselheiro os anunciou, eles fizeram uma vénia. A Rainha fez sinal para que ele se retirasse e ficou sozinha com eles.

– Podem levantar-se.- Disse com um tom de voz imponente mas doce.

Eles obedeceram. A Rainha perguntou:

– Então, o que vos traz por aqui?-

Knut ia responder, mas Orion impediu-o. Respondeu, fazendo uma vénia:

– Majestade, viemos pedir-lhe ajuda. O meu amigo quer voltar a ser um ogre.-

A Rainha fez uma expressão de surpresa e confusão ao mesmo tempo. Voltou a perguntar:

– Voltar a ser um ogre?-

Orion respondeu:

– Bom…é que sabe, Majestade, o meu amigo sempre foi um ogre, mas ontem acordou assim e até perdeu a sua capacidade de comunicar com os animais da floresta, por isso viemos pedir-lhe que nos ajude, precisamos de encontrar uma solução para este problema.-

A Rainha olhou para Knut que lhe sorriu timidamente. Depois, olhou novamente para Orion com um ar reprovador. Ela corou. Disse, passado um bocado:

– Muito bem. Vou ver o que posso fazer. Leva-o para o laboratório de magia, pode ser que Merlim possa ajudar.-

Orion agradeceu antes de se retirar com Knut:

– Muito obrigada, Majestade.-

Quando saíram, o Conselheiro escoltou-os ao laboratório. Ficava nas catacumbas do castelo, pelo que desceram umas escadas de pedra e chegaram a uma porta de madeira simples. Do outro lado, havia uma sala cheia de prateleiras com frascos de líquidos de todas as cores. Eram poções de fada para todo o tipo de maleitas. Constipações, borbulhas, soluços e outros.

– Merlim!- Chamou o Conselheiro.

– O que queres, Osvald?- Perguntou Merlim na outra ponta da sala. – Tenho aqui dois jovens que te querem falar.- Respondeu Osvald.

– Muito bem, já aí vou.-

Um homem alto, vestido com um traje azul-escuro e de barba branca comprida, surgiu por detrás dos frascos e das prateleiras. Aproximou-se do pequeno grupo. Exclamou:

– Ora se não é a Orion!- Olhou para Knut – E quem é este? É teu amigo?-

Osvald retirou-se. Assim que se viram sozinhos, Orion contou toda a história até aquele momento a Merlim. Quando terminou, este estava espantado:

– Mas que história que me estás a contar!- Exclamou ainda em choque. Acrescentou: – Isto é claramente um feitiço poderoso.-

Knut perguntou:

-E consegue revertê-lo? É que eu quero regressar à minha vida na floresta.-

Merlim fez uma expressão pesada. Chamou Orion à parte para um sítio onde Knut não os ouvisse:

– Posso saber o que te passou pela cabeça? Um humano?!-

Orion corou até à ponta dos cabelos:

– Eu sei, mas pensei que tinha acertado. Não queria que o resultado fosse este!-

Merlim olhou-a com um ar reprovador tal como a Rainha. Orion perguntou:

– E não nos sabes dizer como é que podemos reverter isto?-

Merlim respondeu:

– Desculpa, mas não te posso ajudar. Tu criaste esta confusão só tu é que podes sair dela.-

Olharam os dois para Knut que lhes acenou sorrindo. Orion acrescentou:

– O que é que eu lhe digo? Não lhe posso contar a verdade! Ele vai ficar chateado e eu não quero isso!-

Merlim pensou um pouco antes de responder:

– Já sei! Diz-lhe que eu conheço uma poção que pode reverter o feitiço, mas preciso de uns dias para a fazer. Entretanto, ficam aqui.-

Orion agradeceu a ajuda. Voltaram para junto de Knut e contaram-lhe o que combinaram. Knut ficou mais aliviado.

Durante o tempo que se seguiu, Orion e Merlim trabalharam em todas as soluções possíveis para quebrar o feitiço de Knut que, ao fim de algum tempo, já se estava a habituar á sua nova condição. Uma das muitas vantagens de se ter aquela aparência, estava no facto de conseguir ir a todo o lado sem assustar ninguém. Por isso, os seus passeios no Reino das Fadas eram tão tranquilos. Com a sua aparência anterior, teriam fugido e ele seria expulso.

O Reino das Fadas era maravilhoso, tinha paisagens que lhe faziam lembrar a floresta onde vivera. Por vezes, tinha saudades de passear entre as árvores e de cumprimentar os animais. Também sentia falta da sua gruta. Aquela estadia era boa, mas queria voltar para casa.

Então, um dia, resolveu ir ao laboratório. Ia pedir a Orion para o levar de volta já não se importava de ser um rapaz só queria voltar para a floresta. Desceu as escadas apressadamente até chegar á porta do laboratório. Ia bater á porta, mas ouviu as vozes de Orion e Merlim do outro lado. Encostou a cabeça para ouvir melhor.

– Este também não está a funcionar!- Protestava Orion.-Assim, nunca vou conseguir!-

Merlim tentava acalmá-la:

– Vá lá, não estejas assim! Vais ver que vamos conseguir!-

Orion parecia furiosa:

– Mas porque é que fui criar o feitiço! Era para o transformar numa fada, não num humano!-

Começou a chorar. Merlim consolou-a:

– Então, não chores! Vai tudo correr bem!-

Orion olhou-o com os olhos húmidos:

– Eu só queria que ele fosse aceite aqui! O amor entre uma fada e um ogre é impossível por isso, lancei o feitiço para que ele também fosse uma fada, mas correu mal e agora não consigo uma solução!-

Abraçou-se a Merlim a chorar.

Depois de ouvir aquilo, Knut ficou em choque. A sua melhor amiga tinha-lhe mentido. Sem olhar para trás e com as lágrimas a correrem-lhe pela cara, começou a correr o mais depressa que conseguiu.

Demorou três dias, mas finalmente regressou à floresta. Entrou na gruta e nunca mais saiu. O desgosto era grande demais. Não comia, não dormia, nada. As palavras de Orion ecoavam na sua mente como farpas. Como é que fora capaz? Era imperdoável!

Um dia, depois de tanto chorar, acabou por adormecer. Um bater na janela fê-lo despertar. Abriu os olhos devagar. Uma silhueta pequena batia impacientemente no vidro. Era Orion.

– Knut!- Chamou. – Knut, vá lá! Deixa-me explicar!- Implorou.

Ele virou-se para a parede. Ela insistiu:

– Vá lá, abre! Não me obrigues a usar a magia para entrar à força!-

Não teve outro remédio senão levantar-se e abrir a janela. Ela entrou. Ele voltou a deitar-se na cama virado para a parede. Orion começou a falar:

– Desculpa.- Começou – Desculpa mesmo. Fui muito egoísta, não pensei nos teus sentimentos.- Começou a soluçar – Não queria que nada dito acontecesse. Quero voltar a ser tua amiga, mas se isso não for possível, vou-me embora e nunca mais volto.- Virou-se para a janela e preparava-se para ir embora, quando uma voz a fez hesitar:

– Não.- Era Knut. Estava de pé com um ar suplicante. – Não quero que te vás embora.- Avançou até ela. – Por favor, fica. Preciso de ti ao meu lado. Só tu me compreendes quando estou triste. Quando algum animal tem um problema mais complicado, tu estás lá para ajudar. Além disso…- Hesitou antes de falar. Corou quando a olhou nos olhos. Ela também. Acabou por dizer:

– Também gosto muito de ti. Desde a primeira vez que te vi a dançar no meio das flores. Eu amo-te, Orion.-

Ela ia responder, mas Knut deu-lhe um pequeno beijo com a ponta dos seus lábios nos dela. Então, uma luz rodeou Orion. Era tão brilhante que Knut teve de tapar os olhos. Quando os destapou, depois da luz se dissipar, viu uma rapariga humana, tal como ele, que lhe sorriu. O amor fê-la transformar-se. Abraçaram-se e beijaram-se novamente.

Passados poucos dias, a floresta encheu-se de luz, cor e alegria para celebrar o casamento. Todos os animais foram convidados, bem como as fadas do Reino das Fadas.

E, a partir desse dia, viveram felizes para sempre.