Leituras

Os dias do nosso confinamento

por Isabella Voltinhas

Tinha passado um par de anos desde o fim Grande Confinamento quando a reencontrou. Viu-os pelo canto do olho, os contornos da pessoa com quem habitou. Continuou a falar com o marido da amiga, como se nada fosse, mas já não conseguia concentrar-se. As palavras saíam-lhe da boca, rígidas e pouco naturais. Acompanhar o seu interlocutor não exigia particular brilho ou articulação. Uma sorte. Teve medo de ser descoberto, que os amigos se apercebessem que pensava nela e que ela o descobrisse a vigiá-la, como um deplorável peeping tom. Disfarçou, tirando outra bebida da bandeja que flutuava entre a massa de corpos dançantes. Desejou ainda fumar. O cigarro, a perfeita companhia silenciosa. Mas também isso tinha deixado de fazer durante o Grande Confinamento. Tinha deixado tantas coisas no Grande Confinamento. Tinha-a deixado.

Apercebeu-se que o seu olhar viajava novamente. Procurava-a, com medo que os olhos de ambos se encontrassem. Medo. Ou o outro nome da sua inércia. Não devia censurar-se tanto. A inércia valeu-lhe durante a pandemia. Viu-a num canto, rodeada de muita gente.

As festas de fim de ano tinham esta tendência, a de ressuscitar o espírito dos natais passados. Os mais arrojados tendiam a encontrar o espírito dos natais futuros. Mas à medida que avançava na vida, notava que o arrojo se afundava com a testosterona. Era, portanto, bem mais fácil evitar tentações e manter a moralidade, como tinha visto numa série qualquer. Umas das inúmeras a que a assistiram, sentados no sofá cujo assento, decorrido um mês de clausura, já havia memorizado as formas de ambos. Ela gostava mais de documentários. Mas cedia. Ela era assim. Pelo menos tinha sido assim. Fácil como as águas taoístas, fluída, contornando a dureza das rochas no seu caminho.

Distraído, passou a mão pelo cabelo, ajeitou a lapela do casaco e a gravata. No gesto, surpreendeu uma memória dela. Silenciosa, olhos nos seus, desfazendo-lhe o nó da gravata feito numa dessas manhãs mais angustiantes em que saía para o trabalho com medo de ser apanhado pelo vírus.

Era assim. Foi assim. Agora não sabia como seria. Silenciosa. Quantas vezes tinha querido quebrar aquele silêncio, adivinhar-lhe os pensamentos. Nunca tinha conseguido e a impotência frustrava-o. Devia ter admirado essa capacidade de abstracção, de alheamento, essa auto-suficiência. Devia ter amado a surpresa que os seus comentários a propósito de assuntos banais muitas vezes lhe causavam. Talvez tivesse sido egoísta, não conseguia aceitar que ela tivesse algo só seu, onde não tinha espaço apesar de terem partilhado durante tantos meses um apartamento minúsculo. Entre eles não existia a higiene do distanciamento social, mas foi nesse tempo que começou o outro distanciamento.

Nem sempre tinha sido assim. Quando a conheceu aquele silêncio cativou-o, contrastava com o seu próprio carácter ruidoso. Era um bom remédio para um fala-barato. E combinava com o rosto grave dela e os lábios finos, mas bem desenhados, de quem apenas diz coisas sérias. Ela parecia-lhe, naquela época, misteriosa, como se a delicadeza dos seus sentimentos não fosse suportada pela crueza das palavras. Era o reconhecimento inequívoco da insuficiência da linguagem falada para exprimir as alegrias e inquietações da sua existência.

Olhou novamente à sua volta e voltou a encontrá-la, agora no meio de gente, conversando com um e outro, no centro da festa. Sempre tinha tido um dom. Falava pouco, mas quando o fazia criava no seu interlocutor a ilusão de que só ambos existiam, o sentimento de que nada era mais importante do que dizia e que ela, diligentemente, ouvia.

Tentou lembrar-se do momento em que o silêncio passou a incomodá-lo ao ponto de se tornar insuportável. O ponto em que o remédio começou a amargar. Tudo isso aconteceu durante o Grande Confinamento, disso não duvidava.

Tinham tido a vantagem burguesa de poderem estar confinados e trabalhar a partir de casa. Não eram médicos, enfermeiros, auxiliares, operadores de caixa de supermercado, repositores, motoristas de transportes públicos, operacionais de limpeza. Não eram heróis na linha da frente, como diziam os confinados na altura, convencendo-se a si próprios que navegávamos todos no mesmo barco. Era mais apaziguador fazê-los heróis, romantizar a coisa, do que reconhecer a necessidade de quem, à excepção dos médicos, estava exposto. A linha da frente era só mais uma manifestação da desigualdade. O vírus não escolhia, mas havia quem fosse mais fácil de apanhar.

Nos dias iniciais partilhavam a incerteza do tempo em que viviam. Seguiam avidamente as notícias sobre a evolução da doença. Quantos infectados, quantos mortos, quantos recuperados; quanto tempo resiste o vírus em cada superfície e como o eliminar; usar máscara, não usar máscara, como usar máscara; usar luvas, não usar luvas, como tirá-las. A mesma litania dia após dia, dia após dia. Cumpriam escrupulosamente as instruções das autoridades de saúde, saíam apenas do apartamento para ir às compras de supermercado e de farmácia, desinfectando-se antes, depois e durante, de estado de emergência em estado de emergência. Faziam exercício físico em casa para não ficarem trôpegos quando aquilo acabasse embora, nos momentos de desesperança, tivessem dúvidas se acabaria. Faziam pão, faziam bolos, liam, arrumavam, voltavam a arrumar. O sexo era raro, mas era bom. Memento mori.

Esperaram o pico de contágio, que afinal não era um pico era um planalto. Estavam no túnel e não viam a luz no fim dele. A metáfora gastou-se de tanto uso e já o cansava. Depois veio a Páscoa, o 25 de Abril, o 1.º de Maio, o 10 de Junho, sem celebrações. Depois os Santos Populares sem marchas e sem balões. O Verão sem banhos de mar, biquínis ou calções. A segunda vaga, a queda do PIB, o desemprego, a crise. Portavam-se bem, pois queriam que tudo acabasse depressa, mas não acabava.

Os dias sucediam-se mais ou menos iguais. Ele ia definhando e ela ia desabrochando. Assim lhe parecia. Que ela se tinha habituado àquele simulacro de vida. Mais, que encontrava prazer nele. Corroía-o pensar nisso, mas não conseguia fazer-lhe perguntas porque não queria ouvir as respostas. A verdade, no meio de uma pandemia, tornava-se inconveniente. Por isso tentava interpretar os silêncios dela, cada vez mais longos, enquanto ela se ocupava a ler, escrever, pintar, afastando-se dele para dentro de si própria. E ia concluindo, dia após dia, que o silêncio era uma forma de dizer-lhe que estava a mais, não precisava dele e ele estorvava-a. Que a angústia que manifestava por não abraçar familiares e amigos não eram importantes para ela.

Olhando de novo para ela naquela festa tentou, outra vez, ser mais generoso consigo próprio. Se não a confrontou não foi só por cobardia, por medo de passar sozinho o Grande Confinamento. Foi também por delicadeza, por não querer forçá-la a falar de coisas das quais ela não quereria falar. Não queria violentá-la. 

Em vez disso, afastou-se também. Viveram juntos, mas separados até ao fim do Grande Confinamento, e quando tudo acabou o inevitável aconteceu. Cada um seguiu o seu caminho, sem ruído nem alarde, como se esperava dela.

E agora, anos depois, reencontrava-a ali. Alegre e conversadora, a alma da festa. Parecia feliz. Surpreendeu-se pensando se ela teria mudado assim tanto ou se teria sido ele que nunca a conheceu.

Nunca saberia, mas naquele momento enquanto olhava para ela desejou ter sido quem a tinha feito, finalmente, feliz.


(Imagem em destaque: Les amants, Rene Magritte, 1928)