Música

Evocação de Beethoven nos 250 anos sobre o seu nascimento

por João Pedro Baptista

Ludwig van Beethoven é um dos nomes cimeiros da arte musical, um daqueles que é universalmente conhecido e reconhecido, mesmo para além das fronteiras da chamada música clássica.

Quem não conhece os acordes iniciais da sua 5.ª Sinfonia, uma frase composta por três notas breves e idênticas, seguidas por uma longa, comummente identificada como o tema do destino? Quem nunca se deixou mesmerizar pelo onirismo do primeiro andamento da sonata para piano n.º 14, Op. 27 n.º 2, dita “Ao luar”? Haverá alguém que nunca tenha vibrado ao ritmo contagiante do 4.º andamento da Sinfonia n.º 7, aquela a que Richard Wagner haveria de aludir como a apoteose da dança? E, finalmente, alguém não sente uma profunda emoção ao escutar o último andamento da famosa 9.ª Sinfonia, onde a música sublime de Beethoven se une à ode de Friedrich Schiller, An die Freude (“À Alegria”), para criar um dos mais gloriosos temas musicais que a humanidade alguma vez experienciou, estabelecendo pontes entre a arte, a ética e a política (no seu sentido mais nobre, dos assuntos relativos à polis) e apelando à união de todos os seres humanos em torno dos ideais humanistas da fraternidade e do amor mútuo?

Mas, para além destas obras mais icónicas e universalmente conhecidas, o legado musical deixado por Beethoven é de uma importância histórica e artística incomensuráveis.

A circunstância de neste ano se comemorarem os 250 anos sobre a data do seu nascimento serve de pretexto para partilhar com os nossos leitores alguns aspectos deste génio musical e para os convidar a descobrir, ou a redescobrir, uma das suas obras mais marcantes e representativas.

A literatura sobre Beethoven abrange, seguramente, centenas e centenas de biografias, monografias, estudos temáticos das suas obras, estilo musical, relevância histórica e outros aspectos conexos. Mesmo num registo mais sucinto, as revistas da especialidade e a internet fornecem inúmeros recursos para quem queira explorar qualquer uma destas vertentes e para quem queira desvelar o seu universo musical através de gravações áudio.

Nessa medida, torna-se muito difícil escrever algo que não seja mera paráfrase, senão mesmo repetição, do que já foi escrito abundantemente ao longo dos anos e que se mostra amplamente disponível.

É esta a razão pela qual optei por dedicar este texto a uma obra que, não sendo porventura a mais conhecida fora do campo dos ouvintes habituais de música clássica, é representativa da essência da linguagem musical de Beethoven e das suas concepções estéticas e éticas.

Antes, porém, uns breves apontamentos para ajudar a enquadrar esta figura singular.

Ludwig van Beethoven nasceu em Bona a 17 de Dezembro de 1770, de ascendência flamenga pelo lado paterno. Embora proviesse de uma família relativamente abastada, com a morte do seu avô, em 1773, e com a queda do seu pai no alcoolismo, deu-se um declínio progressivo que culminou na quase miséria familiar. Aos 11 anos o jovem Ludwig teve de abandonar a escola e aos 18 era dele que dependia o sustento económico da família.

Os seus dotes musicais foram precocemente notados pelo pai, que o tentou tornar uma criança-prodígio, à semelhança do que Leopold Mozart havia feito com o seu filho; mas foi só na adolescência que a sua carreira musical começou a tomar forma.

Com a ascensão efectiva de Joseph II a Imperador Romano-Germânico, em 1780, e a nomeação do seu irmão Maximilian Franz como arcebispo-eleitor de Colónia, Bona passou de uma pequena e pouco relevante cidade provincial a uma importante capital cultural. Em 1784 Beethoven tornou-se assistente do organista da corte e em 1786 visitou Viena pela primeira vez, onde se pensa que terá conhecido Mozart. Em 1792, Joseph Haydn, então um dos mais importantes compositores do império, de visita a Bona tomou contacto com algumas das composições do jovem Ludwig e convidou-o a estudar consigo em Viena.

Embora a relação com Haydn nunca tenha sido inteiramente pacífica – o temperamento espinhoso de Beethoven tornava difíceis as relações com o mestre e a adesão a um plano de estudos mais convencional – foi com ele que a mudança de Beethoven para Viena se concretizou, o que haveria de mudar radicalmente o curso da sua vida.

Juntamente com Joseph Haydn e Mozart, Beethoven integra aquela que se convencionou chamar a Primeira Escola de Viena, associada ao classicismo musical, caracterizado, sinteticamente, pelo predomínio da clareza, simetria e equilíbrio, em contraste com os excessos do período barroco que o precedeu. Porém, Beethoven surge já numa posição de charneira entre este classicismo tão bem representado por Haydn e o movimento romântico que lhe haveria de suceder.

A sua música nem sempre foi bem compreendida e aceite no seu tempo, dadas as inovações que introduziu, nomeadamente a expansão da extensão e escopo dos estilos musicais tradicionais e a inovação da linguagem que cultivou. Estas inovações, aliadas a um carácter pessoal tempestuoso, por vezes excêntrico e algo misantrópico – acentuadas pela descoberta, em 1789, dos primeiros sintomas da surdez que o haveria de acometer – tornaram-no uma figura respeitada pelo génio, mas tida como intratável.

Na verdade, apesar dessa incompreensão pelos seus contemporâneos – comum a outros compositores, dos quais Mahler constitui exemplo paradigmático – Beethoven era amplamente respeitado, quer pelos seus dotes prodigiosos enquanto intérprete, nomeadamente ao piano, como pela sua fecundidade criativa.

O legado musical de Beethoven é imenso. Emancipou e democratizou a arte dos sons, compondo predominantemente a partir da necessidade espiritual interior e não como forma de exibição dos seus dotes de executante ou em resposta a encomendas. Aliás, a sua relação com os patronos que o foram protegendo foi sempre pautada pela completa liberdade criativa e pela absoluta independência. O patrono não era um patrão, era alguém que, reconhecendo a centelha de génio do criador, se propunha contribuir para o aliviar dos fardos materiais da existência.

Apesar da extensão do legado musical que nos deixou, Beethoven está longe de ter sido um compositor de pena rápida ou fácil. Ao invés, os elementos escritos que nos chegaram mostram como trabalhava o desenvolvimento de cada ideia de forma exaustiva, desde a sua génese ancorada nos princípios musicais mais básicos até à elaboração final. Nada surge na sua obra por acaso, nada é resultado da procura do efeito fácil no ouvinte ou do convencionalismo estéril das formas musicais consagradas.

Pelo contrário, a sua mestria afirmou-se através da elevação da música orquestral a um patamar de importância equivalente, ou mesmo superior, àquele que a música vocal havia tido até então. As inovações que introduziu nos domínios das estruturas musicais e da relação de tonalidades, constitui a base sobre a qual operou uma autêntica revolução do modo de abordar a forma-sonata, libertando-a de uma pura esquematização formalista e repetitiva. E essa transformação é particularmente visível no género da sinfonia. Para além de as sinfonias de maior maturidade de Beethoven terem uma extensão sensivelmente superior às dos seus antecessores e contemporâneos – veja-se que a 3.ª Sinfonia normalmente ocupa cerca de 50 a 55 minutos, a 6.ª cerca de 40 a 45 minutos e a 9.ª cerca de 70 a 75 minutos (uma curiosidade: a duração do compact-disc foi inicialmente determinada de forma a permitir a gravação integral da 9.ª Sinfonia de Beethoven), ao passo que as sinfonias finais de Haydn não ultrapassam os 25 a 30 minutos de duração, e mesmo a Sinfonia n.º 41 “Júpiter”, de Mozart, a sua última e porventura a mais inovadora e complexa, não ultrapassa normalmente os 35 minutos –, ele aumentou os efectivos orquestrais exigidos, modificou as texturas musicais e o papel dos diversos instrumentos da orquestra, modificou a coda (secção final de um andamento, que o encerra), fazendo-a passar de uma mera conclusão e peroração formal a um esplendor climático e emocional, muitas vezes com desenvolvimento adicional do material temático; transformou o estilizado minuete (dança de ritmo ternário, de origem rústica mas refinada como dança de corte de índole graciosa), normalmente presente no terceiro andamento, num tempestuoso e exaltante scherzo (literalmente brincadeira, andamento pontuado normalmente por ritmo ¾ mas de índole mais dinâmica).

Mas, acima de tudo e para além destas alterações formais, o que se nota imediatamente ao ouvir Beethoven de maturidade, é a radical mudança do carácter da música. Esta não é mais apenas uma “arte dos belos sons”, que busca o equilíbrio, a graciosidade, a perfeição formal. Pelo contrário, ela torna-se mais visceral, impetuosa, liberta-se dos espartilhos formais e emocionais, busca uma intensidade dramática e uma exaltação pioneiras e que, por isso, muitas vezes foram tidas pelos seus contemporâneos como excessivas, mesmo de mau gosto.

Creio que todas estas marcas se podem encontrar, de forma bem evidente, na Sinfonia n.º 3, em mi bemol maior, Op. 55, normalmente denominada de “Heróica”, que marca essa mudança na natureza do género sinfonia.

É esta a obra que gostaria de convidar os caros leitores a redescobrir e sobre a qual incidirá a segunda parte deste texto.


(A segunda parte do presente artigo será publicada no próximo dia 22 de Maio de 2020