No radar

Deus Existe, O Seu Nome é Petrunya

por Filipa Gonçalves

Petrunya despe-se perante a mãe e diz-lhe: “Mãe, olha para mim. Eu saí da tua vagina. Achas que sou feia?”. Tem 32 anos de idade, mora com os pais, na pequena cidade de Stip, na Macedónia. É considerada gorda, feia, mal apresentada e está desempregada apesar da sua licenciatura em história. Não manifesta apreço por religião e defende a integração dos ideais comunistas nas estruturas democráticas.

No regresso a casa, depois de mais uma entrevista de emprego fracassada, desta vez numa fábrica de têxteis e durante a qual lhe é dito que “nem para uma queca” servia, Petrunya testemunha uma cerimónia religiosa que ocorre na Epifania, celebrada no dia 19 de Janeiro de cada ano por todo o país. Nela, o sumo sacerdote atira uma cruz às águas de um rio enquanto dezenas de homens nadam e competem para apanhá-la. O vencedor será abençoado com um ano de sorte e prosperidade.

Irreflectidamente, Petrunya salta para a água com os homens e apanha a cruz. É imediatamente atacada pelos homens, que lhe arrancam a cruz das mãos pois, como mulher, ela não tem o direito de participar. Instalada a confusão, Petrunya consegue fugir com a cruz.

Nas horas subsequentes, Petrunya torna-se assunto noticioso, é levada para uma esquadra de polícia, apesar de não ter cometido qualquer crime, onde lhe é feito sentir o peso dos seus actos pelo patriarcado, aqui representado por padre, inspector-chefe, policias e pela turba em fúria à sua espera no exterior. É arrastada por salas e corredores e interpelada, durante toda a noite, por polícias e pelo padre, que tentam, sem êxito, convencê-la a abdicar da cruz. Apenas uma pessoa – uma outra mulher – a jornalista que cobre o evento, saturada do machismo evidenciado no alarde causado pelo inusitado acontecimento, incentiva Petrunya a ter coragem.

Inspirada por um evento verídico, a realizadora e guionista macedónia Teona Struga Mitevska tece neste filme um olhar crítico sobre uma sociedade cheia de estereótipos, com um sistema social e de justiça em crise.

Para isso, fala pela boca de Petrunya, uma protagonista interpretada de forma carismática por Zorica Nusheva.

Os diálogos vivos que a personagem mantém com a mãe, o padre e polícias, tratam as questões da emancipação feminina, da igualdade de géneros e da separação entre Igreja e Estado, enquanto Petrunya se agarra à cruz, assim insistindo em ver reconhecido o valor individual que lhe é negado.

“Deus Existe, O Seu Nome é Petrunya” foi vencedor do Prémio do Júri Ecuménico no 69Festival Internacional de Cinema de Berlim– BERLINALE 2019, e apesar das criticas de algum “acúmulo de camadas”, impeditivo que “conheçamos a personagem senão pela enunciação das suas tristezas”, merece ser visto pois, para além de uma protagonista que transcende o próprio filme, tem o mérito de ser um manifesto feminista fresco e original.

Poderá vê-lo gratuitamente até dia 22 de Maio, em estreia absoluta em Portugal, na plataforma Filmin.