Sociedade

A palavra dos outros. Bibliofilia.

por Paulo Maia e Silva

Uma montanha de livros… um conjunto interminável de obras interessantes (umas mais interessantes do que outras, é um facto), e sempre tão pouco tempo e disposição para ler todos os livros que compramos (que eu compro, melhor escrevendo!). Certo, é uma atenuante ter certa vez ouvido o Embaixador Francisco Seixas da Costa dizer que o melhor num livro é comprá-lo; é difícil esquecer-me desta afirmação, que tanto jeito me dá perante a impossibilidade de ler tudo o que tenho comprado! Mas o Embaixador Seixas da Costa lê (muito), para além de escrever (muito)!

Os diversos países, onde tenho sido colocado, têm-me permitido dar azo a esse gosto. Incluindo no meu primeiro posto, a insuspeita capital congolesa da República Democrática do Congo, Kinshasa. Até aí, onde havia poucos livros, consegui apetrechar-me, dado que muitas pessoas que eu conhecia me traziam livros de Lisboa, França, Estados Unidos, Bélgica. Naturalmente, Londres, a Cidade do México (uma verdadeira surpresa, principalmente para quem vinha de Londres), Pequim (onde os correios, carregados de livros de França, nunca falharam), Timor (a maravilha que foi para mim a existência de uma delegação da Fundação Oriente!) e Zurique (e toda a Suíça), muito terão contribuído para enriquecer a minha coleção de livros.

Ainda que procure alimentar gostos ecléticos (os quais, a maior parte das vezes se confundem com uma reconhecida dispersão), tenho colecionado obras, ligadas à literatura, à diplomacia (nomeadamente, a história diplomática, os documentos e arquivos diplomáticos, sem esquecer as memórias de diplomatas), à história (sobretudo os Descobrimentos), às relações internacionais, às artes. Os meus gostos concentram-se em livros escritos em português, francês e inglês, mas também incluem diversos episódios da história do México (entre outros), bem como os documentos diplomáticos, recolhidos pelas embaixadas do segundo Reich nas capitais europeias, entre 1871 e 1914 (são 51 volumes…escritos em alemão… antigo!).

Contudo, e por nem sempre me considerar uma pessoa que se contenta com pouco no mundo da bibliofilia, os meus desejos nesta área também abrangem primeiras edições, edições raras e antigas. No que concerne a estas duas últimas categorias, não são livros para ler! Na melhor das hipóteses, folheiam-se com o maior dos cuidados (em que o uso de luvas é obrigatório!), dado tratarem-se de obras únicas.

Um dos livros que mais acarinho tem uma história peculiar, pois consegui obtê-lo, a duras penas, através da internet. Concretamente, foi através do site “ebay.fr“. Uma obra rara, que estava a ser leiloada…na Europa, estando eu…em Pequim! Assim sendo, consegui adquiri-la às 3 da manhã, hora chinesa! Na noite de segunda para terça-feira! Escusado será referir que trabalhava no dia seguinte!

Uma palavra, naturalmente, para a arte de encadernar livros, pois trata-se igualmente de um ramo indissociável de um bibliófilo. Uma arte em vias de extinção, diga-se em abono da verdade, mas que faz as delícias de quem trata os livros com o respeito que merecem. Nesse domínio, tive a sorte de conhecer na Cidade do México o número dois da Embaixada de França. O Emmanuel Mignot, com quem ia à “caça aos livros” uma vez por mês, apresentou-me um belíssimo encadernador. Em termos culturais, foi uma das melhores recordações do México! Foi o único alfarrabista junto de quem decidi encadernar uma série de livros “enfermos”. Tratava-se de uma equipa de quatro pessoas que trabalhavam num pequeno espaço, repleto de tecidos de cores vivas, cores essas que me permitiram rechear um número interessante de lombadas”.


Paulo Maia e Silva tem 48 anos. Entrou para a carreira diplomática em 1998. No Ministério dos Negócios Estrangeiros, esteve em diversas Direções, entre as quais a Comissão de Limites e Bacias Hidrográficas entre Portugal e Espanha, na Cifra, no Protocolo de Estado, na Direção de Serviços da Ásia e Oceânia. Desempenhou igualmente funções na Direção Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas. Esteve colocado em Kinshasa, Londres, México, Pequim, Díli. Atualmente, é Cônsul-Geral em Zurique.


Imagem em destaque: Stiftsbibliothek St. Gallen