Leituras

Signore & Signori

por Tess Eichenwald

Endireita-te. Ombros para trás. Sabes que gosto que andes com as costas direitas, senão pareces mais baixo. É curioso o modo como eu ainda me preocupo contigo, depois de tudo. Não sei ao certo se sinto raiva, se estou zangada, ou apenas calma e com necessidade de te perdoar. Mas sinto pena de ti. E não queria.

A minha visão está amplificada. E olhando do lugar onde me encontro tudo é muito mais visível. Tem-se mais atenção ao pormenor. Vejo tudo. E tu estás com muito mau aspecto, meu amor. Estás com um ar desgraçado, desleixado. Envelheceste imenso. Até pareces mais pequenino. Sei agora, tal como sabia já, que sem mim não és praticamente nada. Ficas anulado. E dói ter consciência disso. A tua alma abandonou o teu corpo muito antes da minha partida. Parte-me o coração estar aqui sentada ao teu lado, murmurar palavras de apaziguamento, acariciar-te o rosto e o cabelo, como costumava fazer, e saber que não te consigo tocar. E tu não me podes ver, sentir, nem ouvir. Existimos em dimensões diferentes, meu querido. E não fui eu que escolhi isto.

Meu doce. Roubaste-nos a vida a ambos.

Lembras-te de como nos conhecemos? Parecia uma cena de filme romântico de domingo à tarde. Meio piroso, mas muito agradável de recordar. Lembro-me do momento exacto em que me viste pela primeira vez. Eu ali sentada no meio do público, a beber margaritas com os meus amigos e a ver o teu espectáculo, sempre a pensar «olha para mim, olha mim». E assim que olhaste para mim percebi que houve aquele clique. Já estava e não havia como reverter. Sim, também era fácil dar-se por mim, convenhamos. Cabelo acobreado cheio de caracóis, só eu sei o trabalho que ele sempre me deu, olhos verdes bem grandes, pestanas postiças bem chamativas, sardas, covinha no queixo e aquele sorriso que te dava a volta. A ti e a quem olhasse para mim. Uma pequena fortuna gasta num super branqueamento dentário, mesmo à anúncio de pasta de dentes, como os meus amigos diziam e o indispensável gloss vermelho com sabor a morango. E o meu ar tímido, lembras-te?

A verdade é que lá consegui que me chamasses ao palco só para ficar lá especada a olhar para ti enquanto fazias um truque bem fraquinho de ilusionismo. Tornava-se giro só por ser tão previsível e antigo. Tiraste um coelho da cartola e passaste-mo para as mãos. Em surdina disseste que eu também era uma bela coelhinha. Achei tão grosseiro, mas senti que estavas nervosíssimo e estava tão vidrada em ti que, apesar do choque inicial, tive um ataque de riso. Senti-me derreter à medida que nos ríamos os dois. Às tantas já o público ria sem perceber o que tu estavas a dizer. Eras malandro, não tinhas papas na língua, eras bonito e tinhas bastante potencial. Precisavas era de rumo e de quem puxasse por ti. E eu sabia que te podia ajudar com isso.

Sim, eu sempre sonhei com as luzes da ribalta. E deixei o emprego de manicure para me juntar a ti e lutar pelo teu e pelo nosso sucesso. A nossa relação evoluiu a uma velocidade inesperadamente rápida. E depois de casarmos tornámo-nos imparáveis, invencíveis. Parecia que não tínhamos obstáculos no nosso caminho. Tu eras o melhor ilusionista da cidade e eu era a melhor assistente que podias ter. Até arranjámos nomes artísticos. Como tu era James e eu Joanna, tu rebaptizaste-nos. Passaste a ser o Mr. Mistoffellees – como a personagem do livro do T. S. Elliot e do musical Cats de Andrew Lloyd Webber – e eu era a tua assistente italiana, Valentina. A ideia surgiu depois de me teres levado a ver o musical em Londres. Durante os teus espectáculos, para intensificar o meu papel e as pessoas acharem mesmo que eu era italiana, falava sempre com sotaque. Quase como se cantasse as palavras. No fim eu acenava e dizia «arrivederci!» ao público, sempre com o meu sorriso sedutor e contagiante. Isto tudo com um bambolear de anca. Sim, eu era uma rapariga cheia de recursos e passava horas a treinar as poses e os melhores ângulos. Horas em frente ao espelho e tu sempre achaste piada a isso. Então porque é que aos poucos tudo começou a parecer diferente? A tua desconfiança, o teu ciúme, envenenaram gradualmente a nossa relação. Lá no fundo eu sabia que te ultrapassava e que, à medida que o tempo ia passando, a minha presença enchia mais a sala do que a tua. O público aplaudia de pé mas era para mim. Tu, embora não o admitisses, tinhas perfeita consciência disso. O público masculino, que pouco ou nada sabia de italiano, lá gritava «ti amo, bella Valentina!». Agora percebo o quanto isso te corroía, te queimava, te matava.

Lá bem no fundo sentias que me estavas a perder, como a areia seca, quando a tentas segurar com as mãos. Era aquele efeito ampulheta. Vias os outros homens de olhar fixo em mim, quase sem reparar que os teus truques de magia eram obsoletos. O aparato em torno dos truques era quase tudo. Mas sejamos sinceros. O ilusionismo em si era um pouco básico. A atração principal era eu. Eu, a minha maquilhagem perfeita, as minhas unhas sempre impecavelmente arranjadas e o meu corpo perfeito com as meias de rede e o look burlesco, que me assentava na perfeição.

A ideia de me perderes era insuportável para o teu coração fraco. E presumires que isso ia acontecer era simplesmente ridículo. Quer acredites, quer não, nunca pensei deixar-te. Era mesmo contigo que eu queria ficar. O que é que aconteceu? Quebrei-te o coração ou o ego? Tinhas medo que eu revelasse os teus truques? Nem isso me passou pela cabeça. Aliás, querido, vamos ser honestos. Quem é que ia querer saber?

Agora faz sentido e compreendo finalmente porque é que estavas tão calado na noite anterior ao último espectáculo. Não murmuraste uma palavra. Praticamente não comeste nada antes de te ires deitar. Afiaste a serra com o olhar mais vazio que eu já te tinha visto. Quando te perguntei se íamos fazer o número em que me ias cortar ao meio, respondeste que talvez. Que ainda não sabias, mas que te apetecia experimentar algo novo. E saíste da sala. Algo não estava bem. Não era suposto eu saber de antemão tudo o que íamos fazer durante os nossos espectáculos? Como é que era suposto correr bem assim? Agora guardávamos segredos um do outro? Os segredos não são uma boa ideia e podem correr muito mal, principalmente se envolverem uma serra afiada.

Estava tudo a postos para sábado à noite. Tu estavas tão calado como na noite anterior e isso começava a inquietar-me. Não reparaste no meu corpete novo. Se reparaste também não fizeste nenhum reparo. Era um corpete de cetim branco que acentuava bastante a cintura. Corpete branco, sapatos vermelhos, lábios vermelhos e unhas vermelhas.

Começou tudo normalmente, com o mesmo discurso ensaiado, apesar de eu sentir que algo que não estava bem. Não mantinhas contacto visual comigo. Só quando disseste que íamos fazer o «Goldin’s sawing» mas com uma ligeira alteração. Isso deixou-me quase em pânico. Uma alteração? Mas não tínhamos ensaiado nada. Se envolve uma serra creio que nos devíamos ter preparado.

E aí é que eu reparei. Os teus olhos estavam vazios. Vazios de amor, vazios de emoção. Exactamente como na noite anterior. Senti o meu coração acelerar, comecei a ouvi-lo cada vez melhor. Deixei de ouvir o público e a música de fundo que escolhemos os dois. Era uma música que criava suspense. Senti o meu corpo gelar quando me mandaste deitar. A seguir disseste que eu não precisava de dobrar as pernas. Eu não disse nada, obedeci. Estava apavorada mas sorri. Foi esse sorriso o nosso adeus. Olhámos um para o outro. Eu aceitei. Ainda não percebo porquê.

Esperei esse momento. Olhei fixamente para a serra à medida que se aproximava da caixa que ias serrar. Eu tinha apenas a cabeça e as pernas de fora. Começaste a serrar a caixa e a serrar-me. À medida que me cortavas, sentias nas papilas gustativas a mistura salgada das tuas lágrimas juntamente com o sabor férreo do meu sangue vermelho-vivo. Era tão diferente dos beijos com sabor a morango a que estavas habituado. Cortaste-me exactamente ao meio. Cortaste-me pelo umbigo. Dividiste-me em duas partes.

Depois dos meus gritos iniciais em que senti a dor excruciante, fiquei calma. Estranhamente calma. Via tudo o que se estava passar e recordava-me dos nossos bons momentos em que caminhávamos de mão dada. Como se fosse domingo e víssemos televisão juntos. O público gritava em pânico e terror. Mas a mim parecia que toda esta carnificina estava a acontecer em câmara lenta.

Cortaste-me centímetro a centímetro, expondo-me completamente, quebrando-me, porque de alguma forma eu tinha quebrado o teu ego, mais ainda do que o teu coração. Pode soar estranho, mas a ideia de estar feia enquanto tudo isto acontecia assustou-me. Eu era uma artista. Tinha uma personagem, Valentina, e de repente tive a sensação de me estar a desviar do guião. Não seria irónico alguém querer parar aquilo tudo e dizer «corta»?

Não seria necessário sequer. O espectáculo tinha terminado. Arrivederci!