No radar

A Herdade – versão televisiva

por Fernando M.

O cinema português vive uma fase extraordinária de aclamação de crítica e público.

A título de exemplo recordo o filme biográfico “Variações” que foi um dos dez filmes mais vistos nas salas de cinema nacionais em 2019, sendo que “A Herdade” foi distinguido com o Prémio Bisato d’Oro para Melhor Realização, atribuído por um júri da crítica independente, presente no 76.º Festival de Cinema de Veneza.

É a reconciliação do público português com o seu idioma, as suas histórias e os seus artistas, bem como simultaneamente o reconhecimento pelos entendidos que em Portugal há outros cineastas além de Oliveira, que são dignos de nota e atenção.

A partir de uma ideia do produtor Paulo Branco, “A Herdade” é o fruto do labor artístico conjunto do realizador Tiago Guedes e do argumentista/escritor Rui Cardoso Martins.

“A Herdade” não é um, mas dois objetos artísticos distintos: um filme e uma minissérie de quatro episódios que estreou na RTP e chegará depois à HBO Portugal, ficando disponível no catálogo da plataforma de streaming a partir do próximo dia 26 de maio.

Não vi o filme. Cheguei tarde!

Contudo, por reconhecer no trailer o tipo de narrativa que me atrai – profundamente humana – aguardei pela estreia da minissérie, que não desiludiu.

No início a imagem de um homem dependurado de um sobreiro. Uma criança obrigada a confrontar-se com a morte autoinfligida. A morte de um irmão.

Anos volvidos. “É um puro-sangue lusitano.” O Senhor do domínio ou o seu cavalo? Uma espécie de senhor feudal: João Fernandes, o protagonista. Um Esteban Trueba ao sul do Tejo.

14 mil hectares de terra e um monte. Uma casa senhorial debruada a azul. O choro das crianças ecoa por toda a casa. A GNR submissa. A criada Rosa para todo o servir. O feitor Joaquim, casado com Rosa. Um padre papudo, que se senta à mesa e celebra os ritos na capela do monte.

A Senhora D. Leonor, de boas famílias. Encarregue de assegurar a estirpe. A Rosa, que se deita com o patrão, respeita muito a Senhora D. Leonor.

A exigente PIDE. Ministros que demandam favores.

A revolução. Comunistas idealistas que sonham com o fim do patronato. A revolução de Abril que chega e traz um nado morto. O passar a palavra aos trabalhadores. A reforma agrária. Os direitos dos trabalhadores. A terra é de quem a trabalha. Acabar com as esmolas.

Os sogros – um general da PIDE e sua ditosa mulher – que se escondem na Herdade. Um homem do regime acossado. Escondido, em fuga. Vão nacionalizar tudo. Vão roubar tudo. Eles ouvem tudo. Há sempre alguém à espreita, estamos sempre com medo.

Eu não vou a lado nenhum. Não vou fugir como um rato e os meus filhos vão ficar aqui. Eles ficam.

Ninguém controla nada. É um governo de doidos.

Estas terras são minhas e serão dos meus filhos.

Camaradas que discutem. Querem trabalho, mas aqui não há nada.

A dicotomia entre trabalhar de sol a sol, na terra dura, e enriquecer o Senhor.

Rosa e Joaquim batizam o seu filho: António. O padrinho João Fernandes. O pai João Fernandes. Orgulhoso do filho ilegítimo que batizou à frente da mulher traída e retraída.

O Senhor do domínio que se serve de tudo e de todos a seu bel-prazer. Um exibicionista do seu poder.

A passagem do tempo. As cãs na fronte do protagonista.

O filho legítimo Miguel – enjeitado – que se comporta aquém da sua posição social, evidenciando o desprezo a que sempre foi votado. Violento. Descontrolado. Destruidor. Descompensado pelo álcool, pela tristeza, pelo desdém.

O feitor Joaquim descontente com o filho enfornado na casa dos patrões, com a filha destes – a menina Teresa. (…)

É no mistério das reticências que escondo os spoilers do desfecho da história.

“A Herdade” é um monumento cinematográfico feito série. A saga de um homem importante – um latifundiário – que simultaneamente narra a história de Portugal do século XX. Um homem e a sua circunstância.

Tiago Guedes, com a mestria que só a experiência traz, imprimiu simplicidade nas suas escolhas, que expõem a humanidade da história. Os planos largos de um campo a perder de vista. Os planos apertados no rosto tenso dos protagonistas. É cinema enclausurado no formato televisivo.

O ritmo distendido é conducente com o vagar dos homens à torreira do sol. Há uma portugalidade exposta em cada cena, em cada plano. Os cenários escolhidos a par dos figurinos irrepreensíveis transportam-nos para as épocas e situações que se pretende retratar. Não se tratando de uma obra de cariz documental, certo é que há um cuidado com o pormenor que evidencia qualidade.

O argumento é sólido, sem narrativas despiciendas. Destaco os diálogos primorosos, reveladores de um acerto semântico que, sem comprometer a naturalidade da cena, não banaliza as palavras. As palavras têm força!

O elenco compreende o melhor da arte de representar lusitana. Victória Guerra, Filipe Vargas, Diogo Dória, Ana Bustorff, Teresa Madruga, Cândido Ferreira e Miguel Borges são alguns dos ótimos atores que enchem o ecrã, conferindo credibilidade às personagens diversas que encarnam.

Mas o filme/série – aliás, como não poderia deixar de ser! – vive da força dos seus protagonistas.

Albano Jerónimo há muito que deixou de ser uma promessa do teatro português, para ser reconhecido por todos como um dos melhores atores da sua geração. O ator não desilude na forma enérgica como agarra as personagens e se transforma nelas. João Fernandes não foi exceção. A personagem do latifundiário poderoso extravasa a imagem de galã do ator, revelando uma capacidade de demonstrar densidade psicológica de um homem do campo rude, forte, que não se permite quebrar.

Ao lado de um grande ator encontramos uma grande atriz. O papel da mulher do protagonista – Leonor – foi entregue a Sandra Faleiro, que de forma exímia encontrou uma forma subtil de fazer das fraquezas forças. A sua interpretação é intensa, sem ser tensa. Cada momento cénico revela-se uma oportunidade para a atriz, muitas vezes em silêncio e apenas através do olhar, exibir a fragilidade de uma mulher submissa à força de um homem. Uma fragilidade forte, mérito da sua capacidade de interpretar.

Os quatro episódios que compõem “A Herdade” são o pretexto para reencontrarmos o Portugal que fomos, somos e, penso, nunca deixaremos de ser. Enraizado na terra e a desejar voar.