Leituras

No meio de tanta gente

por Adriana Calado

O despertador tocou irritante pelas 8h00. Espreguiçou-se e respirou fundo. Agora não se podia queixar de falta de tempo para dormir. Quando os miúdos eram pequenos (parecia ontem, mas tinha sido há décadas) acordava pelas 06h00 para os chamar, vestir e dar o pequeno almoço, entre protestos e queixumes. Chegava ao trabalho cansado e o mesmo sucedia com a mulher, de certeza. Naquele tempo, não havia psicólogos, nem gestores de tempo, nem nada destas coisas modernas. Tinham filhos, tinham de tratar deles. E era assim. Simples. Na empresa gastava os dias, a trabalhar, claro. Era uma empresa de transportes que chegou a ter dimensão internacional e que acabou por ir à falência pouco tempo depois de se ter reformado. O trabalho não era difícil. Olhando para trás, era sim, rotineiro. Mas tinha colegas com quem ia almoçar e tomar café, discutiam os assuntos da política e do futebol. E depois, pelas 18h00, era voltar para casa, ajudar os filhos com os trabalhos, limpar a louça do jantar que a mulher tinha feito. Ver uma ou outra série na televisão e assim se gastavam os dias. No Verão, quinze dias de férias na Costa e, quando chegou um tempo de carteira mais farta, em Sesimbra. E uns dias na terra, claro.

Para onde vai a vida que vivemos?

Não sabia. Sabia que os anos tinham passado. Os filhos crescido, estudado, encontrado emprego, avançado para as suas vidas, casado, tido os filhos deles. Não se podia queixar. Ligavam-lhe todos os dias, um dia o rapaz e no outro a rapariga. De vez em quando, um dos netos também telefonava, agora já tinham todos telemóveis. E se ele ligasse e não pudessem atender no momento, a chamada era retornada. Não se podia queixar. Ao contrário do Fernandes, a quem os filhos passavam semanas sem nada dizer ou da D. Maria Antonieta dos jornais, cujo único filho tinha morrido num acidente com trinta e poucos anos. “Está no céu”, dizia ela. Agora, se calhar, até se reencontraram, pois no ano passado, também ela se despedira do mundo dos vivos.

Esse era um problema também. Os amigos, os antigos colegas do trabalho, os conhecidos do café iam morrendo. E não havia ninguém para os substituir.

Não se queixava, note-se. Aos sábados ia sempre almoçar a casa de um dos filhos e passava lá a tarde. Antigamente, quando a mulher era viva, iam de carro. Ela detestava o seu modo seguro (lento, dizia ela) de conduzir e discutiam sempre pelo caminho. Para casa, era ela quem trazia o carro, ele com o coração a bater mais forte a cada curva bem delineada que ela desenhava na estrada, como se fosse piloto de fórmula 1. Agora, era um dos filhos que o vinha buscar. Sugeriu ir de autocarro, mas não acharam seguro. “O pai pode cair e magoar-se”, tinha dito a rapariga. “Ou algum parvalhão meter-se consigo”, disse o filho. Lembrou-se do tempo em que ele tinha tido de decidir se os filhos passavam a ir de autocarro para a escola ou de comboio quando foram estudar para Lisboa. No primeiro dia, ele tinha saído mais cedo do trabalho para os seguir, desde a porta da escola, ao comboio. Tinha-se instalado noutra carruagem e ainda hoje se surpreendia com o modo discreto como tinha levado a cabo a sua missão. O que ele e a mulher tinham rido à noite! Os miúdos nunca descobriram.

Não, não se podia lamentar. Tinha vivido uma vida simples, mas boa. Para onde vai a vida que vivemos?

A casa agora está vazia. No café os amigos já escasseiam. Uns morreram, outros desencorajados pelo frio, ficam por casa, apenas saindo para ir ao supermercado. Os canais de televisão não dão nada de jeito. Os filhos telefonam em dias alternados. Sim, sim, está tudo bem.

O silêncio, o olhar para o espelho e perceber que já não se conta, na verdade. Como é que era a música “um velho sentado num banco de um jardim”. Foi assim que teve a ideia. Interagir mais com as pessoas. Mas como? Não queria ser visto como um emplastro ou um velho carecido de atenção. Irritava-o, por exemplo, a conversa da menina da caixa do supermercado que fala com ele como se o confundisse com uma criança grande. “oh, leva peixinho? Gosta muito do seu peixinho…”. E estava fora de questão ir para a universidade sénior. “Detesto velhos”, tinha dito aos filhos quando lhe propuseram, de novo, a ideia.

Queria voltar a sentir-se voz activa, mostrar que ainda era capaz de ter iniciativas, encontrar soluções, resolver problemas.

A resposta veio-lhe numa ocasião em que caminhava na rua e viu um acidente de viação. Nada de grave, só chapa, os dois condutores falavam entre si com tranquilidade.

Viu aí um sinal. Quando se sentia mais só pegava no carro e fazia-se à estrada. Depois, era só escolher um condutor com ar simpático e dar um pequeno toque no carro dele com o seu. Nada demais. Nunca tinha causado feridos e mesmo os danos materiais eram muito simples. Nem era preciso participar ao seguro, porque ele assumia logo a responsabilidade, lamentando o sucedido. Às vezes, do outro lado, havia uma pequena exasperação, um “porquê eu” nos olhos do condutor escolhido. Mas mesmo essa tensão inicial era rapidamente ultrapassada. Havia uma conversa agradável e nas semanas seguintes telefonemas e troca de informações. Escolher a oficina, ir ao local, formalizar o acordo, às vezes mesmo num café, tomando uma água ou uma cerveja sem álcool. E, não raras vezes uma conversa verdadeira, à antiga, trocando histórias ou confidências. Com os seus oitenta anos de vida tinha tempo para ouvir e experiências para contar, uma palavra ponderada para uns casos e noutros a capacidade de fazer o seu interlocutor relativizar o problema que vivia. Um aperto de mão, um abraço, talvez um beijinho se fosse uma condutora. E as pessoas que ficam. A rapariga que se libertou do namorado abusivo, o rapaz que lhe disse que era homossexual, o homem que queria deixar a mulher para se juntar com a colega de trabalho, a filha que já não aguentava ter de corresponder às expectativas dos pais. Laços inesperados que se tecem.

Espantava-se com a facilidade com que algumas pessoas lhe contavam detalhes das suas vidas. Mas surpreendia-se ainda mais com os dramas vividos sob os rostos impávidos que tinha escolhido no trânsito. Solidões que se encontram e que se deixam povoar cessam de estar sós.