No radar

Desalmadamente

por Raquel Reis

Quando surgiu a oportunidade de colaborar com a Revista, em novembro do ano passado, o objectivo passava por tentar fazer uma espécie de crónica cultural/social sobre espectáculos, concertos, livros, cinema e afins. Confesso que fiquei muito entusiasmada, não só com a possibilidade de partilhar gostos e pensamentos, mas também com o facto de antecipar um ano de 2020 repleto de saídas musicais. Podia abusar de todos os concertos que quisesse, sem problemas de consciência e sempre com a desculpa do trabalho de pesquisa para um novo artigo da Revista. E se havia boa música ao vivo em 2020! Metronomy, Bon Iver, Nick Cave, Michael Kiwanuka e tantos mais…

Mas, chegados a março de 2020, todas as minhas melhores expectativas caíram por terra e todos sabemos de quem é a culpa.

Na segurança do lar, não obstante me considerar uma optimista q.b., choro o passado e sinto saudades até daquilo que não gostava quando tinha liberdade para ir onde queria, com quem queria e quando queria.

Noutro dia, dei por mim a recordar, com uma doce nostalgia, aquelas pessoas teimosas que, nos concertos mais concorridos, teimam em furar até à linha da frente quando não cabe nem mais um alfinete, ou aquele casal de namorados que, tal qual siameses, avançaram destemidos por um mar de gente, num concerto dos Coldplay, de braço dado, até chegar ao seu destino. Sempre juntos e unidos! Ou ainda, aquela mulher doida, que num concerto do Silva, no Capitólio, gritou a plenos pulmões, mais de 50 vezes, “FORA TEMER”! Ou os fãs paranóicos que sabem de cor todas as letras das canções do seu grupo preferido e passam o concerto inteirinho a cantar em Karaoke, com voz de cana rachada.

Confesso que tenho saudades de todos estes maus momentos e sobretudo de ser apenas livre para ir.

Enquanto não dobramos este Cabo Adamastor, deixo aqui algumas dicas e sugestões para manter a mente sã, num corpo que poderá não ser assim tão são quando esta quarentena terminar.

No que toca a livros e porque o isolamento forçado (pelo menos no que me diz respeito) torna o pensamento um pouco mais preguiçoso, aconselho a leitura dos livros de banda desenhada “Persépolis” e “O Árabe do Futuro”. São dois livros autobiográficos que retratam a vida dos respectivos autores, algures no mundo árabe, durante os anos 80. Uma óptima forma de entrar na história do Médio Oriente e compreender, de uma maneira descomplexada, a complexidade das relações e dos conflitos que marcam aquela zona do globo. Para aqueles cuja preguiça mental seja ainda mais grave nesta fase da vida, o livro “Persépolis” tem igualmente versão cinematográfica.

Para acompanhar a leitura de meras bandas desenhadas, proponho “Desalmadamente”, o novo disco da Lena D’ Água.

Para além de pessoalmente me remeter para a viagem de avião até ao Rio de Janeiro (memória especialmente feliz nos tempos que correm), é um disco cheio de canções orelhudas, boa onda, com letras inteligentes e que caem como uma luva na voz e vida da Lena D´Água, em boa hora recuperada do esquecimento público. São músicas leves e despretensiosas para ajudar a ultrapassar dias mais difíceis e solitários.

E se o tempo for curto para a audição integral do disco, façam-me pelo menos o favor de ouvir a canção “Desalmadamente”, ainda que em prisão domiciliária, logo pela fresquinha, e deixem-se também “levar na boa”, como diz a Lena D´Água.

Nota final I: Em alternativa às sugestões que apresentei e caso a vossa personalidade se aproxime mais do espectro pessimista, sempre poderão optar pela leitura do livro “A Peste” de Albert Camus ou pelo filme “Parasitas”. São duas obras primas e vão deixar-vos seguramente bem mais deprimidos do que aquilo que já estão.

Nota final II: Recebi a feliz notícia de que o Rufus Wainwright está a fazer umas “quarentine sessions” através do Instagram. Sempre poderá dar para compensar um pouco a ressaca da falta de concertos ao vivo. Eu vou espreitar!