Sociedade

Lucrécia Bórgia, entre o mito e a verdade histórica

por João Possante

Julgo não me enganar se afirmar que, para a grande maioria das pessoas, a menção do nome Bórgia ilumina na sua galeria de sinónimos, num reflexo quase pavloviano, as palavras luxúria, veneno, homicídio, violência, incesto, e ainda crueldade, nepotismo, falsidade ou heresia, para só nomear as mais lisonjeiras.

Se ao apelido Bórgia adicionarmos o patronímico Lucrécia, somaremos àquelas os epítetos dissoluta, infiel, envenenadora, meretriz, dissimulada, mentirosa ou traidora.

Esta imagem negativa de Lucrécia Bórgia, apesar de mítica, não é fidedigna, adiantamo-lo já, e não retrata com autenticidade a figura histórica revelada pelo rigoroso exame do acervo documental disponível e pela consulta de outras fontes históricas credíveis.

Há, então, que perguntar quais as razões que iludem a nossa percepção e nos conduzem à convocatória, quase mecânica, de tais epítetos.

Se a pergunta incidir sobre o conjunto da família Bórgia, principalmente sobre Rodrigo Bórgia (Papa Alexandre VI) e sobre o seu filho César, respectivamente pai e irmão de Lucrécia, a resposta imediata não é difícil. As suas más reputações correspondem, no essencial, à verdade.

É certo que os numerosos inimigos da família, com Juliano della Rovere (Papa Júlio II) à cabeça, cuidaram de enlamear, e de tentar proscrever para a eternidade, aquele nome maldito, nascido em Xátiva, nas imediações de Valência.

Já no que respeita a Lucrécia, ela não foi vítima da verdade mas sim dos arroubos de Donizetti que a retrata (com excessiva liberdade dramática), na ópera sinónima, como uma envenenadora dos condottieri de seu irmão César; dos devaneios de Victor Hugo que também a descreve não só como envenenadora de condottieri mas, inclusivamente, como assassina de um filho bastardo; e, ainda, da perfídia da pena de Alexandre Dumas, que a martiriza como corruptora e incestuosa.

Não há reputação que resista. É mais um exemplo de que uma mentira repetida mil vezes podendo não se tornar verdade ganha, pelo menos, o valor de um preconceito.

Mas, afinal, quem eram “os Bórgia” e, fundamentalmente, quem foi Lucrécia Bórgia ?

No que respeita às origens da família, apenas podemos, com segurança, afirmar que, pouco depois da conquista de Valência aos mouros, em 1238, Jaime I de Aragão lançou os seus guerreiros à conquista da pequena e não muito distante cidade de Xátiva, tendo, após o fácil sucesso da campanha, partilhado as terras do município pelos seus cavaleiros, entre os quais se encontravam Estebán de Borja (porque oriundo deste burgo situado a cerca de sessenta quilómetros de Saragoça) que nela se fixou.

No século XIV, a fracção da família Borja que não emigrara para Nápoles tinha-se mantido e prosperado numa Játiva (Xátiva) florescente que viu nascer, no dia 31 de Dezembro de 1378, Alonso Borja.

Este Alonso Borja, que veio a ser nomeado bispo de Valência em 20 de Agosto de 1429 e eleito papa, em 8 de Abril de 1455, com o nome de Calisto III, foi o fautor da expatriação de parte da parentela para Roma e, concomitantemente, da ascensão política, social e económica de um significativo número de familiares que, num golpe de aculturação, transmutaram em Borgia o nome dos Borja.

Após ascender ao trono de S. Pedro (perdoe-se-nos o lugar comum) Alonso Bórgia, também ele transmutado em Calisto III, inicia o processo de convocação dos seus parentes para o exercício de lugares e funções de autoridade, numa operação de assumido, mas nada original, nepotismo, começando por chamar o seu sobrinho Rodrigo a quem concede, em meados de 1455, o cargo de notário apostólico e a quem nomeia cardeal no dealbar de 1456.

Rodrigo Bórgia, o sobrinho-cardeal de Calisto III, então com 25 anos de idade (nasceu em 1 de Janeiro de 1431), enceta, beneficiando da protecção e das prebendas proporcionadas por seu tio, uma vida faustosa e sexualmente exuberante.

Dos numerosos filhos (pelo menos nove) que teve de várias mulheres e que, com gosto, reconheceu, destacam-se os quatro que concebeu com Vanozza Cattanei, a saber, César, Juan, Lucrécia e Godofredo (ou Gioffré).

Rodrigo terá conhecido Vanozza, possivelmente em 1460, quando esta tinha 18 anos de idade mas apenas em 1474, enquanto cardeal vice-chanceler, decidiu instalá-la na praça Pizzo di Merlo, perto do seu palácio, proporcionando-lhe, no mesmo ano, um marido respeitável.

No ano seguinte, em 1475, nasceu César, o primeiro dos quatro filhos comuns, Juan nasceu em 1476, após sua mãe ter enviuvado, Lucrécia em 1480 e o mais novo, Godofredo, em 1481, já depois do segundo casamento de Vanozza com o milanês Giorgio de Croce.

Lucrécia, bem como os seus irmãos, foi, desde a infância, um instrumento político nas mãos de seu pai. Este, enquanto «mero» cardeal, procurou estabelecer alianças matrimoniais à dimensão da sua contingência, embora aquém da sua ambição, com seleccionadas famílias nobres aragonesas, buscando o suporte económico e político dos seus conterrâneos, e tendo, para tal fim, em 1490, prometido a mão de sua filha, então com apenas 10 anos de idade, a Dom Cherubino de Centelles, senhor de Val d’Agora, candidato que, mais tarde, foi substituído por Dom Gaspare d’Aversa, outro nobre valenciano.

Todavia, a ascensão de Rodrigo Bórgia ao papado com o nome de Alexandre VI, levou-o a alterar a percepção sobre a envergadura do poder adquirido, permitindo-lhe reconceber o seu papel na história e na conformação geopolítica da península itálica e projectar novos destinos para si e para a sua família.

Ao passar a encarnar no século o poder divino, Alexandre VI decidiu reavaliar as novas circunstâncias e reequacionar a sua estratégia de alianças políticas e matrimoniais, logrando revogar a promessa de união celebrada com Don Gaspare d’Aversa e a acordar o casamento de Lucrécia com Giovanni Sforza, membro da poderosa família ducal de Milão.

A jovem pré-adolescente acatou, óbvia e respeitosamente, a decisão paterna, e contraiu, em 2 de Fevereiro de 1493, casamento por procuração com o instruído mas violento senhor de Pesaro, com quem consumou núpcias em 12 de Junho desse ano.

Giovanni Sforza virá, pouco tempo após, a tornar-se o primeiro, e quiçá o mais verrinoso, detractor de Lucrécia e arquitecto da sua futura e desditosa reputação.

Com efeito, ainda em 1493, Alexandre VI reconfigurou as necessidades do seu projecto de poder e redireccionou o foco das suas alianças geo-estratégicas, afastando-se do concerto com Milão e aproximando-se do entendimento com o reino de Nápoles, o que deixou o seu genro Giovanni na desconfortável condição de ter de agradar a dois senhores desavindos.

A ambiguidade da situação desaguou na suspeita da traição e no planeamento, por parte de César e de Alexandre VI, do assassinato de Sforza.

E foi então que Lucrécia revelou, pela primeira vez, a forte personalidade que a caracterizava e o espírito íntegro, probo e fiel que, em diversos momentos futuros, viria a confirmar.

Apercebendo-se da conjura arquitectada pelo pai e pelo irmão, e pese embora o desinteresse e o desamor que Giovanni lhe dispensava, Lucrécia decidiu, apesar do perigo que corria e contra os desejos dos seus cruéis familiares, salvar a vida do marido. Para tanto, quando o irmão a procurou para lhe comunicar o plano criminoso, a jovem escondeu nos seus aposentos um criado de Giovanni a quem ordenou que o avisasse, permitindo a fuga do cônjuge e salvando-lhe a vida.

Não logrando a eliminação física do genro, Alexandre VI manobrou com o intuito de obter a anulação do casamento, coagindo Giovanni, cuja primeira mulher morrera de parto, a confessar-se impotente e a declarar que o casamento com Lucrécia não se consumara.

Giovanni Sforza viu-se compelido a proclamar a sua impotência mas, simultaneamente – para além de não ter reforçado o seu apreço pelos Bórgia -, sentiu-se legitimado para lançar a calúnia e o opróbrio sobre os seus novos inimigos, libertando o boato, que se colaria indelevelmente à pele e à reputação de Lucrécia, de que esta manteria uma relação incestuosa com o pai ou, numa outra versão, com o irmão.

O corte estratégico com Milão deveu-se à renovada política de alianças que Alexandre VI redirecionou para o reino de Nápoles e que voltou a contar com a obediência de Lucrécia, permitindo-lhe acordar novo casamento da filha, desta vez com Afonso de Aragão, duque de Bisceglie, filho do rei de Nápoles.

A Afonso de Aragão, a quem amou genuinamente, prodigalizou Lucrécia a atenção, os cuidados e a protecção possíveis, tratando-o com compaixão após o atentado que o deixou às portas da morte, tudo tendo feito, embora sem sucesso, para impedir que César Bórgia o mandasse assassinar.

Porém, mais relevantes para o desenho da figura e para a afirmação dos atributos de Lucrécia do que os actos de coragem e compaixão relatados foram as demonstrações de confiança nas suas capacidades políticas, administrativas, culturais e de gestão tributadas por Alexandre VI, que a nomeou, aos 19 anos de idade, embora temporariamente, governadora de Spoleto e de Foligno.

A confiança no zelo, no discernimento e na valia intelectual da filha voltou a ser afirmada, e até reforçada, quando, em 1501, Alexandre VI abandona Roma, confiando-lhe a direcção do Vaticano e dos assuntos correntes da Igreja, com plenos poderes para abrir todas as cartas dirigidas ao papa.

Esta exibição dos predicados de Lucrécia não era, ainda assim, inocente, uma vez que visava, para além do mais, enaltecê-la perante Afonso d’Este, membro da família ducal de Ferrara, com quem Alexandre VI pretendia, e lograria, consorciar a filha.

Após o casamento com Afonso d’Este, ocorrido, por procuração, ainda em 1501, Lucrécia abandona Roma, à qual não mais voltaria, para se tornar duquesa de Ferrara, em 1505, e, fundamentalmente, para se revelar uma esposa prestimosa, uma mãe carinhosa, uma mulher de cultura, uma protectora das artes e uma fiel piedosa.

Lucrécia esteve grávida onze vezes e deu a Afonso d’Este sete filhos – Alessandro, Ercole II, Ippolito, Alessandro, Eleonora, Francesco e Isabella Maria – dos quais, enquanto progenitora dedicada, foi uma educadora liberal e atenta. Todavia, a sua sagacidade e bom senso manifestaram-se, sobretudo, no período em que assumiu a governação do ducado, por ausência do marido, no decurso do qual protagonizou a difícil defesa dos judeus de Ferrara, protegendo-os, com a proclamação do Édito de 28 de Maio de 1506, dos ultrajes que vinham sofrendo.

A filha do papa Alexandre VI, duquesa d’Este, a quem os habitantes de Ferrara chamaram «a mãe do povo», a musa de Ariosto e de Ticiano, a mulher devota que, em 1518, proferiu votos solenes como Terciária Franciscana, faleceu em 24 de Junho de 1519 de febre puerperal que sobreveio ao seu décimo primeiro parto.

Apesar da integridade e decência que Lucrécia exibiu no decurso da sua curta vida e das provas históricas que contradizem e desmantelam os rumores que, durante séculos, mancharam a sua reputação, o mito sobre a figura fantástica e sobre as suas imaginárias acções ocultas e furtivas, misteriosas e esotéricas, lúbricas e concupiscentes continua – e não deixará de continuar – a sobrepor-se à verdade da evidência.

Na verdade, se atentarmos nalgumas das mais recentes manifestações culturais que versaram sobre esta personagem como, por exemplo, a obra de banda desenhada «Bórgia», de Milo Manara e Alejandro Jodorowsky, a série televisiva «Os Bórgias», criada, entre outros, por Neil Jordan ou, ainda, o romance «A filha do papa», de Dario Fo (o laureado com o Nobel da literatura que, no entanto, não esteve, neste particular, à altura do prémio atribuído), percebemos que a distorção de percepção pouco se distingue da difundida por Donizetti no século XIX ou por Jerónimo Manciani no século XVI.

Quanto a este último, César Bórgia procurou, sem total sucesso mas com enorme crueldade, estancar e vingar a calúnia que, através da divulgação pública de uma carta anónima dirigida a um certo Savelli, pretendia conspurcar a reputação da irmã. O filho do papa, sabendo que o referido Jerónimo Manciani, espalhava por Roma o escrito difamatório, condenou-o ao corte das mãos e ao arrancamento de parte da língua, exibindo o desgraçado napolitano no pelourinho, durante dois dias, com as mãos pregadas junto à cabeça e com a ponta da língua atada ao dedo mínimo.

Quinhentos anos passados, Aleteia não logrou vencer a falsidade e, cansada, acabará por render-se à fantasia. Acompanhemo-la e cedamos à lenda, porque mais intrigante e cativante. Não hesitemos. Ignoremos a História e optemos pelo mito.