Leituras

Marta

por Antónia Sá

“Gorda e feia. Pouco esperta, coitadinha.”

Eis o diagnóstico instantâneo que o meu querido tio fez, assim que me teve na sua presença.

Pena é que eu tivesse acabado de saber que seria aquela pessoa que me criaria “com muito esforço e à custa de dinheiro que ele não tinha”, mas que na verdade me inculcaria uma força e uma vontade de vencer que me permitiriam chegar onde só me permiti em sonhos.

A minha infância decorreu assim sem grandes sobressaltos, sem muito mimo, com pouca brincadeira, mas sempre com uma refeição na mesa e livros e cadernos para estudar. Não foram aliás raras as vezes em que o meu “querido” tio me dizia: “Estuda Marta! Não faças como eu! Olha para mim agora! Tu  estuda, rapariga!”.

Eu, de qualquer forma, não tinha nada de melhor para fazer. E estudava.

Depois veio a adolescência, a “idade da prateleira” como ouvia a minha mãe dizer ao meu irmão mais velho quando eu era miúda pequena. Tempo da estupidez natural, das indecisões, das más decisões, dos amores impossíveis (sobretudo para quem, como eu e como o meu querido tio dizia, era feia), das dietas malucas, do fim do mundo a todo o tempo, dos dramas existenciais. Mas também foi um tempo em que me fui construindo, onde fui criando uma ideia acerca de mim, onde fui ganhando forma de pessoa, onde incrementei a vontade de ser alguém e comecei a apontar às estrelas.

Tudo corria bem na minha vida. Bom…quase tudo. O meu tio, durante os anos que vivi com ele, nunca me deixou esquecer o quanto lhe devia.

Quando me consegui libertar desse jugo – finalmente arranjara um emprego que me pagava condignamente e me permitia pagar uma casa e cremes e roupas e tudo quanto me apetecia beber – saí de casa e aí sim, a minha vida pôde começar. A vida que eu sempre quis, que eu merecia, estava ali à distância de um “sim, aceito”, que eu aceitei e a minha localização geográfica mudou num mês.

Num mês, morava numa das maiores e mais cosmopolitas cidades do mundo e não havia dúvida que a avaliar pela casa que a minha empresa me havia destinado como residência, consideravam-me um asset de que não estavam dispostos a abdicar, pelo menos enquanto eu lhes retribuísse com resultados “muito satisfatórios”.

Reconheciam-me as capacidades de boa negociadora, de resiliência e tolerância a situações de pressão. Eu era de facto adaptável às circunstâncias. O meu espírito procurava sempre ir mais além e melhor, tentando construir pontes onde não parecia existir nada que as suportasse. Os conflitos eram a minha casa. Estava habituada a eles e a resolvê-los. A diferença agora, é que não era eu que estava no centro. Eram outros. Aqueles que me obedeciam.

Meu querido tio… Nem sabes tu quanto me ajudaste… Sem quereres, fizeste de mim, uma pessoa e tanto.

Numa palavra, eu era uma líder. E era assim que eu me sentia. Invencível. Imortal.

A zona de Kensington, onde vivia, era simplesmente incrível. Sobretudo para quem crescera nuns subúrbios.

Adorava ao domingo dar um passeio até Notting Hill e perder-me naquele mar de banquinhas que vendem desde casacos de peles a bric-a-brac do mais variado, ao estilo flea market. Some things never change… As ruas serpenteantes, o colorido das casas, das coisas, das gentes, o tal melting pot deque eu ouvira falar tantas vezes em adolescente e que me ajudou a construir um sonho para mim.

Se me apetecia pensar e organizar ideias, caminhava até Hyde Park, sentava-me à beira do lago e observava tudo e todos, até que a fome apertava e escolhia um dos pubs das redondezas, for a little bit of indulgence. O “Victoria” tinha um lugar especial no meu coração.

 “Quem está cansado de Londres, está cansado da vida, pois há em Londres tudo o que a vida pode oferecer”. E, nesta minha nova vida, eu acreditava mesmo nisto.

Até que o vi. Num daqueles jantares chatos a que por dever de ofício eu tinha de ir. E não há dúvida que ele animou a minha noite. E a minha vida nos tempos que se lhe seguiram.

Era de uma alegria contagiante. De uma boa disposição a toda a prova. Mesmo depois de inicialmente eu ter feito os possíveis para o afastar de mim, com respostas secas e cáusticas. Mas não. Ele não era de desistir. Já vi isto nalgum lado.

No dia seguinte, surgiu-me de rompante no escritório e levou-me para um pequeno-almoço rápido entre duas calls. Foi o suficiente. Não estava preparada para aquela audácia e confiança, donde, sem armas.

Foram tempos frenéticos aqueles que se seguiram. Eu, longe de gorda ou feia, estava agora uma mulher interessante, digamos assim por modéstia. E não há dúvida, que para isto muito contribuía aquela minha característica da liderança.

Frequentámos festas, jantares, convivemos, entretivémos, viajámos.

Rapidamente se mudou para a minha dream house. Que sentido fazia continuarmos separados?! E então, tudo ficou ainda mais perfeito. O sexo era bestial.

Um sonho, dentro do sonho.

Numa dessas festas a que eu tive que ir e a que ele amorosamente me acompanhou, a companhia veio a revelar-se fatal.

Havia pó branco por todo o lado. Quem quisesse só precisava de servir-se. Depois, podia empurrar com algum (ou muito, tanto fazia, tudo era permitido; tudo nos era permitido) Perignon, ou um Dalmore, para gostos mais tradicionais.

Por alguma razão eu quis servir-me. O meu amantíssimo companheiro tranquilizou-me no que respeitava aos efeitos e consequências. Senti-me confiante e eu confiava nele. Experimentei. E voltei a experimentar nos dias que se seguiram. Em todos os dias que se seguiram.

Já referi a capacidade que eu tinha de me afeiçoar às coisas que me davam prazer?

Se no início foi fácil disfarçar a presença na minha vida desta minha nova amiga, a dado passo deixou de o ser. Precisava dela para tudo – para acordar, para adormecer, para trabalhar, para comer, para pensar… para ser. Passei a funcionar em razão dela. E quanto mais a tivesse, melhor. Mais eu teria para ser feliz. O consumo era já tão ostensivo, que eu tive que ir criando uma teia de mentiras para tapar a minha vida real, as minhas falhas, os meus desaparecimentos inexplicáveis. Ia dizendo a mim mesma que não tinha um problema. Que eu deixaria de consumir quando quisesse. So little did I know.

 Não foi preciso muito tempo para a minha personalidade levar a que o meu corpo pedisse mais. E eu dei-lhe. E caí mais, muito mais.

Rapidamente deixei de ser interessante para o meu amantíssimo companheiro. O efeito tóxico das drogas, afectou-me a pele, o cabelo, os olhos, as mãos e a alma. De repente, olhei para mim e já não era líder de nada, nem imbatível ou imortal.

Mas eu continuei. Não conseguia parar. Eu era como um rato na roda, tal como diz a letra, “seguindo para nunca chegar”.

Até que um dia, já numa fase de consumo totalmente louco, fui despertada por um grupo de miúdos a caminho da escola. Devem ter apanhado o susto da vida deles. Estava deitada no meio da rua, sem sentidos e pelo que me disseram mais tarde no hospital, toda vomitada e com cor de quem já havia sido abandonada pela vida. Mais uma vez, a minha estrela não me deixou sozinha. E eu vou mostrar-lhe convenientemente que lhe estou muitíssimo grata.

Apesar do espaço físico onde me encontro agora a lidar com esta questão ser bonito, arranjado, arejado, espaçoso e eficaz, há muito tempo que não estava tão negra por dentro, com tantas dúvidas e medos, tão cheia de nada. Pelo menos de forma consciente. E isso dói-me e custa-me e às vezes penso em desistir. Mas depois volto a olhar bem para dentro de mim e penso: Não era esta a vida que eu merecia, seguramente não foi a que eu pedi. Mas com toda a certeza eu não quero ser igual ao meu tio. Adelante!