Sociedade

Afectos à distância

por Carla Coelho

Em tempos de confinamento social como os que por estes dias atravessamos, uma das coisas (entre tantas pequenas e grandes que fazem os nossos dias em tempos ditos “normais”) sacrificada é o convívio presencial com os amigos. Mas longe da vista não tem de ser e não deve ser longe do coração. Se é certo que a humanidade já conheceu muitas pandemias e outras situações de isolamento (por força de conflitos bélicos, por exemplo) nunca como nos nossos dias houve a possibilidade de nos mantermos em contacto. Por mensagem, por WhatsApp, telefonemas, Facetime ou através de aplicações como Hang Out e House Party (para mencionar duas que descobri a semana passada).

A distância física não é desculpa para não estarmos ao pé de quem gostamos. E exemplos disso não faltam, mesmo em tempos em que os recursos técnicos eram bem menores. Que dizer das cartas de Séneca a Lucílio, governador romano da província da Sicília, de quem nada se sabe para além da sua amizade com o filósofo? Ou da correspondência de Madame de Sévigny cujas cartas dirigidas à filha têm tal encanto e vivacidade que foram também recolhidas em livro e continuam a ser lidas nos nossos dias? Ou da correspondência trocada durante décadas entre Laurence Durrell e Henry Miller, iniciada em 1935 e que se manteve durante décadas. As cartas foram reunidas num extenso volume com o singelo título de Correspondência. De que falam os dois escritores e amigos? De tudo, na verdade. Apoiam-se, falam sobre a vida pessoal, partilham descobertas, ideais e embirrações, queixam-se da vida, celebram sucessos. O mesmo fizeram durante décadas Jorge Amado e José Saramago cuja correspondência está reunida em Com o mar pelo meio – Uma amizade em cartas ou Vieira da Silva e Mário Cesariny (de 1952 a 1985), cujas cartas foram publicadas na colectânea Gatos Comunicantes. Quando lemos estas obras percebemos várias coisas. A ausência de assuntos demasiado grandes ou pequenos para serem partilhados, o prazer da conversa ainda que por escrito e o tesouro que é ter uma amizade assim, resistente a tudo, incluindo a distância física.

Nestes tempos de afectos líquidos, como lhes chamou Zygmunt Bauman, vale a pena atentar nestes exemplos. Pelo prazer da leitura, claro. Mas também porque há qualquer coisa de comovente em perceber o quão intensos e sólidos são os laços que podemos tecer.