Leituras

O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós

por Filipa Gonçalves

Li o “O Crime do Padre Amaro” ainda na adolescência. Causou-me tal impressão que resolvi relê-lo agora. Foi um daqueles livros. Dos que me deixaram um sentimento de revolta, um amargo de boca pelo injusto.

Antes, porém, passemos à trama, admitindo-se ser a súmula eivada de glosas pessoais.

Amaro chega a Leiria após a morte do antigo padre para ocupar o lugar daquele. Rapidamente é incluído nos convívios e hábitos dos sacerdotes locais, entre eles “frades lascivos e glutões”, como o Cónego Dias, antigo mestre-escola do jovem pároco.

Nesta adaptação, em suave remanso, surge a ideia de acomodar Amaro da casa de São Joaneira, amiga mui íntima do Cónego e mãe de Amélia, rapariga de vinte e três anos, bonita, forte e muito desejada.

Amélia aparece pela primeira vez a Amaro com os vestidos acidentalmente um pouco acima da botina, manta branca pela cabeça e na mão um ramo de alecrim. A virgem excita, desde logo, o seu desejo e imaginação. O restolhar de saias perturbará, instantes depois, as orações rituais do pároco já acomodado na casa da São Joaneira.

Amaro, vem-se a saber, era, em criança, uma mosca morta, um enredador, muito mentiroso, sem particulares inclinações clericais. Porém, sem especiais protestos a tal carreira que via como libertação de uns tios opressivos. Cheio de impaciente ambição por vida livre.

No ano antes de entrar no seminário começara, hélas, a reparar nas mulheres, no ruge-ruge de sedas pelos peristilos dos teatros; numa perninha com botinas de duraque e meia muito branca, um braço roliço arregaçado até ao ombro, fragmentos que, de repente, apareciam-lhe no fundo negro da noite. Então, subia-lhe uma preguiça, como a vontade de abraçar alguém, de não se sentir só. “Julgava-se infeliz, pensava em matar-se”.

Em Leiria, o pároco alcança uma admiração untuosa. É jovem e, diz-se, bonito. Passa a ser ungido nas tertúlias beatas na casa da São Joaneira, à Rua da Misericórdia, entre jogatanas e chá com torradas.

Amélia, embora noiva de João Eduardo, logo embeiça-se por Amaro, abandonando-se a delírios apaixonados. A paixão exalta-lhe a fé e o furor religioso, até um amor físico pela Igreja pois não a distinguia verdadeiramente do amado.

É percebendo a ligação entre a noiva e Amaro, que João Eduardo, admirador do Jesus revolucionário, mas odiando padres – julgando-os intriguistas, com hábitos de luxúria, conspirando sempre para restabelecer as trevas medievais – é incendiado pelo ciúme e anticlericalismo. Escreve um comunicado devastador onde aponta, sem ninguém nomear, todos os defeitos e pecados dos padres locais. Insinua, ainda, que um certo clérigo tenta seduzir uma jovem devota. O escândalo rebenta.

Amaro, no rescaldo, abandonará a casa da São Joaneira mas a sua natureza fraca e lassa não deixará de fazê-lo culpar Amélia por o ter seduzido com “os seus olhinhos” amorosos e “maneirinhas” ternas, privando-o daquela casinha tão confortável e atirando-o para outra onde tudo cheirava a mofo. Triste existência!

Ao primeiro sinal de Amélia, porém, o infeliz desfaz-se e volta a frequentar a Rua da Misericórdia, envolvido, no que parece a ambos os apaixonados, por uma conspiração romântica. Batinas e sedas negras são cupidos. Amaro consola-se e apazigua os remorsos que verdadeiramente não sente, dizendo de si para si que o seu amor era uma infração canónica, não um pecado da alma: “Podia desagradar ao senhor chantre, não a Deus”. Evidentemente.

Amélia lembrava-se da desgraçada da Joaninha Gomes, antes “amigada” com um outro padre, entretanto caída em desgraça, agora pedinte, mas nem isso a impede de declarar-se ao pároco, de o abraçar na sua batina.

Após o fugaz triunfo, João Eduardo desgraça-se. É descoberto como o autor do vil comunicado e escorraçado, sem misericórdia, da rua que leva tal nome. Num ímpeto etílico, agride Amaro, empurrando definitivamente Amélia para os braços deste. Perde emprego e consideração.

Amaro vence. Aproveitando o momento, encarneira a donzela para sua casa, expondo-a aos olhos de Dionísia, a criada que lhe servirá de alcoviteira. Esta arranja a solução perfeita para os amantes: encontrar-se-ão na casa do sineiro, o Tio Esguelhas, onde Amélia poderá deslocar-se livremente a propósito dos ensinamentos catequísticos à filha daquele, a Totó, coitada amarrada à cama por uma paralisia. Amaro, por seu turno, poderá deslocar-se discretamente da igreja para o local.

Durante o período de encontros amorosos, delírios românticos e carnes saciadas, chegam a fantasiar com um futuro comum. Agora, Amaro tinha aberto os olhos à realidade humana. “Abades, cónegos, cardeais e monsenhores não pecavam sobre a palha da estrebaria, não — era em alcovas cómodas, com a ceia ao lado”. Não fora o temor de Amélia à ira divina e os ciúmes da Totó seriam felizes.

Amélia vive sobressaltada e quando Amaro a cobre com o manto de Nossa Senhora, tentando beijá-la, começa a ter pesadelos com a santa a pisar-lhe o pescoço, alucinações culpadas. Entra em colapso nervoso. Tais achaques tornam o pároco impaciente e agressivo a ponto de a moça temer tanto a sua cólera como a celestial.

Apesar de todas as dúvidas e do medo do Inferno, o furor carnal impele os amantes para os braços um do outro e daí para a alcova. Era então, no quarto escuro, um delírio de amor enquanto, em baixo, a tísica ia fazendo “trás… trás…”.

No ínterim, o Cónego Dias descobre os encontros e confronta Amaro. Segue-se uma pequena cena de chantagem, o segundo ameaçando expor a relação ilícita do primeiro com a São Joaneira. Os padres entendem-se, como sogro e genro, a amizade fortalecida pelo pacto de silêncio.

Enfim chega o castigo. Amélia está grávida. Amaro prontifica-se a casá-la com João Eduardo, arranjar-lhe emprego e levantar-lhe a excomunhão. Tudo se arranjará. Promete a Amélia ser o seu sofrimento maior que o dela ao vê-la casada com outro. Ela, após iniciais resistências, aceita o seu destino e, em contrapartida, promete-lhe ser a mesma depois de casada. Sempre de Amaro.

Mas João Eduardo não é encontrado a tempo e a rapariga vai engrossando. Então, Dias e Amaro urdem um plano e enquanto o primeiro, a São Joaneira e restantes amigas vão a banhos para a praia da Vieira, Amélia é mandada para o campo, com o intuito de cuidar de Dona Josefa, adoentada. E é assim, que se refugia na Ricoça, entre orações, desmaios, imagens de morte e de inferno.

Abandonada por Amaro, desprezada por Josefa e longe dos demais, Amélia reencontra a sua fé com a orientação do Abade Ferrão, homem de verdadeira crença e coração gentil. Ao conhecer os temores religiosos de Dona Josefa e Amélia, entristece-se. Pensa nos centenares de sacerdotes que trazem assim, voluntariamente, o rebanho naquelas trevas de alma, mantendo o mundo dos fiéis num terror abjeto do Céu e do Senhor, esse pai indulgente e amigo, não um amo feroz e furioso.

No fim, embora saiba não ter a liberdade de fazê-lo, o desejo de Amélia é ficar com a criança. Já Amaro, com medo do escândalo, contrata uma “tecedeira de anjos” para matar o filho assim que ele nascer. Quão melhor será poupar a criança a uma vida de miséria como a dele próprio, consola-se ele!

Amélia morre depois do parto, chorando pelo filho, que vem a morrer, no mesmo dia, aos cuidados da “tecedeira de anjos”, apesar dos avisos de Amaro, instando-a, num derradeiro momento de arrependimento, a tratar bem da criança.

Amaro abandona Leiria, prosseguindo a sua carreira de padre.

Referi, no início, a forte impressão causada pelo romance quando o li pela primeira vez.

Reli-o recentemente, convicta de que tais emoções, largos anos volvidos, não seriam revividas.

Enganei-me.

Em Janeiro de 1880, Eça de Queirós, prefaciando a 3.ª edição da obra, declarava, a dado passo, ser o trabalho “apenas, no fundo, uma intriga de clérigos e de beatas tramada e murmurada à sombra duma velha Sé de província portuguesa”.

É, porém, muito mais do que uma crónica de costumes.

Tratando-se do primeiro romance realista português, o autor rompe com o romantismo, incorporando os métodos de observação científica do positivismo na escrita. Na descrição acutilante – prenhe de adjectivação agressiva – de um ambiente provinciano, em que os personagens são, a um passo, crentes acríticos e tementes ou, a outro, clérigos aproveitadores de tais características, posiciona-se criticamente a favor da reforma social. Ilustra, assim, o anticlericalismo crescente no país à época.

A corrupção do catolicismo e a quebra do celibato são temas primordiais, mas entre os demais não escapa a crítica à maledicência, o vazio interior, o poder opressivo da religião nas escolhas individuais, bem como a dicotomia pobres/abastados.

Na relação de Amélia e Amaro, religiosidade e sexualidade misturam-se, ambos confundindo o desejo mútuo com a adoração mística a santos de altar.

Mas tanto um como outro, na visão positivista de Eça, são produto do seu meio, que não lhes permite outro caminho senão o determinado pelas suas circunstâncias de vida.

Amélia é ingénua, e a tragédia que se abate sobre ela resulta de ignorância incutida por uma mãe beata e hipócrita; Amaro não tem escrúpulos, nem verdadeira vocação. Tal resulta, segundo o autor, do clero lhe ter sido imposto na ausência de outras perspectivas de vida.

Os demais personagens contribuem para manter os protagonistas nas suas circunstâncias. Convêm-lhes a manutenção do status quo e por isso alimentam-no.

Eça, nesta visão determinista, não admite que o Homem possa transcender as suas circunstâncias. Que, apesar dos escolhos, possa escolher outro caminho.

É por isso que, ainda hoje, sinto amargos de boca.

Não obstante não inclinado para o celibato, Amaro poderia ter escolhido ser mais parecido ao Abade Ferrão. A quebra do celibato é a mínima das suas falhas. Uma falha como clérigo, mas não, verdadeiramente, um defeito de carácter. A deformidade do carácter é, porém, a que sobressai.

É egoísta. Não hesita em envolver-se com Amélia, ciente das consequências que aquela sofreria. Poderia ter escolhido uma das suas outras confessadas, mais experientes e mais dispostas, de quem, de resto, aceita amabilidades, mas tal não lhe basta.

É vaidoso. Quer ser um homem com o mesmo direito ao sexo que os outros, mas recusa-se a prescindir dos confortos da classe a que pertence; participar nos festins glutões, ignorantes e maledicentes dos seus pares, estes que desprezam o Abade Ferrão por ter ideias revolucionárias.

É ambicioso, apesar de não especialmente inteligente. Há que controlar a populaça e, na impossibilidade de ser conde, será, com a sua batina, um dos seus domadores.

É cobarde. Nada verdadeiramente o redime. O seu amor por Amélia é pouco mais que desejo; o seu pesar pela morte daquela e do filho de ambos é fugaz e rapidamente ultrapassado pelo descanso do escândalo ter sido enterrado com eles.

É superficial. Depois de tudo, lágrimas de crocodilo pelo meio, prossegue a sua vida de clérigo, agora intrigando tranquilamente por outras partes do país.

Amaro, dentro dos limites das suas circunstâncias – que reconheço – escolhe o caminho mais fácil: o da sua satisfação pessoal, desconsiderando o destino dos outros.

Não tem, nunca terá, a minha empatia.

A Amélia, a essa, não foi feita qualquer justiça.

© Paula Rego. “O Embaixador de Jesus” (Série “O Crime do Padre Amaro”). 1998

© Paula Rego. “Descanso e Fuga para o Egipto” (Série “O Crime do Padre Amaro”). 1998