Sociedade

Irando o Irão

por Luís Nascimento

O ano de 2020 começou insistindo em relembrar-nos que o ano anterior estava mais próximo do que divisões gregorianas pudessem sugerir. Ninguém exemplificou isso melhor do que o presidente americano quando, a 3 de Janeiro, anunciou que tinha eliminado o líder dos Quds do Irão. O assassinato de  Qasem Soleimani – uma figura de relevo e geralmente respeitada no panorama iraniano – desencadeou uma série de eventos que facilmente poderiam ter desencadeado um conflito militar com pesadas consequências, cenário o qual ainda não pode ser excluído. O ano arrancou, portanto, retomando uma série de incidentes e provocações americanas ao regime iraniano que têm pontuado a administração Trump.

A cronologia dos eventos, durante o mandato do 45º presidente dos Estados Unidos da América tem de, por uma questão de precisão, começar em Maio de 2018, quando Donald Trump, no que pode ser apenas interpretado como um capricho revanchista contra o seu antecessor, anunciou a retirada dos americanos do muito celebrado acordo que os próprios, juntamente com o Reino Unido, França , Rússia, China e a Alemanha, tinham estabelecido com a República Islâmica do Irão em 2015. Neste o Irão comprometia-se a abandonar as suas pretensões nucleares ao nível do armamento em troca da eliminação das sanções económicas a que estava sujeito – essencialmente biliões de dólares de fundos iranianos arrestados.

Quando Trump alega que os Estados Unidos “deram” biliões de dólares ao Irão, recebendo “nada em troca”, omite que esse era dinheiro iraniano. O nada que receberam em troca do regime iraniano foi o cumprimento das suas obrigações à luz do acordo estabelecido, cumprimento este que foi prolongado após a saída unilateral dos EUA e a imposição de novas sanções em 2019, mesmo perante o avale dado pela Agência Internacional da Energia Atómica três semanas antes. Sabemos que o presidente americano tem problemas com o dar, embora demonstre enorme facilidade com o receber, mas impõe-se uma revisão dos factos: a pessoa que alega que o mais importante é garantir que o Irão não desenvolva armamento nuclear, é a mesma que abandona unilateralmente o acordo que garantia precisamente que isso acontecesse, invocando que os EUA deram biliões de dólares aos iranianos – dinheiro este que sempre pertenceu ao Irão, em troca de nada (que afinal significa a implementação das estipulações do acordado que se prolongou mesmo após a retirada do mais importante signatário). Após o assassinato por drone de Soleimani no seu território, o Irão anunciou que abandonaria de vez o acordo que até então tinha respeitado. Durante a breve vida do Plano de Acção Conjunto Global pudemos também assistir ao posicionamento de porta aviões americanos nas redondezas do Golfo Pérsico, uma série de ataques a cargueiros petrolíferos de diversas nacionalidades, abatimentos de drones e um conjunto de declarações mais ou menos inflamatórias de ambas as partes.

A natureza provocatória destes eventos e de quem será o responsável pela escalada de tensões está em disputa, embora não feroz, mas não é difícil atribuir o título de actor mais racional. O que se pode dizer é que de um lado temos um regime iraniano teocrático capaz de enormes atrocidades mas com uma política e estratégia clara da defesa dos seus interesses nacionais e regionais e do outro temos um executivo liderado pela estrela do The Apprentice que tem hostilizado os seus tradicionais aliados enquanto elogia conhecidos autocratas. Quem prestasse demasiada atenção poderia até ser induzido a pensar que a maneira mais eficaz de garantir a sobrevivência do seu regime, e a admiração do presidente americano, seria precisamente desenvolver um programa nuclear militar e não abandoná-lo ou sequer iniciá-lo. Isso explicaria a forma como Kim Jong-un viu, num espaço relativamente curto de tempo, fogo e fúria transformados em apertos de mão e oportunidades fotográficas. Estamos colectivamente a assistir  à grotesca mas intencional degeneração da política externa americana em encenação mediática. Anúncios no Twitter, ataques de rockets com direito a aviso prévio, promessas de aniquilação e de crimes de guerra pariram uma redundante conferência de imprensa, apenas digna de nota tendo em conta as dificuldades respiratórias e palavras mal pronunciadas de Donald Trump. Infelizmente, numa região com uma história de conflito e de ingerência tão longa como o Médio Oriente, até prosápia em redes sociais tem repercussões severas, como se viu com o abate do avião ucraniano por umas forças armadas iranianas em elevado estado de alerta. O erro custou a vida a 176 inocentes.

Inicialmente o Irão desmentiu que fosse responsável e demorou três dias para reconhecer a sua culpa. O general Amir Ali Hajizadeh, comandante da brigada aeroespacial dos Guardas da Revolução, terá dito “quando percebi o que tinha acontecido, desejei morrer”. Muitos acharam a admissão tardia, insuficiente e demonstrativa da natureza fundamentalmente maligna do regime iraniano e talvez até possam ter razão, mas se assim for farão bem em lembrar-se de George H. W. Bush quando, durante a campanha presidencial que viria a vencer, declarou que nunca pediria desculpas pelos EUA, independentemente da natureza dos factos em questão. Pois bem, os factos em questão eram um míssil americano que tinha acidentalmente atingido um Airbus 300 sobre águas iranianas  – resultando na morte de 290 passageiros no ano de 1988, em plena guerra Irão-Iraque. As declarações não são três dias após, mas sim já quando se tinha passado um mês desde a queda do voo 655 da Iran Air. Nunca houve qualquer admissão governamental oficial de culpa, além de uma compensação monetária às famílias das vítimas e oito anos depois do incidente em questão.

Este género de enquadramento maniqueísta que insiste em apresentar uns como heróis e outros como vilões é desprovido de conteúdo ou de relevância na análise que deve estar na base de decisões ao nível da política externa. Ainda assim, isso não impediu que o presidente americano e a generalidade dos meios noticiosos utilizassem um filtro tão bipolarizante para apresentar uma realidade extremamente complexa. Em pouco tempo, manifestar discordância com o assassinato ilegal de uma alta patente militar iraniana em território iraniano era, segundo alguns, desculpabilizar ou defender Soleimani. O general iraquiano responsável pela instrumentalização de várias milícias na região do Médio Oriente na persecução de interesses iranianos era, dizem-nos, um terrorista e, como tal, abaixo da lei. Os iminentes ataques a quatro embaixadas americanas, mesmo quando posteriormente desmentidos pelo Secretário de Defesa, teriam justificado o assassinato extra-judicial do líder dos Quds. É incerto o que faz de Soleimani um terrorista e de, por exemplo, James Mattis um herói, a não ser, claro, que um defende interesses iranianos e o outro o imperialismo americano. O general americano intitulado de Mad Dog Mattis – graças à brutalidade com que liderou no cerco de Fallujah onde hospitais, mesquitas, ambulâncias e milhares de civis foram atingidos e até onde foram utilizadas armas de fósforo branco e de urânio empobrecido – não viu o seu rol de crimes de guerra merecer-lhe o epíteto de terrorista, mas sim o cargo de Secretário de Defesa em 2016. Só deixou de ser bestial, para ser “sobrestimado” quando a começou a discordar com a errática política externa do presidente Trump, o que terá levado, no final de 2018, ao seu pedido de  demissão ou despedimento – dependendo da fonte. Stanley McChrystal recusa a mesma simplificação dualista quando adverte que não se deve olhar para Qasem Soleimani como a personificação do mal, mas como alguém que avançava os interesses do Irão na sua região, da mesma forma que ele defendia a posição americana.

Por detrás dos episódios esporádicos e sobressaltos mediático está, naturalmente, uma política americana de belicismo perpétuo que utiliza chavões infantilizantes para obscurecer as suas verdadeiras intenções: a eliminação de regimes e personagens que operam de forma desalinhada com os superiores objectivos dos EUA. O país, aliás, debateu recentemente no Congresso e menos no Senado a dificuldade do seu presidente em diferenciar entre os  seus interesses pessoais e os interesses da nação e até que ponto está disposto em sacrificar os segundos em nome dos primeiros. Donald Trump demonstra tanto um hiper-reactivismo a estímulos comunicacionais exógenos como uma percepção sobrevalorizada dos efeitos que a sua actividade mediática tem sobre os cidadãos americanos.

As motivações do presidente americano nem sempre são fáceis de descortinar, por quebrarem com o habitual modus operandi dos seus predecessores que atribuíram peso cerimonial e simbólico ao cargo que ocupavam – uma deferência que Trump não partilha. As suas próprias hierarquias programáticas são difusas, umas vezes totalmente alinhadas com a agenda tradicional republicana e outras absolutamente desencontradas – como, por exemplo, as tarifas comerciais e guerra comercial com a China que terão horrorizado um Partido Republicano economicamente liberal. Esporadicamente o presidente americano consegue até demonstrar um fundo de humanidade, alguma noção elementar de que um envolvimento militar alargado deve ser evitado, seja pela possibilidade de baixas americanas ou de civis não americanos – uma parcimónia que escapou a muitos outros presidentes – ou pela constatação mais cínica de que estas teriam consequências políticas potencialmente penalizadoras. Uma coisa é certa, Donald Trump evidencia uma certa obsessão com media, tentando garantir cobertura mediática para depois utilizá-la para desviar a atenção dos múltiplos escândalos que assombram o seu mandato, pelo que, quando tudo o resto falha, a lógica mediática é sempre uma ferramenta útil para desvendar o processo de tomada de decisão do presidente americano.

Assim percebe-se que Juan Guaidó, quando confrontado com a sua queda no agendamento mediático global e, consequentemente, na atenção do próprio presidente americano, tenha prontamente ido a uma conferência sobre contra-terrorismo para sugerir, perante o olhar aprovador do Secretário de Estado Mike Pompeu, ligações entre Maduro e o Hezzbolah. A manobra é uma tentativa de reclamar nova visibilidade para a sua campanha não eleitoral para presidente da Venezuela, através da associação improvável de Maduro ao regime iraniano por este ter próximas relações com a organização paramilitar libanesa – classificada por vários países como terrorista. 

Não é raro encontrar revelações no 1984 de Orwell: é a Semana do Ódio e Winston está no meio de uma multidão eficazmente estimulada ao ponto de abnegada raiva quando o discursante do Partido recebe uma nota informando-o que o inimigo havia mudado. Após uma breve confusão, em minutos toda a parafernália propagandística que vilificava um adversário foi rapidamente removida por estar manifestamente, e algo embaraçosamente, desactualizada. E o comício recomeça com um novo alvo para odiar, como se nada se tivesse passado.

(Getty)