Entrevistas

À conversa com Ana Luísa Janeira

por Filipa Gonçalves

Ana Luísa Janeira nasceu no Porto e é filósofa. Caracteriza-se como reflexiva e não especulativa e, talvez por isso, se tenha dedicado ao estudo e ensino da Filosofia das Ciências. Apesar de ter dado aulas em múltiplas instituições, o seu principal eixo docente centrou-se na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, primeiro no Departamento de Química e Bioquímica e depois na Secção Autónoma de História e Filosofia das Ciências.

O seu extenso currículo demonstra bem a sua curiosidade natural, a necessidade de itinerância e a busca activa de perseguir, a cada momento, um ideal.

Foi ela quem escolheu o tema da nossa conversa: o “ideal” e como ele pode moldar o nosso quotidiano. Começa por defini-lo como o “limite do horizonte donde se move”; da percepção de estarmos inseridos em certas circunstâncias e essas configurações terem os seus limites. Esses limites traçam as linhas para as quais se quer tender, fazer o percurso para atingir um determinado alvo. No seu caso, o projecto, o ideal, tê-lo, constitui por si só uma energia, no sentido de se tender à realização. Seja o mesmo pequeno ou grande.

Não por acaso, insistiu em conduzir o seu carro, recentemente adquirido, para se deslocar de Lisboa ao bonito Convento de São Saturnino, na Azóia, local onde conversámos com o vagar que algumas ocasiões impõem. A realização do pequeno projecto deixou-a satisfeita. Sempre considerou que a estrada não era linear e que “em qualquer momento da vida, mesmo em coisas muito pequenas, devemos reunir as nossas energias no sentido de vencer aquilo que pode bloquear-nos”. Foi o que fez neste caso, e em tantos outros que nos relatará. Pelo caminho fomos falando de vários tópicos que ocupam a sua reflexão actual, desde as alterações climáticas ao, no seu entender, grande desafio da sociedade ocidental: o de ultrapassar o binarismo no qual assenta estruturalmente. Aproveitamos para falar sobre as teorias de género e do trabalho de Judith Butler e de Paul B. Preciado, temas que mereciam toda uma outra conversa.

É assim que Ana Luísa vive a sua vida. Em movimento, mas ancorada no presente. A propósito da minha caracterização a seu respeito, reflecte sobre aqueles que, independentemente da educação e da cultura, lhe parecem ter nascido para estar parados, acomodados a um quotidiano onde se sentem mais confortáveis. No seu caso, não hesita em responder que ideal, para si, é o oposto: “quanto me sinto parada, questiono-me se não estou demasiada adaptada àquilo que, sem esforço, é já um adquirido”.

Na septuagésima década da sua existência, o que mais constata no convívio com pessoas da sua idade é que estas estão bem na situação em que se encontram. Aceitam a doença, a diminuição de forças, um quotidiano menos prazeroso, e até encontram uma certa gratificação nas idas ao médico. Sobre isso refere: “não vou inventar nada para ter de ir a médico. Vou tentar resolver com as minhas forças e capacidades as minhas questões”. Reconhece aí uma busca de meios para, eventualmente, assegurar a juventude eterna. A sua posição é outra. Nem melhor nem pior, diz. É a de adaptar-se, não esperando do seu corpo e do seu espírito as mesmas capacidades que já teve, mas continuando a exigir de si sem recurso externo.

A preocupação pela auto-suficiência surge-lhe, assim, como fundamental. Não recorrer aos outros para resolver as questões, tentando, dentro do que tem e “pondo a cabeça a funcionar”, encontrar a solução para um problema que está a ter. Foi assim que, sozinha e recorrendo a métodos caseiros, arranjou a fechadura do seu apartamento. A circunstância de ser ver na iminência de mudá-la, optando por uma porta blindada como os seus vizinhos, irritava-a e não se conformou com ela.

Esta característica matricial revela-se num outro aspecto da sua vida. Num ideal revelado desde muito cedo. Ana Luísa é uma grande viajante. Tinha quatro ou cinco anos, encontrava-se no grande quintal da casa dos seus pais no Porto, rodeada de cedros e irritada, quando achou que não tinha nada haver com aquilo, “que mal pudesse ia fazer tudo para sair daquele contexto”. Um desejo de fuga. A partir de então decidiu resolver certas coisas. Uma delas era dormir em qualquer local, e começou a treinar-se a dormir no chão, o que actualmente faz na perfeição. Viajou de Atenas a Istambul numa ocasião em que havia uma guerra aberta entre gregos e turcos relativamente ao Orient Express, com atrasos no comboio. No regresso houve um atraso e viu-se na contingência de ficar na estação durante oito horas, entre um monge ortodoxo, um indivíduo que parecia um espião russo e um outro, americano, que trazia um saco cama. O pragmatismo fê-la pedir emprestado o saco cama, que pôs no chão e onde dormiu até ao embarque. Também desde cedo procurou preparar o seu corpo para resistir a bactérias e micróbios, expondo-se, dentro de certa medida, aos mesmos. Consumir iogurtes fora de prazo não perturba Ana Luísa. São treino e preparação.

Sobre desejos de fuga, lembra-se vividamente de, a certa altura, um primo seu ter ido estudar para Brighton e mandar um postal com uma imagem turística. Não sendo uma pessoa naturalmente invejosa, naquele momento o sentimento formou-se dentro de si: “senti que ele tinha uma sorte por lá estar, enquanto eu estava no Porto”. Mais tarde, em 1971, Ana Luísa viria a doutorar-se em Filosofia Contemporânea pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne) e deu aulas em instituições na Europa (Montpellier e Sheffield); e nas Américas (Québec, Pernambuco, Minas Gerais, Mato Grosso, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Missiones).

O seu entusiasmo pela viagem resulta de nunca ter acreditado que o mundo se limitava àquilo que vivia. O mesmo entusiasmo tem pelo cinema, pois este, mais que a literatura, foi sempre a grande fonte para descobrir mundos que estavam fora do seu quotidiano. Ainda hoje o que mais a atrai nas pessoas é a diferença. Tal não significa, necessariamente, que tenha facilidade de viver com ela, pois reconhece em si “algumas notas de conservadorismo que o dificultam”. Mas a atracção é a diferença. É esta, e a convivência com pessoas que têm outros mundos, que faz o seu mundo expandir-se. O ensino, a que se dedicou toda a vida, foi neste particular, um manancial por estar constantemente deparada com os mais novos, estes que, em principio, pensam diferentemente.

A descoberta, de outros costumes, de outras línguas, do exótico, é-lhe muito atractiva. Quando ainda andava no liceu, no Porto, no período de férias, resolveu conjuntamente com o seu grupo de amigas, cerca de cinco, corresponderem-se entre si, mas cada uma assumiria uma determinada personalidade. A própria, não por acaso, assumiu o papel de Fernão Mendes Pinto, contando nas suas epístolas às amigas, entre as quais a Marquesa de Alorna, o que se passava na China. De resto, quando chegou a Macau, o primeiro país que visitou no Oriente – a sua curiosidade pela Ásia relacionou-se muito com o intenso trabalho que empreendeu sobre as missões jesuíticas – deparou-se com aquele mundo que encarnava a figura de Fernão Mendes Pinto.

Apesar do gosto pela Ásia, não hesita em eleger a América Latina como o sítio em que “viagem” é sinónimo de aventura. Tudo é difícil: as redes de transportes, os problemas fronteiriços e de segurança. As viagens em estudo dos jesuítas, que definiram rotas depois tornadas comerciais e, mais tarde, de tráfico de droga ou de fuga de diamantes e outras riquezas, em camioneta, transporte primordial na área e por natureza mais frágil que o comboio, tornaram a sua experiência muito marcante.

Na Venezuela, por exemplo, foi várias vezes interceptada pelo exército armado na Roraima. Quando lhe pergunto se há limites para o desconforto, relata a sua experiência na Bolívia, em 2006.

Dirigia-se a Santa Cruz de La Sierra, tendo o avião parado antes em Cochabamba, a terra de Patiño, conhecido pelo “Rei do Estanho” e responsável pela “festa mais fabulosa que algum dia se realizou em Portugal”. Entabulando conversa a este propósito com um companheiro de viagem, este alertou-a para a pobreza do país, onde a maior parte das estradas são de terra. Pretendia estudar as missões jesuíticas ali perto o que implicava várias viagens que foram difíceis. Relata, com humor, que ainda hoje tem dificuldade em comer frangos, recordando-se do modo como os animais se encontram acondicionados num mercado local nas imediações do local da paragem da camioneta para San Javier. A Igreja da Missão era, porém, surpreendente. Tinha valido a pena.

(Altar da Igreja de San Javier, Bolívia, imagem: Jesse Kraft/Alamy )

De regresso a Santa Cruz de La Sierra, para melhor perceber a localização das missões, decidiu deslocar-se a Potosí, a capital da Prata e que se dizia ser a cidade mais alta do mundo, antes de marcar presença num encontro onde interviria como palestrante. A estação de camionetas estava cheia de gente numa algraviada, as camionetas eram antiquíssimas e fizeram-na recordar as que viu na Madeira quando se deslocou à ilha pela primeira vez. A camioneta para Potosí atravessava os Andes, tinha que sair de noite para que os passageiros não vissem e não tivessem medo das ribanceiras e o condutor tinha como idade limite 21 anos para aguentar a viagem. As malas iam no topo da camioneta. As mulheres usavam tranças e chapelinhos que, veio a saber, eram os que as espanholas usavam e ficaram como marca de uma certa qualidade. As camionetas paravam muito poucas vezes e em casas particulares para os passageiros irem à casa de banho. Um buraco no solo ao fundo do quintal da casa. Como contrapartida, o passageiro dava ao dono da casa uma quantia monetária que era uma miséria, mas fundamental para a economia familiar. Foi um episódio que muito a marcou pelas diferenças entre tal realidade e a do dito primeiro mundo.

Chegou a Potosí com grande entusiasmo, o de estar a realizar um sonho. Meteu-se num táxi e logo o jovem condutor informou-a que nesse dia ocorria um desfile, uma das maiores festas da terra. Acabaram por ver juntos o desfile enquanto o rapaz lhe explicava todos os detalhes da festividade. Uma coincidência espontânea e feliz, perfeitamente possível antes do 11 de Setembro, que alterou profundamente o paradigma da viagem para tantos.

De regresso ao hotel tomou chá de coca para evitar os efeitos indesejáveis da altitude e deitou-se. No dia seguinte, acometida de dores de cabeça, recomendaram-lhe uma deslocação ao centro de saúde. Ana Luísa não seguiu o conselho e foi ao mercado comprar um molho de coca para mascar como os locais. Afinal, se eles o fazem… Logo se sentiu melhor, andou pela cidade cheia de conventos lindíssimos, por lojas para comprar um objecto de prata, tudo “numa boa!”. Admite ter exagerado na toma de coca pois começou “a ver o mundo todo cor-de-rosa. Nem me importava se a camioneta chegava ou não ao destino. Comecei a sentir-me num mundo de maravilha! Não há nada como gozar a vida”, ri-se enquanto conta a aventura. A dada altura, porém, a lucidez interpôs-se: concluiu que estava a sentir-se demasiado bem e que tinha que prosseguir viagem para a conferência. E assim o fez.

(Potosí, Bolivia, imagem: Stadel)

Apesar de apologista dos transportes públicos, pretendendo deslocar-se da Bolívia para a Argentina, concretamente para Córdoba, a sugestão de uma argentina que tinha conhecido na conferência e que também se deslocava para o mesmo local, acedeu fazê-lo de táxi. Qual não foi a sua surpresa quanto o motorista aproveitou o percurso para transportar e entregar pelo caminho botijas de gás! E, para economizar quilómetros, acabou por não as transportar ao sítio acordado, deixando-as à beira de um rio, que tiveram que atravessar com mala! E ainda foram recebidas do outro lado por um ataque de mosquitos! Acabaram por perder a camioneta para Córdoba. Ana Luísa ri-se a contar a história, embora na altura não tivesse achado graça em perder a viagem que tanto desejava fazer. No caso, não foi a circunstância de ter companhia que reduziu problemas e perigos. Outra lição que aprendeu.

Numa outra viagem à Bolívia, foi sequestrada, uma experiência já relatada por quem a acompanhou, mas não entende que tal tenha ocorrido por ter ultrapassado quaisquer limites. Nem quer falar sobre ela. Aconteceu.

As aventuras de Ana Luísa são inesgotáveis, algumas com um evidente lado anedóctico. Em Machu Picchu, depois de ter subido de Águas Calientes, foi acometida de um problema lombar. E de uma diarreia, maleita bem conhecida dos viajantes. Chegada a Santa Cruz de la Sierra, a meio da noite não conseguia levantar-se para ir a casa de banho. Felizmente para si, em São Paulo, ciente da dificuldade de ir à casa de banho nos percursos de camioneta da América Latina, tinha-se aprovisionado de fraldas, ideia que não seduziu, nem convenceu, a sua companheira de viagem que a achou uma loucura! Em nenhum momento, Ana Luísa pôs a hipótese de interromper a viagem. Recuperada, foi providenciado transporte para deslocação às missões de San Javier, Santana e outras, numa carrinha conduzida por Benito. Em cima da carripana, ia uma máquina de costura que Benito destinava à sua namorada, residente na última terra onde passariam e onde assistiram a uma missa magnifica com um coro de crianças que ainda hoje seguem a tradição de ensino dos jesuítas: “isto é que é educar!”, diz. Estas missões, dos Chiquitos, eram dos mesmos jesuítas que tinha estado com os Guarani, mas estas últimas estão na sua maioria destruídas donde o interesse de Ana Luísa no seu estudo. Em viagens de estudo já tinha estado no Uruguai e Paraguai. Neste foi clandestina tendo por companheiro de viagem um “brasileiro fabuloso” que logrou que entrassem no país só para ver as missões, conduzidos por um chauffeur doutorado em Biologia e que no Verão era taxista para ganhar uns cobres.

Ana Luísa sentiu sempre esta experiência das missões jesuíticas na América Latina como um objecto de estudo que muito a realizou, o de “continuar a ver como as ideias ficam. As boas e as más. Eles iam tão penetrados do papel que iam realizar, tão entusiasmados (…) dificilmente a gente imagina o que foi o entusiasmo que os jesuítas puseram no primeiro contacto com o exótico no mundo”.

Tem horror a guias de viagem e a fazer leituras prévias pormenorizadas que possam perturbar ou interferir com a sua visão daquilo que observa. Sobressai, também aqui, um desejo de independência de quem assume preferir viajar sozinha. Pretende explorar os novos lugares com o que tem já dentro de si, não com o que vem de fora. A cultura adquirida ao longo da vida surge assim como segurança.

O seu próximo projecto é ir ao Tibete, apesar de saber que a subida das escadarias de Lhasa poderá ser desafiante.

Mas, hoje, diz não fazer dramas se não viajar mais. Aborrece-a ir a sítios onde todos vão e duvida que possa ver coisas tão impactantes como as que já viu. Se as houver, está certa serem na ordem do Natural e não do Museológico.

Visitar os Andes, os Himalaias, o Deserto de Gobi, fazer a Rota da Seda, sobrevoar a Amazónia, foram experiências inolvidáveis; como mais impactantes escolhe o deserto na Austrália, com a ausência de pessoas, casas ou postes de electricidade num percurso de quarenta e oito horas entre Adelaide e Darwin; e o deserto no Colorado, pelo seu colorido lindíssimo; os desertos, diz, são todos diferentes.

(Ana Luísa Janeira no Nepal, imagem de ALJ)

A mulher que, num retiro no Nepal, era confundida com uma monja budista quando se sentava, maravilhada, a ver o Evereste enquanto os demais se dedicavam à meditação, está profundamente ancorada na actualidade e interessa-se, sobretudo, em perceber o que fazer com o que sente.

É, definitivamente, filósofa.