Leituras

Dia Mundial do Livro Infantil

por Carla Coelho

A primeira vez que comi os tradicionais bolos ingleses tinha nove ou dez anos. Foi a minha mãe quem mos fez depois de eu lhe ter perguntado o que eram por estarem sempre a aparecer nos lanches de Os cinco. Sem recurso ao Google, a minha mãe lá descobriu que bolinhos eram aqueles e daí para a frente, passei a acompanhar as aventuras da Zé, Ana, Júlio, David e Tim, devidamente munida de um pratinho deles.

Não sou daqueles adultos que gosta de ler livros infantis. Fui imune ao Harry Potter e, se recentemente li Veloz como o Vento de Gine Victor, foi sobretudo por curiosidade motivada por a história se passar na Mongólia, uma das minhas viagens de sonho. Gostei de ver a Frozen (levemente inspirada no conto de Hans Christian Andersen A Senhora das Neves), mas a verdade é que o encanto dos livros infantis me passa ao lado. Ana das Empenas Verdes de L.M. Montgomery foi uma excepção, muito resultante das maravilhosas recordações que tinha da série que passou na televisão.  Dar margem para a imaginação, lema da protagonista, é algo de que não nos devemos esquecer no nosso quotidiano.

Mas, em plena crise pandémica, decidi-me a reler Os Cinco que há anos repousavam esquecidos nas prateleiras térreas das minhas estantes. Foi ao comer um scone que essa vontade surgiu, num momento à la Proust algo inesperado. Há muitas coisas que este período de isolamento social afastou de nós, mas o reencontro com os livros da infância, no meu caso, não é uma delas. E, assim, nos últimos dias mergulhei nas aventuras dos Cinco com o entusiasmo de outros tempos. Nas montanhas de Gales, no Castelo da Bela Vista e nos rochedos do demónio. Na Índia (recuperando o fabuloso rubi Akbar) ou num baile de máscaras (mais uma vez desmascarando um larápio de jóias), num campo de férias ou quando um desvio do avião os faz aterrar na floresta amazónica, acabando por dominar os piratas do ar. Em retrospectiva, é mesmo impressionante a quantidade de aventuras em que os quatro primos se metiam e a forma como saíam sem pouco mais do que um arranhão das mesmas.

A minha expedição às estantes infantis não se ficou pelas aventuras dos Cinco. Deambulei pelo colégio das gémeas Isabel e Patrícia O’Sullivan, também ele saído da pena de Enid Blyton. Mantenho a convicção que tinha quando li as suas aventuras pela primeira vez: ceias à meia-noite com sardinhas em conserva e latas de leite condensado não podem ser uma boa combinação. É curioso pensar como Blyton (também autora de Os Sete e o Noddy) era na verdade uma pessoa desagradável e que não gostava particularmente de crianças (incluindo as suas). Essas revelações (postas a nu, por exemplo, em O mundo de Enid Blyton de Alice Vieira) não ensombram, contudo, o apaziguamento que encontrei ao mergulhar de novo nos seus livros.

Outra autora que fez parte da minha infância foi a condessa de Ségur. Russa de nascimento, francesa por força de um casamento, por sinal infeliz, Sofyia Feodorovna, foi escritora tardia, mas prolífica. Já passava dos cinquenta quando escreveu o seu primeiro livro. As férias, O Brás, As meninas exemplares, Os desastres de Sofia, A menina insuportável e Depois da Tempestade vem a Bonança, bem como os meus favoritos, A pousada do Anjo da Guarda e O General Dourakine. Lidos uma e outra vez na infância, até saber frases de cor. Poderia tê-los relido, mas na estante ao lado, outros amigos de infância chamaram-me mais alto: Astérix e Obélix, com as suas aventuras por todo o império romano. Da Bélgica à Normandia, da Lusitânia ao Egipto, convivendo de forma descontraída com os grandes desse mundo, como Cleópatra (e o seu famoso nariz) e Júlio César. Qual de nós não gostaria de ter a fórmula da poção mágica e arrasar o vírus com a eficácia com que os irredutíveis gauleses destruíam os acampamentos do exército romano?

E, por fim, o clássico dos clássicos para mim, A princesinha de Frances Burnett, outra prolífica escritora inglesa (autora também de O Jardim Secreto). Recordou o director da pequena escola primária que frequentei a ler-nos um capítulo desta narrativa todos os dias. Também podíamos ler o livro sozinhos, pois a escola tinha uma pequena biblioteca, a que os alunos e alunas podiam aceder depois das aulas. A história de Sara Crewe encantou-me especialmente. Vinda da Índia com pouco mais de sete anos para frequentar um colégio inglês, rica e amimada, Sara cai em desgraça depois da morte e aparente ruína do pai. Mas a perda da fortuna material deixa intocados os seus principais tesouros: os valores que lhe foram inculcados e a imaginação. A princesinha foi o primeiro livro que procurei nas livrarias e nunca esquecerei o dia em que o meu esforço foi, de modo inesperado, recompensado com o encontro de um exemplar. Foi o meu primeiro book hunting, quando ainda não sabia sequer o que isso era.

Vem tudo isto a propósito do Dia Mundial do Livro Infantil que se celebra hoje. De uma infância feliz fazem parte livros, disso tenho a certeza. Talvez não estes, que são os meus (embora certamente partilhados por muitas pessoas da minha geração), mas certamente outros. Com imaginação, que instilem valores, não sendo meros relatos vazios de sentido e que por isso não deixam marca na alma de quem os lê.

Não desconheço os perigos da narrativa única tão bem postos em relevo por Chimamanda Ngozi Adichie. É verdade que quando releio a Condessa de Ségur consigo vislumbrar algum preconceito social (uma certa romantização da pobreza). E não ignoro as críticas que são feitas a vários dos livros da minha infância por leituras revisionistas. Mas a verdade é que não é essa a recordação que guardo. O que os Cinco, Sara Crewe e o Astérix, entre outros, me ensinaram foi o valor da coragem, da generosidade e da resiliência. Com eles aprendi que cada problema tem uma solução e que não é preciso ser super-herói para a encontrar. Já adultos são muitos os dias com mares revoltosos e céus turvos. Regressamos à infância como uma memória de dias felizes (para quem teve a sorte de os ter tido) e, o que os livros desses tempos nos ensinam, é que as dificuldades da vida se ultrapassam. E que depois da tempestade vem a bonança!