No radar

Stranger Things

por Fernando M.*

Vivemos tempos estranhos.

Não pretendo aqui abordar a ultramediatizada pandemia, o medo, a esperança, a clausura, a hecatombe económica, sequer o porquê de nos vermos confrontados com uma doença que põe em crise o nosso modo de viver como sociedade. Não tenho (pa)ciência ou filosofia para tanto. Não obstante sei que a maioria de nós, cativa nos lares, tenta buscar sentido para estes dias de incerteza, de olhar posto num amanhã esperançoso. Há quem se dedique às redes sociais, agora despojadas de fotografias de viagens de fazer inveja, selfies no ginásio ou de pratos em restaurantes da moda. Outros, como eu, avessos ao artificialismo das redes dedicam-se à leitura, às séries e aos filmes. Tudo é válido para suportar a passagem do tempo neste regime domiciliário. Por serem tempos estranhos, finalmente, consegui dedicar o meu tempo à terceira temporada de Stranger Things.

A série da Netflix criada pelos irmãos gémeos americanos Matt e Ross Duffer tornou-se, logo desde o lançamento, um extraordinário sucesso de audiência, crítica e até merchandising. Passada nos anos 80 na fictícia cidade de Hawkins, no Indiana, a primeira temporada centra-se na investigação do desaparecimento de um jovem rapaz – Will – ao mesmo tempo que ocorrem eventos sobrenaturais, incluindo o aparecimento de uma misteriosa rapariga dotada de poderes de telecinesia de seu nome Eleven. A esta temporada seguiram-se mais duas, cujo argumento omito a fim de evitar spoilers, sendo que está certa uma quarta temporada e, talvez, uma quinta final que porá termo às aventuras daquele animado e corajoso grupo. Se é verdade que muita da magia da série está contida no irreverente argumento pleno de momentos sobrenaturais, a piscar o olho ao terror, humor, aventura e afeto, não é demais salientar as inúmeras referências à cultura pop da época, expressa na roupa, “penteados à tijela”, comida, séries ou filmes como Goonies, Ghostbusters, Neverending Story, etc., que nos fazem estabelecer de imediato uma relação com a criança/adolescente que fomos.

No entanto, para mim o melhor da série é o elenco primoroso. As crianças, já não tão crianças na terceira temporada, assumem legitimamente o papel de protagonista como grupo coeso. Entre elas não resisto a destacar a muito talentosa Millie Bobby Brown, que interpreta a misteriosa Eleven, e Gaten Matarazzo como o desconcertante nerd Dustin. No campeonato dos adultos reencontramos Winona Ryder num papel principal, revelador que o talento é algo que perdura muito além das polémicas pessoais. Por sua vez, David Harbour, através do seu Chefe de Polícia Jim Hopper, elevou o seu nome à categoria de protagonista, mostrando versatilidade nas cenas de ação, humor e amor atrapalhado. Os atores convidados ao longo das temporadas são eles mesmo um tributo ao espírito revivalista e de cultura pop que a série representa, recuperando clássicos protagonistas de filmes dos anos 80 como Matthew Modine, Paul Reiser, Sean Astin – que foi um Goonie e será para sempre o hobbit Samwise Gamgee.

Numa altura em que não podemos escapar, precisamos de momentos de escapismo. Sugiro a dimensão alternativa de Stranger Things, vai ver que vale bem a pena.


* Sobre Fernando M:
“Sou dos livros, dos filmes, do Teatro, da mesa e das esplanadas nos dias de Sol”.