Leituras

O Iniciado (V)

por Adriana Calado

É um tremor de terra?, perguntei. Só faltava mesmo uma reedição do 1 de Novembro de 1755 pensei.

– Fomos descobertos!

De repente, um dos livros que estava a cair abriu-se. De dentro dele saltou um exército medieval, composto por uma miríade de homens armados até aos dentes, uns a pé, outros a cavalo. Com a sua chegada a sala tingiu-se de encarnado e verde, espalhando-se um cheiro a enxofre no ar. Ouviam-se gritos de guerra, choros e bramidos de uma população que adivinhávamos dizimadas, sem ver. Guilherme, com presença de espírito digna de um cruzado, agarrou-me pelo ombro, apontando uma brecha que se tinha aberto numa das estantes.  O fogo estava a fechar o espaço da sala. As luzes apagaram-se, restando apenas a da lareira.

Vi Carolina a tentar apanhar o livro de onde saíam em catadupa mais membros daquele exército infernal. Um deles, agarrou-a de imediato pelo pescoço. No seu rosto com traços tártaros desenhava-se um sorriso cruel enquanto vociferava o que parecia uma prece numa língua que não percebia. A sua voz impunha-se a todo o cenário medonho que nos rodeava. Apesar da energia com que ela o pontapeou penso que não teria conseguido salvar o seu delicado pescoço se não fosse a intervenção de Antonino. Desmentindo os anos que parecia ter e armado com uma espada reluzente, desferiu um golpe nos braços do guerreiro, cortando-lhe ambos os braços. Apontou a Carolina a mesma brecha de fuga e fez-lhe sinal. Estranhamente, para mim que conhecia a tendência dela para questionar a mais leve ordem, foi obedecido. Entrámos os três pela brecha que se adequou ao nosso tamanho. Olhei ainda para trás a tempo de ver um dragão púrpura a lutar contra o inesperado exército que tinha invadido da sala. Não consegui vislumbrar Antonino.

À medida que avançávamos um corredor ia-se abrindo à nossa frente. Contudo, como não se fechava com rapidez suficiente, percebi que alguns guerreiros tinham conseguido penetrar na brecha antes que se fechasse, perseguindo-nos.

Parámos numa encruzilhada com cinco caminhos empedrados. Tínhamos água pelos joelhos e apenas a luz dos telemóveis que, pelos menos nessa parte, tinham voltado à vida. No demais, sem rede, sem surpresa.

–  Será melhor separarmo-nos?, perguntei.

Os meus amigos arfavam. Carolina respondeu:

– Não, todas as vezes que nos separámos, morremos. Desta vez ficamos juntos.

Guilherme aditou:

– Não quer dizer que não morramos também. Isto não está famoso.

Pela minha parte não estava em condições de discutir. Tive uma sensação de dejá vu, mas não era o momento de explorar. A realidade que se me impunha obrigava-me a convocar as poucas forças de que dispunha para aquele momento.

Carolina tirou uma caixinha em madrepérola de dentro do casaco. Via-se que também estava cansada.

– Vamos tentar uma coisa, mas temos todos de acreditar… ouviste Leonardo? Se um de nós não acreditar não vamos sair daqui.

– Para sair daqui eu acredito em tudo!

– Vou só confirmar uma coisa, disse Carolina.

Da caixinha saiu um papiro muito pequeno. Carolina desdobrou-o e memorizou a que quer que lá estivesse escrito.

– Vamos dar as mãos?

 – O quê?, ouvi-me a dizer, perplexo.

O tropel dos cavaleiros que nos perseguiam tornava-se mais próximo.

– Têm de acreditar, caraças! Se não será mais uma tentativa desperdiçada. E outra coisa, não larguem as mãos até estarmos longe daqui.

Demos as mãos e com toda a força da minha alma quis acreditar. “Acredito, acredito, acredito”, murmurava. Em retrospectiva, nem sabia no que acreditava, queria era acreditar.

Rodámos com força colossal. Senti que estávamos a abandonar a encruzilhada, mas o ponto de fuga não eram qualquer dos caminhos que tínhamos conseguido ver a partir dela. Fui envolvido pelo frio, quase com a sensação de ser congelado, depois gradualmente a temperatura tornou-se mais amena. Ao mesmo tempo, fomos girando de modo mais suave, por tempo que nunca consegui definir com rigor nas minhas reflexões posteriores. Horas, dias? Não sei. Sei que fui invadido por uma sensação de paz, um silêncio, uma plenitude, impossíveis de descrever por palavras. Passaram-me pela mente recordações de infância. Vi-me (era eu, sem dúvida) com quatro ou cinco anos, montando a cavalo numa pequena aldeia falando o dialecto provençal com dois ou três pequenos da minha idade. Depois, uma outra imagem, era eu de novo, alto, magro, envergando uma túnica branca debruada a ouro, integrado num cortejo de homenagem a Osíris… Nunca antes me tinha sentido assim. E não mais tornei a experimentar tal sensação de leveza a tranquilidade. Abri os olhos e percebi que estávamos os três sentados sobre uma nuvem. À nossa frente, erguia-se o planeta Terra.

– Morremos? Ouvi Guilherme perguntar.

Senti um aperto no peito, pensando na minha mulher de quem me tinha despedido de forma tão despreocupada para ir jantar com um amigo. Nunca mais a veria! Senti as lágrimas nos olhos.

Mas Carolina tomou a palavra.

– Não, a nossa hora ainda não chegou. O Antonino acabou de sacrificar a vida por nós, mais uma vez. Não sabemos quando ou mesmo se vai voltar. Resta-nos prosseguir o trabalho dele. Voltar ao nosso mundo e abrir caminho para o novo iniciado.

Olhou para Guilherme. Nada retorquímos. Pela minha parte estava siderado. Pelos acontecimentos e pela beleza do planeta que tinha à frente. Não percebia racionalmente nada do que me estava a acontecer. Mas tinha de ser honesto comigo mesmo: não estava embriagado, não tinha ingerido quaisquer substâncias e decididamente, não estava morto. Ouvi-me dizer:

– Bom, parece que temos trabalho à nossa espera.

– Sim, mas aproveitemos para contemplar de novo esta maravilha … não é todos os dias que podemos ver de fora o nosso planeta. Olhem, além é Portugal.

Ficámos em silêncio durante algum tempo. Não sei em que momento fechei os olhos vencido pelas emoções do dia

Acordei na minha cama, com uma sensação de cansaço incompreensível para a minha mulher, uma vez que, segundo me disse, tinha dormido cerca de 24h. Não tinha dado pela minha chegada e estava a mesma a ficar preocupada face às longas horas de sono seguido, uma situação nunca antes vista.

Ouvi-a enquanto comia uma fatia de pão com doce de tomate, interrogando-me se tudo teria sido um sonho. Em casa tudo remetia para a habitualidade e a minha mulher não me fez qualquer reparo quanto a comportamentos bizarros. Pode ter sido fruto da minha imaginação, pensei, sentindo-me algo desiludido. Decidi que ia ligar aos meus amigos para ver como estavam.

Antes disso, porém, sentei-me à frente da televisão a beber o café. Arregalei os olhos com a notícia que passava de modo uniforme nos canais de televisão: o avistamento no céu em vários pontos do planeta de um objecto não identificado. Pareciam três torres, dizia a televisão francesa. Eram figuras humanas, dizia o comentador da CNN em direcção do Texas. Também tinha sido visto nos céus da China e da Austrália. E, claro, em Portugal, onde tinha desaparecido dos radares. Ouvi as explicações científicas, as interpretações religiosas e metafísicas e as anedotas que começavam a circular a propósito do episódio.

Fui ao bolso interior do casaco e tirei o livro de Germano, agora Guilherme, de lá. Consegui ler o capítulo que lhe era dedicado. Aliás, os acontecimentos da noite anterior iam sendo escritos por uma mão invisível mesmo à frente dos meus olhos.

Respirei fundo, mais maravilhado do que assustado. O telemóvel tocou. Com um sorriso nos lábios atendi. A aventura ia continuar, isso era seguro.