Sociedade

A palavra dos outros: História de género ou história total?

por Pedro Urbano

Como ciência que estuda o passado da humanidade, analisando os acontecimentos e processos já decorridos, a História tem ela própria sofrido ao longo do tempo transformações, decorrentes dos avanços científicos, das mutações políticas, sociais, económicas e culturais que lhe permitiram integrar novas abordagens, novas metodologias e novos campos de investigação.

Estas transformações foram visíveis sobretudo no século passado, com a criação do movimento historiográfico que nasceu em torno da revista Annales d’histoire économique et sociale. Publicada a partir de 1929 pelos historiadores franceses Marc Bloch (1886-1944) e Lucien Febvre (1878-1956), esta escola historiográfica incorporou metologias das ciências sociais, dando primazia aos processos de longa duração, nomeadamente económicos e sociais, mas também culturais e das mentalidades. Este novo método de fazer História, que visava uma História completa e total que não ficasse limitada à história política, militar e diplomática, como até então acontecia, permitiu o alargamento da utilização de outro tipo de fontes, levantou novas problemáticas e facilitou a interdisciplinaridade no estudo do passado. Nesse sentido, valorizou o estudo da evolução demográfica, económica e social da humanidade, como também das mentalidades e das formas de sentir e pensar das sociedades passadas, rompendo por isso com as formas tradicionais de fazer História.

A própria evolução histórica terá influenciado a forma de escrever a História. Quando em 1791 a dramaturga francesa Olympe de Gouges (1748-1793) redige a Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne, reclamando para as mulheres os mesmos direitos e deveres que os seus congéneres masculinos, ou no ano seguinte a escritora inglesa Mary Wollstonecraft (1759-1897) publicava A Vindication of the Rights of Woman: with Strictures on Political and Moral Subjects, ambas e outras como elas abriam paulatinamente o caminho para a emancipação da mulher, consubstanciada no movimento sufragista de finais de século XIX e ao longo de toda a primeira metade do século XX, desembocando no movimento de emancipação das mulheres, das décadas de 1960 e 1970. Estas transformações sociais, facilitadas igualmente pelos dois conflitos bélicos mundiais do século passado, que permitiram às mulheres transitar da esfera privada à qual estiveram confinadas durante séculos para a esfera pública, possibilitaram o desenvolvimento do estudo acerca da história das mulheres, a partir especialmente dos anos de 1980. Até então, a histografia tendeu a ignorar, ou pelo menos a minimizar, o impacto das contribuições femininas para o curso dos acontecimentos históricos.

A história das mulheres analisa o papel desempenhado por estas ao longo da mesma, através de métodos e fontes próprias e sob diferentes prismas. Destaca-se o método biográfico aplicado ao percurso individual acerca daquelas que se foram distinguindo ao longo do tempo em diversas áreas, ou os métodos prosopográficos para a análise de grupos. A análise do progressivo alargamento dos seus direitos ou o efeito que os acontecimentos históricos tiveram especialmente para as mulheres, no seu todo ou em parte, têm sido também objecto de estudo.

O desenvolvimento da história das mulheres tem permitido o desenvolvimento dos chamados estudos de género. Apresentando-se como um campo de estudo interdisciplinar, engloba não apenas os estudos sobre a mulher – a sua história, a sua expressão artística, política ou científica; o feminismo e género – mas também os estudos sobre os próprios homens, o conceito de masculinidade, bem como os estudos queer, podendo estar relacionados também com a sexualidade. Os estudos de género estudam portanto os conceitos de género e sexualidade em diversas áreas, não só na história, como em outras ciências sociais e humanas, como a sociologia, a antropologia, a literatura, a ciência política, o direito, as ciências da comunicação, mas também do ponto de vista da medicina e da saúde pública.

Em Portugal, o desenvolvimento da História das mulheres só foi possível após a revolução de 1974, muito embora a Escola dos Annales tivesse tido impacto em alguns historiadores portugueses, como Joel Serrão (1919-2008), Oliveira Marques (1933-2007) ou Vitorino Magalhães Godinho (1918-2011). Num primeiro momento, como demonstrou a professora Catedrática da Universidade de Coimbra e historiadora especializada em História Contemporânea de Portugal e em particular em História das Mulheres e do género, Irene Vaquinhas, a historiografia privilegiou essencialmente as heroínas, ou seja, aquelas que desafiaram a norma e o poder masculino, fossem elas as detentoras do poder – como rainhas, mas também as republicanas e sufragistas, as jornalistas, em suma, todas aquelas que se destacaram em determinada área – no poder, na literatura, na música, nas artes visuais, na ciência ou na educação.

Todavia, escrever a história das mulheres encontra sempre um problema principal, que é a questão das fontes. Se a participação feminina sempre se viu apartada da res publica, grande parte das fontes oficiais, emanadas pelos poderes públicos naturalmente acabam por apresentar poucas referências à sua actuação neste campo. Durante bastante tempo, esta questão foi colmatada com o recurso a fontes literárias, nomeadamente romances. No entanto e mais uma vez, dava-nos uma visão enviesada da realidade, não só por grande parte da literatura ser uma ficção, como também porque muita da que foi tornada canónica ter sido escrita por homens.

Na verdade, para se fazer História, é necessário utilizar diversos tipos de fontes, averiguar a sua veracidade e grau de fiabilidade, interrogá-las, confrontá-las, de modo a diminuir as possíveis contradições entre si, encurtar silêncios, colocar de parte hipóteses reformuladas anteriormente. No caso da história das mulheres, a primazia deverá ser dada às fontes documentais por si produzidas, pois são elas o próprio objecto de estudo e não a visão que os outros tiveram delas. Se as fontes oficiais, como foi dito, não abundam em referências a este objecto de estudo, como ultrapassar esta questão? Olhando naturalmente para o espaço privado e doméstico, onde nas sociedades antigas as mulheres estiveram circunscritas durante séculos, recuperando a sua voz, na primeira pessoa, através da pesquisa e estudo dos materiais documentais por si redigidos, sejam cartas, memórias ou até mesmo poesia, grande parte dos quais não foram até ao momento publicados ou sequer estudados.

Símbolo de estatuto social, a correspondência trocada entre familiares, parentes ou pessoas de relações próximas assistiu a um profundo desenvolvimento sobretudo a partir do século XVIII. Embora restrita aos grupos sociais favorecidos – os que tinham acesso à literacia – a correspondência, bem com a escrita de diários tem sido alvo de atenção crescente, por permitir dar voz a alguns dos excluídos das fontes oficiais. Felizmente, a preservação destas fontes e a sua paulatina disponibilização aos investigadores, fruto de diversas campanhas de sensibilização activas junto dos possuidores de espólios pessoais, arquivos de família ou de comunidades, tem permitido o seu estudo e facilitando o incremento do conhecimento, não apenas da história das suas produtoras, como também do quotidiano, das redes de influência e da própria circulação de informação e saberes. Tal é o caso do projecto Women (ego): nineteenth century Portuguese female self-writing, da NOVA-FCSH, que pretende identificar, estudar e relacionar as mulheres portuguesas produtoras de documentação manuscrita ao longo do século XIX, focando-se essencialmente em egodocumentação, seja correspondência ou diários.

Alargando as fontes utilizadas e não se restringindo exclusivamente à produção impressa, literária ou não, o conhecimento acerca do papel desempenhado pelas mulheres nas sociedades antigas é também aprofundado. Naturalmente, este método permite apenas dar-nos conhecimento essencialmente dos grupos sociais favorecidos e muito pontualmente de todos os outros, quantitativamente mais significativos. Ainda assim, é necessário executar este trabalho, de forma a permitir uma visão mais completa – e mais real – das sociedades do passado.

Nesse sentido, é importante o entendimento de que a escrita da história das mulheres, como qualquer outra investigação histórica, pretende colmatar o silêncio relativamente ao passado e, em última análise fazer uma história global e total e com isso, muito mais real e verdadeira. Se o estudo e compreensão do passado lançar as bases para um debate actual mais inclusivo, mais justo e equilibrado, tanto melhor, pois o papel do historiador não deve ficar confinado à academia, mas proporcionar o debate e a reflexão sobre a sociedade na qual se insere.


Pedro Urbano é Investigador integrado do Instituto de História Contemporânea, NOVA- FCSH