Leituras

O Iniciado (IV)

por Adriana Calado

Ainda hoje me surpreende o modo como os demais convivas não ouviram o meu coração a bater descontroladamente. Tinha-se instalado uma atmosfera de normalidade a partir do momento em que nos sentámos à mesa que apenas a mim, pelos vistos, parecia bizarra.

Antonino fazia as honras da casa. Anfitrião atento, renovava ofertas: um pouco mais de queijo? Quer mais vinho?, olhe que este Borgonha é a última garrafa da reserva… Não pode deixar de experimentar os pêssegos, um amigo enviou-mos de Kunlun Shan, tem lá uma plantação, são divinais.

A partir daquela noite deixei de ter ilusões sobre a normalidade. De algum modo, sempre me pareceu que a vida e o mundo tinham de ser mais do o que nos era dado numa primeira aparência. Andei hesitante aqui e ali, dividido entre o desejo de encontrar respostas e uma vontade de as destruir com a minha incredulidade mascarada de espírito científico. Esta noite que relato mudou o meu paradigma se assim o posso dizer. Mas estou a dispersar-me. Volto ao meu relato.

A pessoa que se escondia atrás da máscara recordava-me alguém. Todavia, não conseguia perceber quem. A sua voz, os seus gestos eram-me familiares. Germano estava como um peixe na água. Sem reserva contou aos nossos interlocutores o curso dos acontecimentos que nos tinham conduzido até ali. Perante o olhar divertido de Antonino pediu-me de volta o livro que eu tinha guardado e mostrou-lho. O velho livreiro folheou-o de forma displicente e depois devolveu-mo.

– Guarde-o Leonardo, consigo está seguro.

Depois, quem se escondia atrás da mascarilha tomou a palavra, dirigindo-se a Germano:

– Realmente, não mudaste nada ao longo dos anos Gui! Continuas igual: franco, caloroso, incapaz de resistir a um mistério e incapaz de guardar um segredo.

– Gui? De onde vem isso? Ninguém me trata por esse nome… Nós não nos conhecemos, creio.

– Com a mascarilha, será difícil ter a certeza, disse eu, talvez se a tirasse …

A conversa prosseguiu com o meu amigo, como se eu não tivesse falado.

– Essa tua honestidade e abertura têm-te custado a vida uma e outra vez. Por mais que tentemos proteger-te, meteste-te em sarilhos. Interrogo-me se será desta vez que conseguimos deixar a profecia realizar-se.

O fogo parecia estar a morrer na lareira. Com um gesto, Antonino reavivou-o.

Assombrado perguntei:

– Qual profecia?

Antonino tomou a palavra.

– Bom, sabemos que o que vos vai ser revelado será uma surpresa e que vai testar os limites da vossa inteligência, sobretudo da sua Leonardo.

Fiz um sorriso amarelo. Antonino prosseguiu indiferente.

– Vocês conhecem-se de facto há séculos, há oito vidas, para ser mais preciso. O que não significa que sejam amigos há esse tempo todo. Mas sempre tiveram uma inclinação, uma empatia, que levou a que agora se tenham encontrado de forma plena. Convosco, também coincidiu Cyrene de Basternac.

 Apontou para a figura ao seu lado que deixou cair a máscara.

– Carolina!, dissemos os dois em uníssono.

Tive um ataque de riso, aliviado. Mas o olhar sério da nossa amiga fez-me voltar ao estranho mundo em que estávamos. Foi Carolina (ou Cyrene) quem tomou a palavra:

– Sempre foste um incrédulo Leonardo. Às vezes interrogo-me se a tua linhagem não será mais antiga e se tu não és Tomé. Nunca consegui perceber porque insistes em acompanhar-nos se te recusas a acreditar no que o teu coração há muito diz. Tens pago bem cara essa dualidade. Da última vez que te vi estavas ao lado de Giordano Bruno, outro que também nunca soube navegar o espírito dos tempos. Estavam os dois no Campo das Flores, em Roma, muito quentinhos … Desta vez, foi decidido que devias encontrar o Guilherme numa fase ainda jovem da tua vida, para evitar males maiores.

Germano tomou a palavra:

– Mas quem é Guilherme? E que males maiores aconteceram ao Leonardo? Estás a dizer que ele morreu num auto-de-fé?

Carolina revirou os olhos. Pegou no livro que estava esquecido em cima da mesa e abriu-o, lendo:

– “Acredita-se que Germano Brás era o alias de Guilherme de Toulouse, feito prisioneiro nas cruzadas, depois de se ter apaixonado por uma princesa moura. Rejeitado, Guilherme renunciou à vida mundana e foi viver para o deserto, aí tendo fundado um mosteiro.”

Sentia-me a ferver por dentro.

– Oh Carolina, para lá com isto, teve piada mas está a ir longe de mais …, gritei num esforço para recuperar uma certa normalidade. Ocorria-me que talvez aquilo fosse uma espécie de jogo, um Escape Room esotérico. Algumas coisas não podiam explicar-se, como termos ido ali parar, mas eu estava disposto a aceitar tudo, tudo, menos que estava a viver uma verdadeira experiência do outro mundo.

A sala começou a girar de repente. Agarrei-me à mesa da refeição, único ponto que se mantinha fixo. Todos procuravam um apoio, mais urgente pela velocidade que as voltas da sala iam ganhando. Mesmo Antonino tinha perdido a sua fleuma e procurava resguardo junto de uma estante. Uma má decisão, pois os livros caíam em catadupa, a um ritmo infernal.