No radar

O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion

por Raquel Reis

Andava eu num frenético zapping na plataforma Netflix, algures em 2017, quando dei de caras com um documentário com o título sugestivo de “O centro não consegue suster-se”. Li a sinopse e fiquei curiosa. O documentário pretendia retratar a vida de uma escritora/jornalista americana, de seu nome Joan Didion, tia do realizador e entrevistador Griffin Dunne. O último conhecia, enquanto actor (quase sempre secundário) de filmes de Hollywood, mas a primeira desconhecia, em absoluto. Falha gravíssima (eu me confesso e penitencio…)!

Alguns meses mais tarde, voltei a tropeçar na Joan Didion. Desta feita, no livro “O ano do pensamento mágico” que encontrei na prateleira de uma livraria. Lembrava-me bem do documentário e de ter ficado impressionada com a natureza digna, não obstante frágil e quase anorética, daquela mulher que falava da morte do marido e da sua filha (com um intervalo de meses entre ambas), de uma forma aparentemente tão serena e racional.

Folheei-o e, logo na primeira página, duas frases friamente verdadeiras: “A vida muda num instante. Num dia normal”. Estava a Joan Didion a escrever as primeiras palavras do livro e eu festejava os meus 25 anos. Assim começa “O ano do pensamento mágico”. No dia 20 de maio de 2004.

Trouxe-o comigo e, em boa hora o fiz, porque é seguramente um dos melhores livros que li em toda a minha vida.

Nas palavras da autora, esta foi a sua tentativa de perceber o que se seguiu à morte do marido, consequência de um enfarte, enquanto jantavam. Num dia normal.

É um relato da dor e do luto (enquanto ato de lidar com a dor), escrito de uma forma bela e serena, a antítese da ideia que temos da morte e sobretudo da morte de alguém que é parte de nós.

Percorremos o ano seguinte àquela fatídica noite, o ano do pensamento mágico, em que a autora, à superfície aparentemente racional, aguardava secretamente o regresso (impossível) do marido. Por isso quis ficar sozinha na primeira noite. Por isso não quis dar as suas roupas. Para que ele regressasse…

A descrição factual e objectiva dos eventos daquele primeiro ano, seguramente vício jornalístico da autora, para quem informação é controlo, vai sendo habilmente intercalada com uma descrição intimista dos “vórtices” da sua memória, que nos remetem para episódios de uma união de 40 anos, entre duas pessoas singulares. E é nesta dualidade narrativa que conseguimos perceber o que Joan Didion perdeu (e antecipar aquela que poderá vir também a ser, um dia, a nossa própria perda).

O pensamento mágico da autora vai-se desvanecendo, à medida que o primeiro ano se aproxima do fim e a inexorável passagem do tempo começa a transformar os mortos na fotografia em cima da mesa.

Essa é a dura realidade que alguém tinha de retratar, porque a literatura que lhe é dedicada foi sempre escassa, até Joan Didion ter escrito este livro.

Joan Didion refere que “desejaria ter, em vez de palavras e do seu ritmo, uma sala de edição de imagem, equipada com Avid, um sistema de edição digital, na qual eu premiria uma tecla e faria colapsar a sequência do tempo, mostrando assim, simultaneamente, todos os fotogramas da memória que me chegam neste momento, e deixar que o leitor escolhesse as sequências, as expressões ligeiramente distintas, as leituras variáveis das diferentes frases”. Tal lamento não tem qualquer razão de ser. As palavras e o seu ritmo, os pensamentos íntimos que se repetem em itálico, facilmente nos conseguem fazer entrar no “vórtice” das memórias da Joan Didion. Apetece simplesmente dizer, como fez o falecido marido, ilustre romancista americano John Gregory Dunne: “Porra. Nunca mais me digas que não sabes escrever. E este é o meu presente de anos para ti”.


Raquel Reis nas suas palavras: Um coração dividido entre o bulício da capital e a paz das serranias transmontanas; entre o vermelho e branco do Benfica e o azul-grená do G.D. Chaves; entre a luz de Lisboa e o nevoeiro de Aqua Flavie. Há espaço para tudo. Tem de haver…